16/08/2020
Ano 23 - Número 1.185






 

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Valesca Pederiva



Black and red


Valesca Pederiva - CooJornal

Costurou a calcinha vermelha tomate, o que devia ser, pela quarta vez, naquela semana. Fora um achado, em seu garimpo pelo brechó, era até exibida, com a etiqueta intacta.

Por sorte a linha vermelha continuava viva. O sutiã, ao sol, era mais claro, mas, a não ser que o encontro fosse ao ar livre, o que não aconteceria em hipótese alguma, “no problem”.

“Black and red” combinavam sempre, mas não podia dizer isso dos corpos. Alguns belos, porém cheios de neuras, outros feios, mas cheio s de doçura e educação, outros, bêbados e sujos, esses, “jamé”. Podia ser puta pobre, como carinhosamente sua tia falava, mas usava camisinha, ia ao gineco, pagava suas contas e é claro, usava máscara.

A lingerie podia encontrar dos mais variados modelos, cores e preços e, os homens, não se tocavam se ela estava seduzindo-os com uma “tudo por 10” (na sua opinião, as melhores) ou com uma “Victória Secret”. Ela, já era mestra, a Lingerie, acessória. Por isso, tinha direito a alguns carinhos.

Encomendara o maior, o mais resistente, um clássico, mas que nunca sairia da lista dos mais procurados. Estremeceu só em pensar na sensação de tê-lo em mãos. Por quantas ele já teria passado? Quais pensamentos e palavras, que delírios provocara?

Saiu. Não usava salto. A calcinha vermelha e o sutiã desbotado na gaveta. Usava o dia a dia e, ainda era cedo. A loja ficava a duas quadras e na volta, a padaria se faria obrigatória. A máscara, berinjela, recém passada a ferro, funcionava bem como um escudo. Poderia caminhar em paz, mas à noite cedia aos brilhos.

- Chegou? – Perguntou do lado de fora da porta resguardada.

- Sim! – O cara gritou do meio – Pera aí, já pego pra senhora.

Senhora. Que engraçado. O cara nunca a reconhecia e olha que era um dos seus clientes semanais. Será que é a mascara? Ou a falta do perfume?

Banho do dia, xampu, sabonete de orquídeas; banho da noite, xampu, condicionador, sabonete líquido, de rosas e perfume de cabaré.

- Aqui – ele disse, alcançando a sacola.

Era grande, pesado.

Voltou ao ap, antes, cup cakes de chocolate e mil folhas. Higienizou-os e a si, um cuidado maior com a sacola e seu “carinho”, por sorte, resistente a álcool 70. Vestiu o pijama unicórnio, as meias de algodão brancas, macias, sentou na cama, pernas dobradas, abriu a caixa.

Box, vibração intensa que arrancou-lhe gargalhadas. Feliz como nunca, falou ao gato – Vou cancelar meu encontro dessa noite, Pichu. Hoje eu sou toda do George. Uau! – exclamou, quase histérica – Gelo e Fogo, George R. R. Martin. Como eu consegui viver sem isso?

Ela abriu um, como quem abre a caixa de pandora, dos cinco, espalhados pela cama e leu – “A morte é terrivelmente final, ao passo que a vida está cheia de possibilidades”.

Pichu, piscou, pensando quando teria o prazer de devorar o cup cake de chocolate.



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