Marciano Vasques


PEQUENO ENSAIO PARA UMA GENEALOGIA 
DA ALMA CONTEMPORÂNEA
    

As cartas escritas pelo filósofo Espinosa ao sábio Oldenburg há 340 anos, são introduções ao seu pensamento, representam partículas do seu universo mental, fornecem ao leitor um curso paralelo de filosofia, uma extensão, uma oportunidade extra de aprofundamento da compreensão da sua extraordinária metafísica.

       Também o escritor Mário de Andrade escreveu cartas, também Carlos Drummond de Andrade (Nossa literatura é feliz de Andrade).

       As cartas são preciosas. Elas têm em si o desejo da leitura. O seu convite é irrecusável. Isso é a carta, a desejabilidade. A leitura é o objeto amoroso da carta. No caso do poeta, por exemplo, elas nos auxiliam a compreender o  seu vasto universo. Ajuda, na maioria das vezes, a penetração no insondável mundo da poesia.

       Na carta o exórdio pode ser tão fundamental como numa palestra. Com o exórdio você ganha o leitor, o seduz, e a sedução é como a verdade, não tem jeito. A carta prende, comove, atiça, entrelaça.Seu magnetismo é incontestável. Escrever uma carta requer arte, oficio, oficina, treino, persistência,aflição.

       Grandes encontros foram edificados nas mal traçadas linhas, que foram  responsáveis pelo desenho do mundo. O pescar dos sentimentos sempre esteve no barco chamado carta.

       Assim são também as cartas de amores. Há um cuidado, um primor, uma performance, um perfume, uma lapidação, uma angústia, um exagero.

       Da cena final do filme A Guerra do Fogo ao homem solitário que escreve uma carta para a sua amada, milhares  de palavras foram articuladas na tentativa  humana de expressar o amor.

       Para que ela siga ao coração do destinatário, precisa estar regada com a lógica do coração, e deixar transparecer a sinceridade do desejo, cuja cor certamente é a mesma do vinho.

       Para se escrever uma carta  era necessário o aprendizado.

       Os que eventualmente desconectam o presente e procuram pela caneta, compreendem que ela e as teclas jamais serão concorrentes, apenas ocupam espaços diferentes, estão de certa forma, na mesma distância do e-mail para a carta, ou, de certos discursos para a prática, para buscar uma comparação razoável.

       As cartas se foram, mas o legado é o que importa.O legado não vai. Por atualmente as coisas se dissolverem tão rapidamente, é importante o hábito da releitura diária do mundo, da vida, das cartas que ficaram na memória.A releitura do pensamento. Uma carta que você recebeu é tão importante como a política internacional do seu país.

       Vivemos assim, num tempo sem cartas. Não me refiro às cartas oportunistas, as que mentem, as propositais, de encomendas, escritas para enganar, artifícios de cartas.

       Deixando-as de lado, vamos ao Né. Conheço pessoas que ao falar repetem a cada frase, o Né, que acaba sendo insistente e perturbador, a pior coisa num discurso, numa conversa. , de onde vem o Né? - ( Não é?). Será que ele merece uma teoria?  Desperdício de tempo ou da atenção se pensar no Né?
        A sua origem está na infância, na falta de atenção para com a criança que fala, a criança é um ser curioso. A curiosidade é o seu maior tesouro, é o seu dom natural. Ela quer falar ao mundo. É o ser  mais ágil, mais aberto para a novidade da vida, é o próprio espetáculo do mundo. Infelizmente é obrigada a conviver com os adultos, e, pior, vai para a escola.

       Tanta desatenção, tanto descuido, tanta omissão para com o interesse vivo da criança, para com a sua vivacidade verbal, geralmente desemboca no Né, e depois, arrancá-lo da fala não será fácil.

       As facilidades da vida, como a Internet, estão aniquilando a emoção. Recentemente peguei pela Napster, uma canção gravada no México. Tudo muito rápido. Mas fiquei pensando nessa rapidez e nessa facilidade. Pus-me a imaginar alguém indo ao México e comprando o disco (raridade no Brasil) para mim. Fiquei pensando, poetizando o pensamento: ter em minhas mãos o disco que veio de tão longe. Mas, que graça tem?  Pela Internet peguei a música em 15 minutos!

       Não! Não nego a Internet nem tampouco o progresso. A questão não é essa.

       Somos responsáveis por tudo. Às vezes, quase sempre é melhor jogar a culpa no governo. Aliás, isso parece ser uma questão cultural. Um discurso dizendo que a culpa é sempre do governo pode ser uma maneira de se desviar a atenção da nossa responsabilidade. O governo passa a ser uma entidade, uma idéia abstrata (Não tiro um milímetro de culpa do governo por diversos males da nossa sociedade.).

       Mas, somos responsáveis por tudo. Você deu para a criança a chupeta eletrônica, a televisão, e agora reclama do caos? O que você queria no dia em que trocou a chupeta da criança? O que esperava?

       Você não é totalmente culpado, pois trabalha, fica o dia inteiro fora, não tem alternativa. Mas, é também responsável se não aproveita o tempo mínimo ao lado do filho para que uma hora valha por um dia.

       É comum se ver a mãe ou o pai levando uma criança para a creche ou para a escola sem trocar uma palavra sequer, durante o caminho. Que perda!

       Há pessoas no governo que jamais teriam a coragem de tocar suavemente no ombro de um adolescente como os que estão em Franco da Rocha ou em qualquer Febem. No entanto, fazem um discurso espetacular. Nada sabem, nada entendem. Não têm idéia sequer do que significa a impossibilidade de se comprar um chinelo, um tênis de marca que a mídia enfia pela goela do desejo abaixo. Nada sabem da criança que jamais segurou em suas mãos um livro infantil, de literatura infantil e cresceu e se transformou num adolescente, mas não adolesceu, pois não colocaram em suas mãos a possibilidade de escrever uma carta, o guache, a aquarela, a poesia. Para ele jamais O dia abriu seu pára-sol bordado. Só o ensinaram a pintar a quinta cor na bandeira brasileira, que é o vermelho do sangue.

       Embora eu nunca tenha querido ser amigo do Rei, conheço alguns que estão no governo e são assim, falam, falam. São bem intencionados, desde que a intenção não ultrapasse o seu próprio marco, ou seja, desde que não passe para o campo da possibilidade de implantar o afeto pessoal, desde que a aproximação não se afaste da retórica.

       E depois aparece o técnico dizendo que a culpa é do governo (para quem às vezes geralmente ele trabalha!). Ora! Que governo nada! O técnico tem um poder imenso! A sua caneta é poderosa. Ninguém tem mais poder que o técnico! Ele pode decidir vidas, mas não cumpre com a sua parte.

       Fui uma criança feliz porque cresci fazendo brinquedos. A lata virava um trem, a batata com os palitos ganhava vida, o circo era armado no quintal, podia falar disso agora, dos brinquedos que são construídos, mas o Rubens Alves falou muito bem disso recentemente na revista Páginas Abertas, da Paulus.

        Não! Não estamos vivendo na era das novidades. Nada é novidade atualmente. É um tempo muito seco, muito metálico, muito áspero, muito distante. Os olhares não guardam a novidade, porque tudo parece transitório, efêmero, tudo parece descartável, veloz, fugaz. Mas o menino que viveu na época dos brinquedos construídos, que viu a televisão chegar, que sempre teve os olhos abertos para a novidade, grudados na curiosidade do mundo, impregnado do encanto da vida, sente-se um estranho nos dias atuais, de rapidez, de tecnologia, de eficiência,de instalação do efêmero, do ócio inválido (O ócio válido é o do filósofo, o do poeta, o do escritor). Esse menino acredita que a única saída esteja no retorno do poeta. Porém, o poeta precisa das circunstâncias favoráveis, como o pássaro precisa da árvore, do sabugueiro.

       Falando em alma contemporânea, é precioso compreender a alma do povo, pois ela transcende a mídia. A mídia necessita da alma do povo, para continuar existindo. Mas a alma do povo não necessita da mídia, embora seja deformada por esta.

       A sanfona é o instrumento do povo, a sua alma monarquista  gosta da simplicidade, a sua antiga  falta de leitura,o seu jeito de se divertir, são coisas que estão distante dos núcleos do saber! E principalmente, da arrogância.

       E arrogância eu bem a conheço, pois a tive dentro de mim no tempo da consciência mal desenvolvida. Cheguei a pensar que um poema por mim escrito fosse o melhor e o mais bonito do que outros, como se competisse a mim tal julgamento. Da mesma forma como julguei que pelo fato de não ser supersticioso fosse melhor do que outra pessoa com a mente banhada por crenças. Sendo que esqueci facilmente (afinal é sempre mais fácil esquecer) que durante o meu processo de desenvolvimento fui prisioneiro de superstições que não passam de tolices.

       Nunca consegui avaliar o quanto fui arrogante e intolerante ao julgar que o fato de ter uma leitura possa ter me tornado melhor do que, por exemplo, um testemunha de Jeová, ou qualquer pessoa que, na sua simplicidade da alma, seja catalisada por uma religião.

       Ao mesmo tempo, acompanhei a idéia de que o fato de ser um intelectual pudesse me transformar em alguém melhor do que as pessoas sem letras e o fato de gostar de Mozart ou de Chico Buarque de Holanda, pudesse me valorizar mais do que o homem simples do povo que gosta do seu cantor popular. Foi preciso um trágico terremoto interno para que se assentasse a minha visão e eu pudesse compreender a importância de se combater energicamente os manipuladores da sensibilidade do povo, sem, no entanto, condenar com desprezo o homem simples e sem preparo intelectual. A tolerância é miraculosa! Produz frutos abundantes na arvore da convivência e, como anterozóides após a chuva, produz saltos e riscos que apontam frestas e luzes.

       O povo é assim, nem vai reparar na bela revista BRAVO! nas bancas de jornais. Ele tem a sua própria vida, o seu próprio mundo,onde impera, transformado em saudade inconsciente, o suco de frutas tropicais, muito embora o refrigerante tenha ocupado o espaço da sua mesa.

       Sobre a alma monarquista, fui dia 25 de janeiro (aniversário da cidade) ao Ibirapuera para sentir de perto, ver como é essa coisa do Roberto Carlos.

       Enquanto me dirigia ao local exato do show, vi muita gente sentada à beira do caminho, esperando o momento da apresentação do cantor, que, criação da indústria cultural, ultrapassou as suas fronteiras, sempre fiel ao simples.

       Durante o show, pessoas ao meu lado, nordestinos, gente simples e forte, rostos suados pelo sol, almas dilaceradas pela luta diária, dizendo frases assim: “Roberto, você não canta, você encanta”.

       Fiquei mais impressionado que o Fagner com a visão mais completa, mais perfeita da adoração, e reparei o povo demonstrando como é grande o seu amor por ele.

       Lembrei-me de um debate antigo em Minas Gerais, entre intelectuais. Um escritor e cartunista defendia o Roberto (numa época em que isso era crime intelectual), dizendo que ele era o nosso guaraná, o único capaz de enfrentar a coca-cola. Tenho certeza que a Turma da Mata do Fundão aprovou isso. Também lembrei da Clarice Lispector. Sempre quando penso em Roberto Carlos, penso também em Clarice Lispector. Talvez simples coincidência, simples acaso. Detalhes...

       Há também, para mim, uma relação profunda entre Roberto Carlos e Jorge Luis Borges, no que se refere ao aspecto da construção mitológica.

       A importância do Roberto não foi devidamente avaliada, digamos, pela imprensa. O que ele representa, como herdeiro do bolero, de uma idéia musical do amor romântico alienante, que tanta alegria traz ao povo. Nunca foi montado um esquema tão poderoso e tão gigantesco em torno de um artista, como aconteceu com ele. Foi sempre o maior investimento da indústria cultural no Brasil. A juventude das jovens tardes de domingo sequer imaginava que ele breve estaria gravando discos na Alemanha e na Holanda. Hoje tornou-se inquestionavelmente o belo símbolo de um modo de sentir do povo. Fico feliz ao reconhecer isso, visto que no passado a arrogância e a intolerância me faziam crer inocentemente que talvez eu fosse melhor por acompanhar o Tarancón ou por ouvir apenas Geraldo Vandré.

       Fui enganado pela Disney. Aluguei Dinossauro. Precisava assisti-lo para passar para as crianças. Nem pensar! Puro efeito. Aliás, a Disney em termos de efeitos é absoluta, primorosa, um encanto. Mas, melhor Em busca do Vale Encantado. Disney é especialista em se repetir. A história do bebê adotado por macacos é coisa que aparece em várias histórias. Mesmo histórias clássicas são inspiradas em mitologias, como Mogli (Não é de Disney), o Menino adotado por lobos, como Rômulo e Remo, os fundadores de Roma e assim por diante, mas Disney vai fundo na repetição, que parece ser a alma do sucesso.De certa forma, é a alma da comunicação de massa, você vai martelando, martelando, é infalível. A Globo foi a primeira a saber disso. Na verdade, foi o Lee Falk.

       Em Dinossauro o problema é agravado com a dublagem. Dinossauros falam, em várias passagens do filme: Meu Deus do céu! Meu Deus do céu! - Acho que a criança tem uma inteligência que precisa ser respeitada. Victor Hugo e Montaigne certamente ficariam envergonhados e horrorizados. Quero dizer que a idéia, a noção de Deus aparece com a humanidade. Não há essa idéia entre os dinossauros. Não devemos ser tão exigentes quando se trata de crianças, dirão outros. Que se entendam com Montaigne...

       As cartas que se foram, os cacoetes da fala, a criança perdendo o seu olhar curioso, o hábito de se jogar a culpa no governo para se desviar a nossa responsabilidade individual, a eterna distância entre discurso e prática. É a nossa alma contemporânea precisando de uma genealogia para a sua compreensão.

       Uma genealogia significa buscar a compreensão do momento em que começamos a perder o sentido das coisas, o momento em que foi instaurado em nosso coração a indiferença por perdas elementares e profundas. Em qual momento, em qual circunstância  o que nos era tão precioso começou a se esfarelar, a escorrer entre os dedos da insensatez, enquanto tudo que foi edificado com esforço primoroso da razão, foi pouco a pouco se transformando em desperdício, em resíduos, em fragmentos. Enfim, uma genealogia solicita o olhar terno para as origens, ou seja, a ternura radical.  

(abril/2001)


Marciano Vasques é escritor e professor
            marcianovasques@hotmail.com