Marciano Vasques


AS MONTANHAS NÃO ESQUECEM    

 

        Botar meus ovos na montanha, preferencialmente na mais alta. O erro foi não ter percebido isso, muito embora os sinais sejam antigos e estejam dentro de mim, onde sempre estiveram.

        Talvez haja vantagens em ser pequeno e estar atento para as coisas que passam, mas o meu coração, que se acostumou com o duradouro, sempre se recusou, embora eu nunca tenha valorizado o suficiente essa recusa e tenha ofendido duramente a minha alma com as indecisões. E se a minha alma resistiu, não deve muito a mim, por tanto que a machuquei.

        Talvez a ela tenha que pedir perdão com os olhos encharcados, da mesma forma como terei que fazer um dia, quando deixar de ser esse projeto humano, para a mulher, sobre a qual adquiri o hábito de maltratar.

        Se eu pudesse espalhar nas tardes, escadarias e ladeiras o sorriso largo que ela trazia no rosto quando se aproximou de mim pela primeira vez e me escolheu para ser o seu homem, sem que eu tivesse ainda a noção ou o preparo para compreender a extensão, o significado e a profundidade dessa escolha!

        E se pudesse espalhar também a tristeza de catatua que corrói o meu coração quando não consigo lembrar sequer dos primeiros gestos e atitudes que começaram a apagar esse sorriso até ausentá-lo totalmente!

        E a minha inútil tentativa de explicar o desaparecimento do sorriso largo por causa da estreiteza da vida cotidiana, por causa da vida sem autenticidade, que é vivida entre talheres, eletrodomésticos e a mobília e o trânsito e o emprego, como se pudesse encontrar na memória da leitura de Heidegger, a explicação para o que se vai...

        Talvez haja até vantagens e prazer em ser verme e conviver com a idéia do parasita, condição que costuma oferecer lucros, mas, as montanhas não esquecem.

        Peço perdão pelos infinitos momentos em que esqueci da minha natureza e não ouvi os chamamentos das montanhas, chamamentos inevitáveis e sedutores.

        O silêncio ainda é o melhor investimento. Quantas vezes pensei nisso! Quantas vezes descuidei disso. E o descuido é sempre grave. E segui em frente, acreditando ingenuamente que estava me lapidando, quando é preciso a presença do tempo para a compreensão de quanto é difícil ser homem. E às vezes o aprendizado exige silêncio. Saber ouvir, sobretudo a voz dos ventos, e capturar o bailado no alto dos eucaliptos. Resgatar, a cada dia, o que jamais devia ter partido.

        A alma é desconhecida. Sempre foi. É comum o hábito da valoração pela aparência, pela propriedade. E, quantas vezes somos valorizados pelo efêmero! Raramente pelo que de fato somos ou por aquilo que nos coloca em comunhão com o percurso universal, nosso verdadeiro regente.

        Ter encontrado a minha alma nas verdes folhas dos eucaliptos, num dia de chuva, no vento assoviando nos baldes que entardeciam, e ter protegido esta alma, durante anos, não me impediu de enfraquecer diante das pedras e dos espinhos atuais.

        Interrompo meu pensamento para agradecer pela palavra alma, que empresto do acervo filosófico para denominar o que em mim significa, pensa,  é.

        Sentimento de grupo, gregário, natural. Quantas vezes procurei evitar o confronto com a idéia de grupo, mesmo reconhecendo que o ser humano nasce programado pela natureza para viver em grupo e  essa programação é decorrente da sua fragilidade. Então o sentimento grupal é essencialmente oportunista, de prontidão para a defesa dos interesses, cooperativista, e costuma negar os benefícios da solidão. Destoa a idéia que perambula em minha mente, a de que você vive em grupo, se aproxima do grupo, porque precisa do outro.Talvez não seja muito comum a sua entrada no grupo apenas porque o outro precisa, necessita de você.

        No entanto, às vezes o grupo é necessário, como, por exemplo, no trabalho com educação, ou seja, entre os professores, os educadores. Um educador sozinho não tece o alfabeto. E, justamente os que trabalham com tamanha preciosidade, que é o trabalho educativo, costumam ser auto-suficientes. O professor, de um modo geral, - estou sempre universalizando -, se julga o dono do saber e não gosta que interfiram no seu trabalho, na sua pedagogia, no seu método. Há, comumente, uma resistência, como se ele fosse o proprietário solitário da condução pedagógica de um processo educativo. Entretanto, e isso é essencial, nunca devemos nos orientar pelo provérbio tolo, que diz “Duas cabeças pensam melhor que uma”. Isso é uma dessas verdades forjadas pelo senso comum, idéias que se propagam e se depositam como entulho através dos anos, e costumam atravessar gerações. Esse ditado poderia ter sido questionado pela Chico naquela canção antiga, chamada Bom Conselho, pois sempre depende da cabeça. Uma cabeça, às vezes, pensa melhor do que milhares.

        Se, com relação ao professor é conveniente o sentimento de grupo, inclusive pela própria natureza do seu trabalho, visto que uma classe é sempre um grupo de aluno e ele sempre trabalha com a idéia do coletivo, desde o alfabeto, como os numerais, coletivos de letras e  números, até o estudo da filosofia ou da história, coletivos de sistemas de pensamentos, mosaico de pensadores, entrelaçamento de historiadores, de teorias, etc. No caso dos escritores, embora pareça o contrário, não é sempre conveniente o sentimento de grupo.     Isso não significa a pregação do individualismo, mas apenas um chamamento para o significado exato da formação de grupos literários. O que eles podem ou não contribuir, cada um especificamente, com a grandeza do ideal da literatura entre os povos.

        Tolice negar o progresso obtido pela humanidade com o uso do sentimento de  grupo, mas é necessária a compreensão de que a inveja e outros sentimentos negativos às vezes são heranças de grupo. E sempre é arriscado seguir sozinho, principalmente quando você vence ou prefere as montanhas. Arriscado porque o grupo não consegue perdoar. Geralmente as ovelhas nem sabem escalar. Outras vezes, demonstram desprezo pelo sucesso solitário. Mas, há também grupos de guerreiros. Seres privilegiados que encontram os seus iguais.

        Natureza de nuvens, de azul, de profundidade, natureza de estrelas. Assim é o que prefere as montanhas. Jamais amaldiçoei as minhas asas, embora nunca tenha compreendido com exatidão o fracasso do vôo. Jamais neguei às minhas asas o direito de continuarem existindo, afinal elas não são as culpadas, e jamais pensei em corrompê-las, pois são o que há de mais saudável em mim.A idéia do vôo, a possibilidade, o sonho. Nada disso pode ser corrompido!

        O serviço público, o magistério, a escola, o funcionalismo, quanto me fazem sofrer! O dia a dia me empurrando para os que ciscam, para os que desconhecem o vôo e não perdoam aquele que o possui. Como é necessário ser forte! Como é necessária a ternura, enquanto rocha, enquanto força, para a convivência com os que preferem o chão em vez do alto.

        A águia paga caro pela sua altivez, pois tem que viver onde coloca os seus ovos, solitária no alto da montanha. Mas, a sua solidão é benéfica, embora pudesse obter conquistas se vivesse em bando como as galinhas, que desconhecem o vôo.

        Quisera pelo menos me satisfazer com uma colina, para poder apaziguar os interesses pequenos e ser reciclado para a convivência com os sentimentos de grupo. Mas é difícil, porque o chamamento da montanha não suporta a surdez, e escutar é mais que um ato mental, é o dom do crescimento do espírito. Outra palavra trazida do acervo filosófico.

        A idéia ilusória de que eu poderia ser dono de qualquer coisa, já passou pela minha cabeça nos dias da busca pelo efêmero. Inclusive a idéia de que pudesse ser dono de uma mulher, de um outro ser. Isso talvez tenha sido denominado amor, ou tenha utilizado essa palavra para exprimir qualquer sentimento que sentisse ou a necessidade de posse, ou, mais ainda, o desejo.

        Amor! Em seu nome quantas vidas foram ceifadas! Quantos sonhos amputados! Quantas mulheres arrancadas da sua dignidade humana, e quantos puderam satisfazer suas ilusões.

        Em seu nome quantas escravizações foram implantadas. Quantas mulheres perderam o melhor de si e quantos homens edificaram bens materiais e se acomodaram no sofá, no dominó dominical e estenderam seus domínios no controle remoto e na propriedade dos filhos e da mulher e incapazes de conhecer a felicidade se estenderam na fugacidade dos prazeres. E quantas vidas se dissolveram nas opiniões sobre o futebol,na marca da cerveja, no abuso da televisão, na falta de leitura. Um homem no sofá horas seguidas é uma anomalia! Uma mulher esquecendo de si em função das paredes  é um crime contra a humanidade...

        Vidas! Bastaria um poema lido com a devida atenção. Bastaria um olhar para os sulcos do rosto, pela primeira vez olhado com a devida atenção. Bastaria a atenção, para com as coisas que se perdem a cada manhã. Bastaria uma caminhada de mãos dadas, compreender a beleza da chuva e a restituição da alegria num gesto de amizade autêntica.

        Mas o vôo sempre se apresentou, desde que a mocidade era a flor principal do jardim, desde que a infância olhava o azul com indagações, no dia em que o cravo brigou com a rosa. E a montanha sempre esteve lá.

        A montanha sempre esteve no esboço do vôo. A montanha jamais perdoaria asas atrofiadas. Mas, nada exige mais do que o vôo. É preciso audácia, é preciso ser amigo dos sonhos, é preciso ter o olhar repleto de desenhos, de paisagens sinceras.

        Sim. Botar os ovos no alto da montanha. Preferencialmente a mais alta. Assumir de vez a natureza de pássaro, que  não passará. Olhar, lá do alto, os bandos. Os que ciscam, os que preenchem as lacunas com artimanhas, com intrigas, os que cultivam diariamente a inveja, a mesmice, a tolice.

        Olhar do alto. Compreender definitivamente que a convivência com os que circulam sem direção é apenas circunstancial, pois o bem maior continua preservado no alto da montanha. Lá, onde séculos espreitam.
   

(abril/2001)


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
marcianovasques@hotmail.com