Marciano Vasques


OS QUE NASCEM EM ABRIL
     

O persistente Soldadinho de Chumbo, o Patinho Feio, Os Novos Trajes do Imperador (O Rei está nu!) , Os Cisnes Selvagens, A Pequena Sereia, A Menina dos Fósforos... Você, caro leitor, já leu um desses encantadores contos? Se não, perdeu uma parte da infância, que  representa a perda irreparável, irrecuperável. Em termos, pois quem os escreveu queria também nutrir o intelecto dos adultos.

O responsável , o homem cujo aniversário acontece dia 2 de abril, o dinamarquês Hans Christian Andersen.

Era uma vez alguém de imaginação encantada, que, nascido pobre em Odesen, no dia 2 de abril de 1805, cresceu entre a pobreza e a superstição. Uma realidade dura que, entretanto, jamais o impediu de assimilar o conteúdo mágico da infância.

Dificuldades financeiras, ausência do pai, assumindo a responsabilidade pela família, incentivado pelas mulheres que viviam ao seu redor, extremamente sensível e voltado para os pobres, jamais desviou o olhar do encanto da infância, cujo dom maior pareceu ser a sobrevivência na vida adversa.

Em Copenhague, para onde foi aos 14 anos, lutou durante anos para sobreviver, sem jamais abandonar os sonhos, responsáveis pelo seu destino. Porém, uma persistência de chumbo o levou a escrever várias obras, inclusive peças de teatro, conquistando assim o público. Aliás, uma conquista imediata!

Aos 30 anos, editou seus contos voltados para a criança, reunidos num único volume, porém com a aceitação do público, publicou um novo volume, a cada ano, durante 37 anos. Um total de 156 contos!

Andersen só era feliz entre as crianças, mesmo quando já era recebido pelo rei da Dinamarca, ou por escritores famosos, como Vitor Hugo.

Seu soldadinho de chumbo é profundamente ético. Quando se recusa a pagar o imposto para o Dom Ratão do esgoto, mostra-nos a sua ética.  E o seu amor pela bailarina? Que maior pode haver? O seu amor é bonito, comovente. E ele nos ensina, a todos, crianças e adultos, que devemos ser persistentes, éticos e ter o coração aberto para viver um grande e indestrutível amor.

E o rei? Está nu, na praça pública, aclamado pela multidão de mentirosos. Quanto nos ensina este conto! A roupa invisível, que só pode ser vista pelos sábios, pelos inteligentes, pelos cultos.

Quem mais compreendeu o coração da criança? Quem mais a fez tão feliz? Sim, Andersen é o belo símbolo da infância, do amor pelas crianças. Por isso a data do seu nascimento, o dia 2 de abril, foi escolhida para ser o DIA INTERNACIONAL DO LIVRO PARA CRIANÇAS, e todos os anos, artistas de um país escolhido pelo IBBY(International Board on Books for Young People) produzem uma mensagem para o DILI, como é por aqui  conhecido o Dia Internacional do Livro Infantil.

No Brasil pouco se fala dele, mas comemoramos, muito justamente, talvez não tão entusiasticamente pela sociedade, que ainda não adquiriu a consciência da importância da literatura infantil, o nascimento, também em abril, da nossa versão cabocla – como muitos dizem - do Andersen, o nosso querido pioneiro Monteiro Lobato.

Eu ouvi o seu nome pela primeira vez numa distante manhã fria.Talvez estivesse olhando para uma flor copo de leite, que beirava a cerca, talvez segurasse uma caneca com chocolate quente, apertasse na mão figurinhas gastas ou olhasse na transparência da manhã o azul de uma bolinha de gude, mas lembro que estava num recreio da velha escolinha de madeira, e era tão menino! E o caminho suave. Lembro ter sido um adulto, talvez uma merendeira, talvez o inspetor, talvez uma professora, não mais sei, apenas que alguém pronunciava o seu nome:Monteiro Lobato.

Com ele conheci um sábio polonês chamado Nicolau Copérnico, também Galileu e até o inventor do óculos! Pela primeira vez  ouvi falar em ano-luz, aprendi sobre a lei da sobrevivência do mais apto, na qual, na luta pela vida, vence sempre o mais apto. Foi com ele, também, que conheci o farol de Alexandria, construído 300 anos antes de Cristo e considerado uma das sete maravilhas do mundo. Ah, e os povos! Que maravilha saber dos romanos, dos fenícios, dos egípcios...

Conheci a história do homem, desde que era um animal peludo, aprendi como nasceu o fósforo, que no começo era fósforo mesmo.Tudo pela palavra de Dona Benta, mulher versada em livros. Com certeza estive lá, ao lado deles!

Como escreveu esse homem! Escrevia sobre tudo, contava a história do mundo para as crianças, fundia a realidade com a imaginação, a infância com a felicidade, e não se fazia por rogado, falava o que pensava através dela, feita de macela, a boneca Emília. Só anos mais tarde me dei conta de  que Lobato falava através da boneca! Quem sabe Emília já terá perdoado a minha lerdeza.

Quanta coisa ensinou! Ele, que escreveu livros para serem lidos, quando aparece num livro de estudar (didático), torna o estudo mais saboroso. E viajei para terras distantes e diversos países, entre os quais, o País da Gramática.

Quem nunca passou uma tarde sequer no seu sítio, não teve a idéia completa da felicidade.

Homem extraordinário, patrimônio do Brasil. Quando participei de uma discussão com representantes do movimento negro contra a discriminação racial, numa escola da periferia de São Paulo, sobre racismo nos livros, fiquei triste pelo conteúdo discutido e defendi Lobato das acusações de racismo, inclusive contrariando trabalho acadêmico. Que pretensão a minha! Além da gravidade de eu não ter lido o trabalho. E algo lido sempre está em outro status. Mas eu, argumentando, entre outras coisas, que ele, Lobato, teria realizado oficinas com o pensar, algo próximo ao que Nietzsche realizou,- de acordo com bela argumentação de Scarlett -, Nietzsche e Caetano Veloso, e desenvolvi a argumentação sobre as tais oficinas, algo para mim razoável, porém creio não ter sido convincente.

Depois, ao encontrar a mesma negra beiçuda num livro didático, compreendi a existência do estereótipo e pela primeira vez estremeci diante da possibilidade do racismo, mesmo em homens imensos e benfeitores da humanidade, como é o caso de Lobato, pelo bem que fez às crianças. Mais tarde ainda, compreendi, mesmo sem ter lido o trabalho acadêmico, que a questão da possibilidade de racismo em Lobato não está ligado ao desenho da negra, mas ao próprio texto.

Numa fresta do cotidiano, conversei com a Daniela Alves sobre isso e ela me tranqüilizou no sentido de que o fato de ter sido racista Monteiro Lobato, isso em nada diminuiria o valor da sua maravilhosa obra, o que não pode ser justificado é a recusa do seu nome, coisa que de fato não há, apenas há a preocupação de que ele possa ter ajudado a perpetuar um pensamento.

Há o progresso do pensamento humano e Lobato era filho do seu tempo. Curioso lembrar que alguns filósofos conviveram com a idéia da escravidão (Por honestidade intelectual, reconheço a contradição dessa afirmação, pois em discussões na vida acadêmica, pus em questionamento, filósofos e escritores, que na minha visão romântica, não poderiam em hipótese alguma, conviver com a escravidão ou a sua idéia). Não tenho certeza nem convicção nessa história de ser filho do seu tempo, mas ela, a teoria, é aplicável, por exemplo, no aspecto da colonização portuguesa no Brasil, com relação aos patrícios que a viveram.

No caso do desenvolvimento dessa linha de pensamento (filho do seu tempo, progresso do pensamento, etc) o que não seria aceitável é o racismo hoje, na mente de um escritor. Um escritor racista hoje, no estágio atual do pensamento humano, é inaceitável, muito embora haja escritores contanto piadas, sendo que há mais gravidade em divulgar do que em inventar certas coisas, e também, escritores de literatura infantil que percorrem o Brasil em palestras defendendo o psicotapa como pedagogia. Ora! O psicotapa é uma aberração pedagógica (educar); afinal um tapinha dói. Bem, isso estaria distante da possibilidade de racismo, quero dizer, a possibilidade da existência de uma idéia na mente, não leva necessariamente à outra.

O que importa em Lobato é que ele edificou um diálogo com as crianças e isso é inatingível, é a sua fortaleza. Essa edificação é insuperável, uma das belezas do nosso povo. O mais belo diálogo com os pequenos, edificado em nossas terras.

O homem que me mostrou que nos poemas de Homero há archotes em penca, que me falou da origem do medo; com quem aprendi a estranha palavra hieróglifos, o homem que nasceu num dia 18 de abril e brincava a infância com brinquedos de chuchu e mamão verde, ele, ao lado de Andersen, torna o mês de abril altamente significativo para a criança, mesmo que não tenhamos comemorações rasgando o país de ponta a ponta. E quanto ao Lobato, quando fala do alfabeto, com certeza acertou ao dizer que os meninos do ano 3000 poderão ler as futuras “Memórias da marquesa de Rabicó”.

-Gostou?

-Adorei!

-Boneca esperta...

-E você?

-Eu?

-Ah, você é um cisne...

 


Marciano Vasques é escritor  
            marcianovasques@hotmail.com