Marciano Vasques


A RIQUEZA OCULTA 

     

Quando o aposentado procura os cinco filhos, com o desejo de reuni-los novamente, tem uma amarga surpresa:descobre que a vida é brusca.

Vai à Nápoles, passa por Roma, Florença, Milão, Turim, pois os filhos estão espalhados em diferentes regiões da Itália.

Ao encontrar cada um, descobre que nenhum realizou o sonho pessoal. Todos, de certa forma, fracassaram. Uma das filhas é infeliz no casamento. Cada qual vive a sua vida, diferente do que ele imaginava.

Ao retornar para Sicília, quando o chefe da estação pergunta: “Como estão eles?”, responde: “Estão todos bem!”.

Uma tarde chuvosa, um jovem se protege na entrada do Teatro Municipal. Os olhos transbordando nas lágrimas que escorrem por causa da cena final do filme  Doutor Jivago.

O pranto teve inicio na saída do cinema, no largo Paissandu.

Personagens são filhos da mitologia. Assim como a mitologia transmite, com seus deuses, narrativas e heróis, valores éticos e ensinamentos aos povos, os personagens ensinam o ser humano a viver melhor e de acordo com parâmetros éticos.

Feliz a vida repleta de personagens, o que significa: feliz aquele que lê, pois a leitura, a literatura, enriquece a vida  e ensina a pessoa a viver com o outro. Feliz o que lê e o que vai ao cinema. Mas, não basta a leitura, a leitura por si só nada representa, é preciso selecionar, lapidar o gosto, aprender a extrair da arte o ensinamento, a riqueza oculta. Da mesma forma, não basta apenas ir ao cinema.

A riqueza oculta nas mitologias, nas lendas, na tradição oral de cada povo, nas cantigas, e também, nos personagens da literatura, dos quadrinhos e do cinema.

Doutor Jivago, Larissa, Desdêmona, Otelo, Iago. Quanto cada um deles nos ensinou! Otelo, o mouro  e seu lenço. E sua doce Desdêmona. Como Shakespeare nos embelezou a alma com seus personagens! Nos ensinou a compreender a natureza humana, e como corremos o risco de encontrar o Iago ao nosso redor, em  nosso ambiente de trabalho, no nosso grupo de amigos, no dia a dia.

Quando Shakespeare apresentou pela primeira vez Sonhos de Uma Noite de Verão ou escreveu Otelo,  não imaginava o quanto seus personagens estariam atualizados no inicio do século XXI.

Também encontramos personagens nos poemas. Às vezes um poema é uma vida inteira, como o Poema Sujo de Ferreira Gullar. O Brasil é assim, tem alguns patrimônios, um deles é o Poema Sujo.

Às vezes uma canção, uma frase, um verso, como, por exemplo, na canção Força Estranha, de Caetano Veloso, no verso que diz: “E a coisa mais certa de todas as coisas , não vale um caminho sob o Sol”. Séculos de filosofia, sistemas de pensamentos erguidos e o Caetano profundo, com um simples verso: “Não vale um caminho sob o sol”...

A professora dizendo que era contra o programa de Brasília no rádio, porque, para ela, a voz do Brasil é a voz do Caetano Veloso.

Lembro do Gil no seminário sobre a Contracultura, na Biblioteca Mario de Andrade, dizendo: Quem sabe de mim sou eu, aquele abraço!”. Um dos mais lindos poemas da música popular brasileira é Copo Vazio. Gil, Caetano, são personagens, estão inseridos no imaginário do povo, no inconsciente coletivo. Tornam- se ídolos e uma energia intensa é gasta para a alimentação do ídolo. O ídolo se alimenta da nossa energia. Não basta apenas ir à loja comprar um disco, é preciso colecionar notícias sobre o ídolo, viver horas pensando nele, discutir sobre ele, e assim por diante. O ídolo às vezes produz cultura, como é o caso de Gil e de Caetano. Às vezes o ídolo substitui a nossa voz. Nos períodos mais duros da ditadura militar no Brasil, Chico Buarque, Geraldo Vandré e outros artistas foram os personagens que assumiram as nossas vozes. E graças aos ídolos, foi possível seguir caminhando e cantando.

Doutor Jivago, Desdêmona, Otelo, e o Gato de Botas e o Sapo Príncipe. Sim, os personagens de Literatura Infantil nos colocando no mundo. A infância feliz é a infância da bruxa, magnífica herança européia.

O colonialismo cultural é responsável também por muitas belezas, como a literatura universal.

Falando em colonialismo, um personagem da comunicação de massa, o Fantasma, é um modelo. O melhor modelo dos quadrinhos. Quando  você gosta do personagem, quer imitar as coisas boas. Quer que ele nos sirva de modelo. É assim com as novelas da tv. Todos querem imitar ou ter algo do personagem querido, e que serve de modelo, um penteado que seja, um gesto, um objeto, o vestuário. NINGUÉM quer imitar o mau, ninguém quer ser Iago, ninguém quer ser Lex Lutor, ninguém quer ser parecido com a megera, com o trapaceiro, com o coronel da novela. Mas a arte é amiga da vida (Nem sempre do artista!), e o coronel personagem também existe na vida real, mesmo que, no caso da novela, seja apenas mera coincidência.   

Um dos ensinamentos transmitidos pelo Fantasma é o de que o filho substitui o pai, essa idéia é fundamental na construção mitológica do personagem, no universo da comunicação de massa.

Às vezes é preciso o assassinato do filho para que ele possa substituir o pai, para que ele seja reconhecido como o filho, como o filho enviado. E com o seu assassinato, a humanidade se sente  duplamente órfã e volta a clamar pelo pai. Freud.

Uma amiga psicóloga fala-me que é freudiana, seguidora de Freud. Entro em sua casa. Ela acende a vela diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida.

Monteiro Lobato, porque foi tão feliz entre os leitores? E, porque ainda hoje é leitura obrigatória na formação saudável da infância? Talvez porque ele tenha escrito e falado sobre coisas que as pessoas tinham e viviam, sobre as coisas que todos fazem ou faziam na sua época. A boneca de pano , o chuchu, os cabelos do sabugo de milho, a batata. Toda criança brincava com isso, com essas coisas. Por isso ele foi o grande escritor da criança, por falar sobre coisas que ela tem, coisas que ela vive em sua época. É a receita do sucesso: falar daquilo que as pessoas vivem. Se você escreve sobre o que as pessoas vivem, você comunica. Às vezes sobre o que as pessoas vivem, e não sobre o que elas deveriam de fato viver, o que elas viveriam no seu íntimo, no resíduo de consciência, no espaço fundamental da consciência. Às vezes o que as pessoas vivem é vida artificial que produz pseudofelicidade. As pessoas recebem um placebo, um entretenimento, e isso surte um efeito.O escritor que escrever sobre isso e não sobre a vida ideal, também fará sucesso.

Enquanto digito escuto da sala a televisão. Parece que uma canção do Chico será tema musical de uma novela. Lembro quando estava no Teatro Getulio Vargas na noite da Paloma, a noite do Tarancón. Nunca esquecerei. Como esquecer? Mas o Brasil mudou. Quase tudo mudou. Nós, que somos palimpsestos, escrevemos a nossa própria historia, camada sobre camada, apagando e escrevendo por cima, e somos assim o nosso próprio personagem. Cada qual é personagem de si mesmo. Parabien de la Paloma. É grande o meu esforço para não chorar. Parece que o tempo rodou num instante.

O Brasil mudou, mas o Brasil não é só o TCHAN.Temos personagens importantes como os do Sitio,  personagens do rádio, como o cronista esportivo que emocionava meu pai durante o barbear num tempo em que o jogador era um modelo, um personagem que simbolizava um modelo ético de vida. Personagens do rádio: Juvêncio, o justiceiro do sertão. Não havia uma só criança na rua na hora do Juvêncio. Meninos e meninas corriam para casa, para ouvir o Juvêncio. Até que um dia, no meu bairro chegou o circo e um dia o Juvêncio foi a atração principal. Você acredita? Juvêncio, o Justiceiro do Sertão, no circo. Que decepção! Todos os meninos e meninas se decepcionaram, inclusive os que olharam pelos buracos da lona. O Juvêncio era tão diferente do que todos imaginavam quando estavam grudados no rádio!

Literatura, gibi, cinema, teatro, em todos os lugares encontramos os personagens, eles vão formando  a mitologia atual, criações humanas como o herói. Cada qual com a missão e o propósito de nos ensinar o modelo ético de vida. Até mesmo uma boneca de pano.

Há personagens que invadem a nossa casa e não representam nada. Ser a loira de um grupo musical. Não consigo alcançar o significado ético disso (há?), apenas a motivação do dinheiro, do status, da fama inócua.

Vivemos a era da embalagem, do cérebro de purpurina. São personagens que não levam a nada, apenas ao retrocesso estético, ao êxodo da beleza, mas há vantagens em termos de satisfações pessoais. Uma delas, é claro, é o conforto material, a segurança. Isso é algo muito importante na vida de uma pessoa. Consciência? Esqueça...

Subir no palco e representar uma caricatura de mulher, fortalecer o já sólido sistema machista, trair a mulher, como se os tais atributos abastecessem um décimo de quaisquer neurônios.

O que pensaria a mulher de clitóris extirpado, a mulher mutilada por estupidez religiosa ou a linda jovem guerrilheira, armada até os dentes, sim, entre os dentes vociferam poemas amargos como boldo, e ferozes como a consciência plena de liberdade. Que diriam...

Os valores não são os da consciência, não são éticos, são financeiros. Felizmente, para as mulheres há outros modelos, outros personagens, outras personagens.

E o bispo chutou a santa, e o compadre chutou a loira, e o ídolo do futebol milionário não chutou a bola na final da copa, e assim vai...

A poética do varal resiste na periferia, a vida bonita, simples e autentica, articulada na alegria transparente da conversa na moqueca de peixe, nos sonhos que não foram contaminados. Para tudo isso há outros modelos, outros personagens, embora adultos se ocupem com isso, com essa estética que a mídia covardemente deposita em nossas casas.

O mito do século XX foi o carro, o do século XXI será o computador. Podemos falar isso, mas os personagens criados nos diferentes setores da arte, representam a mitologia atual.

Ele, o ET, não é humano, mas nos transmite o amor, a amizade, o sentido profundo da verdadeira amizade. O que é o ET? É um conto de fadas sobre a amizade,sobre o valor ético da amizade. O ET do cinema é fabuloso, de fábula: Minha casa!...Minha...casa...

Spielberg talvez devesse construir filmes sobre a vida de personagens que tantos ensinamentos teriam para nos transmitir. Espinosa, que filme extraordinário daria a sua vida! Erasmo de Roterdam, que maravilha! A bondade tem um nome: Erasmo , a ética: Espinosa. Na literatura, Jorge Luis Borges, um modelo mítico construído com a sua própria ajuda, é um belo exemplo para se seguir, ou filmar...

Sempre desconfiei  que o Borges tenha sido a própria criatura na escadaria!

Nunca me preocupei sinceramente com a cabeça política de Borges. Sempre segui cegamente a sua  medonha alma universal.

Vidas como a de Cora Coralina, Carlos Drummond de Andrade. Timidez, doces. Ministros não merecem tanto espaço nos jornais. Drummond, Cora Coralina são sinceramente mais importantes. Afetam a nossa vida com a doçura, com a poética. São os nossos melhores personagens.

Há escritores que é bom e prudente que se conheça apenas as suas obras. Outros são motivos de valores éticos, modelos.

Os personagens que compõem a nossa vida, nos enriquecendo com a riqueza oculta, estão na literatura, nos quadrinhos, no teatro, no cinema, e, com certeza, estão todos bem.

   

(abril/2001)


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
marcianovasques@hotmail.com