REFLEXÕES SOBRE A LITERATURA INFANTIL
O que há entre Branca de Neve e Moisés? A pergunta tem
sentido. Quando a Branca de Neve chega na casa dos anões (sete!), ela instaura a limpeza, a organização, ela organiza, promove a limpeza na casa, ensina a higiene, impõe as regras básicas de higiene, como lavar as mãos antes das
refeições. Enfim, ela ensina o que a humanidade demorou séculos para aprender e a criança, representada pelos anões, aprende em duas horas.
Moisés, quando retornou do monte, com os mandamentos inspirados no código de
Hamurabi, o que ele traz é na verdade,
regras. Os mandamentos são regras sociais. Ele ensina ao povo as regras básicas de higiene, como lavar as mãos antes das
refeições. Ele educa o povo através das regras.
Com o aperfeiçoamento dos tempos, os mandamentos são reduzidos a dez (sistema decimal), os prioritários, como: não matar, e entre eles, um curioso, não desejar, não cobiçar a mulher do próximo, mandamento visivelmente vinculado ao patriarca, ao
patriarcal. Com o estabelecimento do monoteísmo, surge o Deus masculino, o senhor, e a mulher do próximo (uma propriedade) não pode ser cobiçada, ela passa a ser representada como a idéia do desejo, o valor da mulher é o valor do
desejo. Bem, vamos voltar.
Branca de Neve, a mulher, organiza, arruma a casa e ensina regras
básicas de higiene. Educa.
Mas eis um apaixonado que nos comove, o soldadinho de chumbo, ele mesmo, o
persistente. Soldadinho de chumbo significa persistência, honradez, ética; a ética do soldadinho de chumbo é a
melhor! Seu profundo sentido ético orienta a sua vida, quando se recusa a pagar os impostos para o ratão do esgoto ele age em conformidade com a sua ética.
E o seu persistente e destemido amor pela bailarina? Que amor maior pode ter havido neste mundo? Tristão e Isolda? Romeu e
Julieta? Abelardo e Heloisa? Doutor Jivago e Lara? Dostoievski e Ana Grigórievna? Rimbaud e a liberdade? Falo dos amores literários, dos amores
históricos. A mais bela história de amor é a do soldadinho de chumbo!
Andersen tanto ensinou aos pequenos, com o seu Soldadinho, o seu Patinho Feio.
Andersen! Que encantou Kierkegaard, Andersen, que foi o primeiro que me fez pensar num aspecto da filosofia: Teriam os filósofos nascido sem infância? Quase não se sabe nada da infância dos filósofos, parecem até produtos acabados. Seria o filósofo alguém que nasceu adulto, como se estivesse num paraíso? Um produto acabado, que passa a existir a partir da existência de um sistema de pensamento.Como filosofia é texto, realmente para ela não interessa, em hipótese alguma, a infância do filósofo. Mas, e para a literatura?
Cada conto infantil tanto nos
ensina! Cada conto é um tesouro infinito, um tesouro de mil possibilidades. Ficando apenas nos clássicos:
Cinderela nos ensina, entre outras coisas, que a medida certa é o absoluto, a exatidão.O sapatinho é o que
importa! Não adianta inventar! O sapato entrou é o que importa.Isso é algo tão certeiro como uma lei
de uma ciência exata, uma lei matemática, universal, que não se altera na regência do
universo.
A fábula O Lobo e o Cordeiro
nos transmite que contra a força não há
argumentos. A Guerra das Formigas (Não é um clássico!) de Julian Murguía, um simpático livrinho editado no Rio Grande do Sul, é a literatura que vale por um mês de
aula. Tantos são os seus ensinamentos! Nós, humanos, somos aquelas
formigas. Há uma formiga preta e uma vermelha em cada um de nós! As formigas, as pretas e as vermelhas, são
iguais. Não há diferença entre elas.Tão importante como ler, por exemplo, Análise do Homem, de Erich Frohmm, é ler A Guerra das Formigas. Literatura infantil obrigatória para os adultos.
O Casamento da Dona Baratinha, de origem oriental (a barata é um
animal nobre em certas regiões), um clássico encantador – como as crianças o amam! Quem quer casar com a dona Baratinha? Todos querem! Pois ela tem dinheiro na caixinha.Mas ela casa com o Dom Ratão e o rato é vil, é um sujeito baixo,
demasiado voltado para os prazeres físicos, adora feijoadas e a comida é mais importante que o
resto. Dona Baratinha aprende uma bela lição!
A atração que a literatura infantil (que deve ser a protagonista em qualquer projeto de alfabetização) e as cantigas exercem sobre as crianças é
impressionante. E a cantiga nem sempre é politicamente correta. Não é certo, por exemplo, atirar o pau no gato.
O sapo príncipe é
maravilhoso. A sua lógica é da ética. Você prometeu terá que cumprir! -diz o
pai. E a princesa terá que aprender a dura lição! Ela está diante de seu primeiro grande desafio, é o momento da perda da inocência, quando o jogo da vida se apresenta, quando você se torna a pessoa que decide, quando aprende o significado da palavra, quando aprende que promessa é
dívida. Quando compreende duramente, que o verbo às vezes rege a vida.
Com a literatura infantil universal (Além dos clássicos, temos a literatura infantil africana, e a tradição oral em várias regiões do mundo!) aprendemos todos os
valores. Todos! Conhecemos a inveja, o ódio, a mágoa, a amizade, as traições, os porões da mente, os belos ideais, os corações imensos voltados para o que permanece, e os pequenos, voltados para o transitório, para o efêmero.
Conhecemos a malignidade do invejoso, a cobiça, o amor irracional, a competição, o herói, enfim, os mesmos valores que encontramos em Othelo, em
Iago. O que encontramos em Othelo, na literatura universal, já está na literatura infantil, nos contos de fadas, como a eterna luta entre o bem e o mal dentro do homem, a mesma que encontramos no zoroastrismo, em Osmurd na ponte enfrentando a sua outra metade, nos manuscritos do Mar Morto; a eterna luta interior entre o bem e o mal, cujo campo de batalha é a consciência, está aqui, na literatura infantil, simbolizada por fadas e bruxas.
Bruxa existe? -perguntava a
menina. Sim, existe! É a mulher que espanca covardemente uma criança, que a explora. Sim, essa devemos temer!
Os contos de fadas podem salvar as
crianças. Ela estará protegida deste mundo se estiver sob a proteção dos príncipes encantados, das bruxas, das fadas e dos
duendes. Mas os contos infantis não existem para proteger a criança do mundo, como se esse fosse uma entidade fictícia, algo fora de nós, como certas criações
evangélicas.
A literatura infantil e os clássicos das fadas existem para ensinar a criança a viver no
mundo. Para mostrar os caminhos da consciência, para orientá-la, os contos de fadas dizem: vá por ali!
Uma criança alfabetizada com o alfabeto das fadas é feliz e aprende a desligar a televisão sozinha.
Todas as pessoas que se dedicaram à literatura infantil são pessoas que deram uma contribuição imensa para o aperfeiçoamento da humanidade, para a lapidação da consciência
humana. Pode parecer exagero afirmar que os contos de fadas têm a mesma importância que os grandes sistemas filosóficos, mas eu me atrevo.
Mesmo as contribuições mais recentes, como o nosso Monteiro Lobato, Walt Disney, levando os clássicos para a indústria cultural, modificando, mas, inegavelmente
embelezando-os. Todas as contribuições são importantes, e, enquanto houver uma cigarra cantando, uma menina levando doces para a vovó, o mundo terá esperanças brancas como a neve.
É oportuno encerrar com a verificação de que todo o encantamento
dos contos de fadas é medieval, castelos, reis, seres
fantásticos. É apenas uma curiosidade, mas faz lembrar que não apenas os contos de fadas, mas muitas coisas da nossa cultura são medievais, talvez por isso os contos exerçam tanto fascínio sobre as crianças.
Muita gente não considera a literatura infantil como
literatura. Infelizmente. Mas são apenas
intelectuais. Posso citar um exemplo. Já aconteceu de ser organizada caravana de escritores para representar o Brasil em evento literário internacional e na lista governamental nenhum nome de autor infantil.
Porém, enquanto houver no mundo uma floresta, sempre haverá em algum coração de menino ou de menina a certeza de que em algum lugar, em alguma clareira, dorme a Bela Adormecida do bosque.