Urda Alice Klueger
OLIVEIRAS |

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Quando coloquei o título aí acima eu pensei em árvore; penso, porém,
que a imensa família Oliveira que habita o Brasil e outros lugares do
mundo, deve ter pensado que se tratava dela – e então aproveito para
falar um pouquinho a respeito também.
Lá no passado da Europa, quando a Igreja já se assenhorara das terras
e das almas daquelas gentes, ser judeu era a maior complicação. A
maioria dos países europeus perseguiu violentamente essa gente que era
acusada de ter ”matado Jesus Cristo”, sendo a Espanha a campeã em
torturas e barbaridades contra esse povo que apenas queria viver a sua
vidinha, e Portugal um dos mais bonzinhos – Portugal queimou um bocado
de judeus em praça pública, também, mas, na maioria, ele os aceitou
quase como irmãos, quando eles, esfalfados pelas perseguições e
torturas, vinham bater à sua porta. A condição de Portugal era que se
batizassem, que se tornassem cristãos. Eles não pediam muito: que
soubessem rezar o Pai-Nosso e a Ave Maria, e que soubessem fazer o
sinal da cruz. Condições preenchidas, os judeus de todos os lados
podiam vir para Portugal, sendo batizados na fronteira, onde recebiam
nomes, digamos, “cristãos” – nomes de plantas, de árvores, em geral.
Daí os Silvas, os Pereiras, os Oliveiras ... e mais uma porção deles.
A partir do batismo e do novo nome, tais ex-judeus passavam a ser
chamados de cristãos-novos. Portanto, a família Oliveira, que se
interessou aí pelo título da minha crônica, é uma família de
cristãos-novos – como o são tantas outras no Brasil.
Explicado sobre os cristãos-novos, vamos às outras oliveiras, as
árvores.
Já desde pequeninos que ouvimos falar delas: Jesus chorou no Horto das
Oliveiras, foi traído por Judas no Horto das Oliveiras, e por aí vai.
Admiradora que sou de grandes árvores folhufas, de copa imensa, ou de
delicados salgueiros que parecem dançar quando o vento bate neles,
sempre achei que a tal da oliveira deveria ser alguma árvore muito
linda, coisa para a gente ver e nunca mais esquecer, algum prodígio da
natureza, já que lá na Palestina se faziam até “Jardim das Oliveiras”
e todo o nosso ocidente cristão falava nelas como em árvores
importantes.
Então, um dia, em Portugal, grande produtor de azeitonas e de óleo de
oliva, conheci pessoalmente a tal árvore que produz essas coisas.
Gente, que decepção! Uma oliveira é uma árvore que vive alguns
milênios – aquelas sob as quais Jesus chorou ainda devem estar
vivendo, lá na Terra Santa, caso os tanques judeus não as tenham
esmagado ultimamente, quando saem a brincar de guerra com palestinos
armados de pedras e que acabam estraçalhados. As oliveiras vivem
alguns milênios – e são feias, muito feias. Nunca vi árvore mais feia
na vida. É uma árvore baixinha, nodosa, cinzenta, que a cada ano,
entra milênio e sai milênio, produz folhas cinzentas e azeitonas, e
toda aquela produção naquele pequeno tronco cor de cinza torna-o
extremamente nodoso, rugoso, retorcido, uma visão bem mais feia do que
se olharmos para o Guernica de Picasso. Fiquei decepcionadíssima com
aquelas árvores que, na terra árida da Palestina, fazem parte até de
jardins.
Então, domingo passado, numa pizzaria com meu amigo Viegas, vi uma
latinha de óleo de oliva produzido na... Argentina! Aí fiquei muito
curiosa! Em algum momento da história da América, trouxeram oliveiras
para cá, aclimataram-nas na Argentina. Quanto tempo pode fazer isto?
Talvez 300 anos, talvez 200? Não sei, mas fiquei divagando a respeito.
Oliveiras de 200 anos ainda devem ser bem bonitinhas, sem aquela coisa
milenar que a deixa com cara de bruxa malvada. Talvez a oliveira
argentina até tenha um pouquinho da leveza de um salgueiro. Fiquei
doidinha para conhecê-las, para tirar a má impressão. Qualquer dia dou
um jeito de ir à Argentina dar uma olhadinha!
Blumenau, 24 de abril de 2003.
(31 de maio/2003)
CooJornal no 317
Urda Alice Klueger
historiadora, escritora
Membro da Academia de Letras de Santa Catarina
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina
Blumenau
urda@flynet.com.br