Marciano Vasques


EXTRAORDINÁRIA  FORMA  DE FELICIDADE

 

A primeira tentativa de estabelecimento do monoteísmo ocorreu no Egito, com Akenathon. O livro preservou esse importante momento da humanidade.

Depois, quando ao filho (dar-à-luz- msi -etimologia egípcia) apareceu Deus, não o Sol, mas o onipresente, o ubíquo, seu impronunciável nome se apresentou como o tetragrama inefável,que significa a eternidade de Deus (o infinitivo hebraico do verbo ser –hvh- agregado ao prefixo J, que para o futuro joga os verbos hebraicos).

Essa passagem, assim como a vida de Moisés, está descrita no Pentateuco. A história da fundação de vários povos (nações) estará registrada na impressionante idéia do livro sagrado.E o que é sagrado permanece. Nem a publicidade consegue abalar.

Recentemente a Coca-Cola apresentava o seu slogan: Coca-Cola é o que é! Numa aula de teodicéia eu falava da possível inspiração dos publicitários da bebida.

As fontes escritas são variadas, entre elas as literárias. O humano sempre sentiu a necessidade de deixar o registro de suas conquistas, do seu progresso, enfim, da sua história. Por isso a pedra de roseta, os palimpsestos, a heráldica, e entre tudo, a mais espetacular das invenções humana, o livro.

Os heróis mitológicos, os temas míticos (muitos, universais, como o roubo do fogo), as batalhas e a formação das sociedades (como Moisés formando uma sociedade!), tudo está nos livros, que é, desde que surgiu, o grande companheiro do humano.

Objeto mais importante criado por ele, o único que tem alma. Impensável o seu desaparecimento.O cinema, invenção recente, também tem alma, que garantirá a sua sobrevivência através dos tempos.Em 1982 editava uma revista cultural (ESPANTALHO-Revista Cultural) que publicou um artigo sobre o advento do videocassete.O artigo prognosticava o fim do cinema.Não faria hoje, com o advento da Internet, um prognóstico sobre o fim do livro.

Cada livro é uma extraordinária forma de felicidade a disposição de todos.

Nossos mestres da infância, o bondoso dinamarquês, os alemães, todos o que nos impuseram generosamente a literatura infantil universal, nos transportando para dentro de florestas e castelos, nos colocando frente a frente com bruxas, duendes, príncipes, fadas e lobos, representam a nossa primeira felicidade e com ela nos tornamos gente, seres humanos; são os nossos primeiros aprendizados sociais; os eternos contos de fadas nos colocam em contato com os dilemas do mundo, as lutas do espírito, e tanto nos ensinam, como o soldadinho de chumbo, a quem eu devo tanto, o patinho feio, que tanto me ensinou, todos originalmente em livros. Os maiores valores são adquiridos de uma forma solitária, ou seja, através do livro. O coletivo nos  transmite o que já bebemos solitariamente. A chegada do livro, a primeira fonte, deverá ser sempre doce.

A voz suave que conta uma história prepara a passagem da criança para o livro. A criança que não viveu esse ritual, teve a infância amputada. Os primeiros contadores de historias prenunciavam o livro, atentavam para sua necessidade.A gestação do livro se apresenta na oralidade ancestral. A mãe que conta histórias faz o papel do livro.É o teatro para o sono.

Tudo no livro está! Platão inventando a alma, os grandes romances, as sagas, as paixões, os amores, as batalhas, a luta entre o bem e o mal, dentro do homem. As figuras literárias criadas para demonstrá-la, tudo no livro. Amá-lo, homenageá-lo diariamente, é condição especial da humanidade.

Erguer cultos, rituais (a nossa vida é ritualística). Aquele que vive um dia da semana sem olhar um livro, está sofrendo um processo de aridez do espírito.O livro aperfeiçoa, modela, lapida, embeleza, constrói.

Ele não permite associações, não sofre interferência.A sua essência, o seu conteúdo, a sua alma jamais será midiática O livro, como objeto transformado em mercadoria fugaz, está em meu artigo O Efêmero da Mídia, publicado na revista LUMEN, nº 1, faculdade de filosofia da Fai).

O processo de destruição da beleza, que se verifica atualmente no Brasil, através da música, jamais ocorrerá com o livro, que continuará expressando o pensamento humano por intermédio do refinamento da linguagem. Refinamento do espírito humano, acessível, repousando, nos salões encantados chamados de bibliotecas, um lugar também sagrado, onde jamais estaremos sozinhos, pois milhares de luzes piscando estarão conosco, os mais belos e profundo espíritos aos quais tanto devemos e são os responsáveis pela nossa forma de ser e de existir.

Somos personagens potencialmente invisíveis dos livros, pois é da vida vivida que o autor extrai os personagens que compõem as suas obras.

Nada se assemelha nem substituirá ainda os caracteres impressos no papel, nada se aproxima ainda da maravilhosa solidão do livro, do seu tato, o tato é a sua cortesia.Ele, como objeto, é insubstituível. Há pesquisas que demonstram que a leitura na tela está levando jovens ao livro.

Todo aquele que escreve prepara o ser para a liberdade, isso significa que é movido por uma forma de felicidade inconteste.

Tommaso Campanella, condenado à prisão perpétua, escreve na prisão os seus belos poemas e também a Apologia de Galileu, defendendo a ciência. O homem originalmente chamado Domenico, que antecipa o pai de Francine, também escreve a sua utopia (A cidade governada pela razão -o Sol). Todas as utopias estão nos livros, assim como todos os poemas.

Um poema num livro é como um vaso raro de porcelana, de cristal. E, atenção! Jamais será uma coisa chata e elitista.

A felicidade escolheu a forma com a qual quis se apresentar: o livro.

E a sua presença (ou ausência) na vida de alguém é determinante, inclusive, da própria audição musical. Ou seja, o livro interfere, é o responsável pelo gosto musical e a sua ausência é responsável pela decadência estética dessa arte, pela aceitação passiva do desmanche, como o que se verifica atualmente  na música,  no Brasil. O mais recente modismo musical revela o quanto é forte a ausência do livro na vida dos seus seguidores.

Você entra numa livraria e pega um livro.Isso não se descreve.Esse gesto é único, insondável.Mas tem um nome, felicidade!

A verdadeira liberdade humana foi escrita com os livros, que, nos mais tenebrosos momentos da humanidade, esteve ausente. Cerceado. Queimado. Destruído! Se alguém quer introduzir na criança a idéia de que ela nasceu para ser escrava, apague as luzes, ou seja, esconda dela os livros.

Os maiores crimes contra a humanidade estão simbolizados na destruição dos livros, nas bibliotecas (Alexandrina) queimadas e nas proibições. A saudável convivência com Balzac, Victor Hugo e outros, é necessária, como a água. O livro é o verdadeiro alimento da alma humana.

A vovó que só dá livro de presente para as crianças é uma das maiores benfeitoras da humanidade, pois coloca o pequeno em contato com essa extraordinária felicidade.                                                              


Marciano Vasques é escritor  
            marcianovasques@hotmail.com