31/05/2003
Número - 317



     

Urda Alice Klueger

   

OLIVEIRAS

Quando coloquei o título aí acima eu pensei em árvore; penso, porém, que a imensa família Oliveira que habita o Brasil e outros lugares do mundo, deve ter pensado que se tratava dela – e então aproveito para falar um pouquinho a respeito também.

Lá no passado da Europa, quando a Igreja já se assenhorara das terras e das almas daquelas gentes, ser judeu era a maior complicação. A maioria dos países europeus perseguiu violentamente essa gente que era acusada de ter ”matado Jesus Cristo”, sendo a Espanha a campeã em torturas e barbaridades contra esse povo que apenas queria viver a sua vidinha, e Portugal um dos mais bonzinhos – Portugal queimou um bocado de judeus em praça pública, também, mas, na maioria, ele os aceitou quase como irmãos, quando eles, esfalfados pelas perseguições e torturas, vinham bater à sua porta. A condição de Portugal era que se batizassem, que se tornassem cristãos. Eles não pediam muito: que soubessem rezar o Pai-Nosso e a Ave Maria, e que soubessem fazer o sinal da cruz. Condições preenchidas, os judeus de todos os lados podiam vir para Portugal, sendo batizados na fronteira, onde recebiam nomes, digamos, “cristãos” – nomes de plantas, de árvores, em geral. Daí os Silvas, os Pereiras, os Oliveiras ... e mais uma porção deles. A partir do batismo e do novo nome, tais ex-judeus passavam a ser chamados de cristãos-novos. Portanto, a família Oliveira, que se interessou aí pelo título da minha crônica, é uma família de cristãos-novos – como o são tantas outras no Brasil.

Explicado sobre os cristãos-novos, vamos às outras oliveiras, as árvores.

Já desde pequeninos que ouvimos falar delas: Jesus chorou no Horto das Oliveiras, foi traído por Judas no Horto das Oliveiras, e por aí vai. Admiradora que sou de grandes árvores folhufas, de copa imensa, ou de delicados salgueiros que parecem dançar quando o vento bate neles, sempre achei que a tal da oliveira deveria ser alguma árvore muito linda, coisa para a gente ver e nunca mais esquecer, algum prodígio da natureza, já que lá na Palestina se faziam até “Jardim das Oliveiras” e todo o nosso ocidente cristão falava nelas como em árvores importantes.

Então, um dia, em Portugal, grande produtor de azeitonas e de óleo de oliva, conheci pessoalmente a tal árvore que produz essas coisas. Gente, que decepção! Uma oliveira é uma árvore que vive alguns milênios – aquelas sob as quais Jesus chorou ainda devem estar vivendo, lá na Terra Santa, caso os tanques judeus não as tenham esmagado ultimamente, quando saem a brincar de guerra com palestinos armados de pedras e que acabam estraçalhados. As oliveiras vivem alguns milênios – e são feias, muito feias. Nunca vi árvore mais feia na vida. É uma árvore baixinha, nodosa, cinzenta, que a cada ano, entra milênio e sai milênio, produz folhas cinzentas e azeitonas, e toda aquela produção naquele pequeno tronco cor de cinza torna-o extremamente nodoso, rugoso, retorcido, uma visão bem mais feia do que se olharmos para o Guernica de Picasso. Fiquei decepcionadíssima com aquelas árvores que, na terra árida da Palestina, fazem parte até de jardins.

Então, domingo passado, numa pizzaria com meu amigo Viegas, vi uma latinha de óleo de oliva produzido na... Argentina! Aí fiquei muito curiosa! Em algum momento da história da América, trouxeram oliveiras para cá, aclimataram-nas na Argentina. Quanto tempo pode fazer isto? Talvez 300 anos, talvez 200? Não sei, mas fiquei divagando a respeito. Oliveiras de 200 anos ainda devem ser bem bonitinhas, sem aquela coisa milenar que a deixa com cara de bruxa malvada. Talvez a oliveira argentina até tenha um pouquinho da leveza de um salgueiro. Fiquei doidinha para conhecê-las, para tirar a má impressão. Qualquer dia dou um jeito de ir à Argentina dar uma olhadinha!
 

Blumenau, 24 de abril de 2003.

(31 de maio/2003)
CooJornal no 317


Urda Alice Klueger
historiadora, escritora 
Membro da Academia de Letras de Santa Catarina
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina
Blumenau 
urda@flynet.com.br