22/06/2002
Número - 264


     

Urda Alice Klueger

   

NASCEU!!!

Domingo, 19 de maio de 2002, 9 horas da manhã no Brasil, 9 da noite em Timor-Leste. Jornais portugueses na Internet acompanhavam, momento a momento, o que estava acontecendo lá do outro lado do mundo – era o final do parto de um novo país, o oitavo país de língua portuguesa, e com o zelo que as mães têm, Portugal, a mãe da língua e da cultura, fazia roda em torno do que ocorria como uma galinha choca o faz em torno de um ovo que está se quebrando para dar origem a mais uma vida. Timor-Leste estava quase nascendo como país independente!

Eu, irmã ou sobrinha de Timor-Leste, não sei bem (se o Brasil é irmão, sou eu então sobrinha?) acompanhava atentamente o que ocorria, e ia passando as notícias para alguns amigos.

Meio dia daquele dia no Brasil; meia noite, quer dizer, zero hora de 20 de maio de 2002 lá do outro lado do Planeta – é o momento em que se quebra o ovo, e Timor-Leste é recebido na comunidade internacional como novo membro, como país livre e independente, que muito sofreu e lutou para chegar àquele status. Cá no Brasil a alegria me enchia a alma, e pus-me a escrever para um amigo o que sentia.

Daí alguém vai dizer: o que é que nós, brasileiros, temos a ver com o pequeno país que nasceu lá tão longe, doze fusos horários e dois oceanos a nos separar? Daí eu respondo: temos tudo a ver, a começar pela História. Acho que todo o mundo se lembra que os portugueses chegaram pela primeira vez ao Brasil, oficialmente, em 1500 – pois em 1511 chegaram também àquela ilha que recendia a perfume de sândalo, só 11 anos depois de terem aportado à Terra de Vera Cruz. Se aqui encontraram muita gente vivendo por este vasto território, também lá a havia, gente que resultara de antiquíssimas miscigenações acontecidas entre antigas glaciações, e que deveria ser parecida com a gente que lá hoje mora, gente que só vi, até agora, em fotografias ou no excelente filme que Lucélia Santos fez (www.timor-ofilme.com) , mas que espero um dia conhecer pessoalmente.

Pois os portugueses chegaram a Timor na mesma época que aqui chegaram, e lá implantaram sua língua e seus costumes, bem como aqui o fizeram – eram as bases para se criar um irmão para o Brasil, mas quanto tempo passou para tal irmão nascer de vez, com respeito e consideração! Muito Timor-Leste amargou ao longo do tempo: sob o jugo de Portugal ficou até 1975, quando proclamou sua independência. Timor-Leste é produtor da perfumada árvore do sândalo; é terra de fertilidade; tem mar com petróleo; tem loucuras de beleza para turista ver; situa-se num ponto do Planeta que é como se possuísse uma porteira entre o Oceano Índico e o Pacífico. Lugar mais promissor não pode haver e é claro que lugar assim desperta cobiça. Ali ao lado está a Indonésia, com milhares de ilhas, e nem um mês se passou desde a independência de 1975, para a Indonésia querer para si mais aquela meia-ilha*, e invadi-la (A outra metade da ilha é Timor-Oeste, e tem toda outra história). É terrível a gente lembrar do que aconteceu: nos primeiros anos de ocupação, mais ou menos um terço da população foi massacrado, alguma coisa em torno de 200.000 pessoas, de gente que, como nós, tinha a herança portuguesa, e, se isto não basta, tinha, como nós, a herança humana.

O domínio e a violência da Indonésia continuaram até 1999, quando houve um plebiscito: 78% da população votou a favor de ficar independente da Indonésia e de ressuscitar a língua portuguesa, banida desde 1975. É claro que a Indonésia não gostou: e o sândalo, e os búfalos, e o petróleo, e as belezas para os turistas, e o ponto estratégico? Como ficaria a Indonésia sem todas estas coisas? Foi terrível o que aconteceu a seguir: cerca de 5.000 pessoas foram violentamente massacradas. Alguns destes massacres consegui ver em fotografias em páginas portuguesas da Internet, porque o Brasil praticamente nada noticiou. Oitenta por cento de tudo o que estava construído em Timor-Leste foi sumariamente destruído pelas milícias armadas, pelos militares indonésios e os soldados inimigos, isto incluindo igrejas, prédios públicos, hospitais, etc. O que não conseguiram destruir de outra forma, foi incendiado. O horror se instalou no Território, cuja população teve que se esconder nas montanhas para tentar salvar a vida. Com alguma demora, em outubro de 1999, uma força de paz da ONU lá chegou para tentar botar ordem na casa.

Agora, passados mais de dois anos, Timor-Leste nasceu, afinal, como país independente. É um pequeno e valente país que já viu todos os horrores. É um pequeno país que voltará a falar a nossa língua. Seu presidente eleito, Xanana Gusmão, líder da resistência contra a Indonésia, é, entre outras coisas, um poeta. Nós dizemos Timor-Leste por comodidade - na verdade, em palavra de uma de suas línguas, o tétum, Timor-Leste se chama Timor Lorosa’e, o que significa dizer: Timor onde o Sol Nasce Primeiro, ou Timor, O do Sol Nascente.

Se Fernando Pessoa nos disse que “nossa pátria é nossa língua”, então Timor Lorosa’e, com o português e o tétum, é também nossa pátria. E como não é qualquer país que tem um presidente poeta, achamos por bem transcrever, abaixo, um poema de Xanana Gusmão, onde fica muito claro os horrores que aquele país irmão viveu.

Gerações

Nomes sem rosto / corações esfaqueados / de lembranças / nas lágrimas de crianças / chorando pelos pais...

Mais do que a morte / que os fez calar / em cada gota de lágrima / a cena cruel

...uma mãe que gemia / sem forças seu corpo desenhava / marcas da angústia esgotada

Os farrapos que a cobriam / rasgados / no ruído da sua própria carne / sob o selvático escárnio / dos soldados indonésios / em cima dela, um por um

Já inerte, o corpo da mulher / se tornou cadáver / insensível à justiça do punhal que a libertara da vida

enquanto... / golpes de coronhadas / se repercutiam / nas gotas de lágrimas que iam caindo / da mesma face das crianças

Um pai se ofendera / no último não da sua vida / a mulher violada / assassinada sob os seus olhos

O cheiro da pólvora / vinha de muitos furos / daquele corpo / que já não era corpo estendido / sem forma de morte

e...

As lágrimas secaram / nas lembranças das crianças / veio o suor da luta / porque as crianças cresceram

Quando os jovens seios / estremecem sob o choque eléctrico / e as vaginas / queimadas com pontas de cigarro / quando testículos de jovens / estremecem sob o choque eléctrico / e os seus corpos / rasgados com lâminas / eles lembram-se, eles lembram-se sempre:

A luta continuará sem tréguas!

Cipinang**, 5 de Novembro de 1995

Xanana Gusmão, Mar Meu (1998)

Dados complementares:
População atual do Timor Lorosa’e: 750.000 pessoas
Território: 15.000 km2, mais ou menos o tamanho do Vale do Rio Itajai-Açu.
Preço do sândalo no mercado internacional: 20.000 dólares estadunidenses por m3 • * A parte ocidental da Ilha de Timor, com exceção do enclave leste-timorense de Oecussi-Ambeno, pertence à Indonésia. Esse país foi colonizado por neerlandeses a partir do século XVII, das então Províncias Unidas, atuais Países-Baixos, e seus habitantes não se identificam culturalmente com os de Timor-Leste.
• ** Um dos locais onde Xanana Gusmão esteve preso na Indonésia.

Blumenau, 01 de Junho de 2002.


(22 de junho/2002)
CooJornal no 264


Urda Alice Klueger
historiadora, escritora 
Membro da Academia de Letras de Santa Catarina
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina
Blumenau 
urda@flynet.com.br