Marciano Vasques


O LUGAR PRIMORDIAL 


Eles fortalecem. Cada desafio é um  tônico. É prioritária a vida em comunhão com o desafio. Uns são mais difíceis. Escalar rochedo, saltar sobre correnteza, parecem desafios de mais fácil enfrentamento do que, por exemplo, reconhecer um erro e admitir que o outro pode estar certo. Parecem mais fáceis os desafios físicos. 

A mente constantemente desafiada se aperfeiçoa, seu destino é o da correção, da tolerância, da sensatez.

Não armazene bagunça, ressentimentos, mágoas- má-água. Livre-se  disso, desses sentimentos, na primeira esquina. Grãos de areia que se dissolvem com um sopro, podem ser transformados numa potente e rígida rocha sobre a sua cabeça. É uma transformação fenomenal no campo mental. Infinitos grãos se solidificando e se agregando até se transformarem numa única e  aparentemente indissolúvel rocha. Essa transformação ocorre no lugar primordial, a mente.

É nela que se alojam  medos e preconceitos, medos que se alongam, preconceitos que se estruturam, que se ramificam, se enrijecem. Preconceitos que na maioria das vezes você irriga no dia a dia, abastece, nutre, fortalece.

A mente é o lugar primordial. Nela sobrevivem, quando deviam ter sido exterminados, as idéias mofadas, os pensamentos com mofo. Tudo é primeiramente na mente, o lugar do esboço, do equilíbrio. Tudo é originalmente rascunhado. É o lugar das garatujas!  Nenhum fato, nenhum acontecimento, nenhuma idéia, nenhuma vontade, nenhum erro, nada nasce fora dela!

Talvez seja preciso o remédio de Epicuro, pois afinal é com a mente, é na mente, que você transita do paraíso ao inferno.

A visão do paraíso, presente em diversas mitologias - não um lugar enfadonho, de eterno ócio, desocupação, regozijo permanente, de contemplação, de deslumbramento sem fim, mas um lugar de harmonia. Esse   paraíso, a sua possibilidade, a sua utopia, está dentro da mente. Ela é, ela pode ser, o alojamento do paraíso. Do paraíso suportável! 

Mente: a morada do medo, dos temores. A mente ergue fortificações, castelos, cidades para abrigar e alimentar o medo. Os temores criam uma cidade, edificam fortalezas.

Habilmente, tecem uma organização de cupim, tudo sempre se originando de medos inicialmente pequenos. É necessária a descupinização da mente, é necessária a retirada do mofo, do pó, é necessária a varrição diária dos porões mentais.

É necessário o zelo, o cuidado. Cada um tem que se transformar no eficiente zelador da mente, ou seja, da alma.

Ser o zelador, o eterno vigia. A mente adquire facilmente o hábito de se enfraquecer. Foi na mente que ocorreram antecipadamente os fatos que me desviaram do meu grandioso caminho. Quantos anos sem compreender que o meu caminho já estava traçado em mim desde cedo, e foi preciso muito sofrimento para que ele se revelasse claro como a água e depois, estupidamente, quantas vezes dele eu me desviei, quando, por descuido, ou melhor, por insuficiência de consciência, permiti que o efêmero, o transitório  me desviasse. Se pudesse relacionar aqui todos os desvios, mas basta que eu registre que fui um homem dominado pelas paixões, que, aqui, tem o sentido espinosista. Paixões como afecções.

É evidente que um rosto bonito era o suficiente para me seduzir, e, quantas vezes me deixei levar como se fosse um brinquedo que pudesse ser carregado, ao mesmo tempo que acreditava ser o dono da situação e que tivesse também o poder de seduzir, e que a conquista de sedução era ou pudesse ser sinônimo de felicidade, enquanto deixava na beira da estrada o meu caminho. Anos depois, compreendi que a culpa de todos os males, e, principalmente, a culpa  pelos fracassos, pela névoa em meu caminho, pelas nódoas, é e sempre foi exclusivamente minha, embora tenha sempre sido mais fácil atribuí-la  aos outros. Culpa aqui não se trata do sentimento horrível do cristianismo.

Foi preciso a sabedoria do tempo para a compreensão de que, cada vez que eu me apaixonei pela ilusão, o meu caminho foi sacrificado. E então, ao ver claramente que todos os desvios foram esboçados inicialmente na minha mente e, enquanto eu a nutria com leituras, e leituras fundamentais, ia, a cada dia, me aproximando do efêmero, sendo envolvido pelas paixões e pelas artimanhas do cotidiano, sempre com o aval da mente. Compreendi finalmente o quanto é difícil ser homem, e esse é o grande desafio. Homem nada tem a ver com a demonstração de força, seja como ela se apresente, inclusive, como o poder de sedução.

Na minha mente brotou o ídolo, não no sentido da indústria cultural, de idolatria pura, você colecionar objetos e reportagens, enfim, você dedicar uma boa parte da sua preciosa energia para sustentar e dar sentido ao ídolo, mas no sentido de ser um seguidor, exemplificando: ver nas qualidades do suposto ídolo, o seu ideal de ser.

Um homem que perdera a visão ainda jovem – sempre é cedo para se perder a visão! - vivia tateando os livros pelos labirintos de uma biblioteca, sentia enorme prazer com a forma, a textura, o corpo do livro. Esse homem tinha a alma profundamente universal, eu confessei isso por escrito. Escrevia belos poemas e contos com os quais ia montando o seu romance, uma espécie de quebra-cabeça mitológico. Homem repleto de mitologias, tigres, espelhos, labirintos, talvez a sua maior obsessão. Um dia alguém quis conhecer o seu pensamento, não o seu pensamento mitológico, de expansão universal, não o seu literário, mas o seu pensamento como homem, como cidadão, como ser humano e então eu me dei conta que não conhecia o ser humano, o homem, mas apenas o escritor, o mito, o ídolo.

Philip Roth estava certo. Existe o homem, o cidadão, e existe o escritor, a lenda. Existe o ser humano e esse é o problema!

Esse ser humano tem um pensamento, uma mente, ele pode se revelar totalmente diferente do que projetou com a sua lenda, a sua mitologia pessoal. E ele, o meu ídolo, o escritor que se tornou o meu modelo exemplar, apareceu pela primeira vez despido, com preconceitos, um desprezo pelos negros, e demonstrou ter idéias políticas  reacionárias, com a possibilidade de ser alguém de direita, até mesmo defensor e admirador dos militares.Então eu descobri: há o homem! O homem existe! (Um compositor disse: A minha obra não sou eu!)

Foi uma decepção grande e traumática descobrir que a bela literatura, de alma universalmente expansiva, nada tinha  a ver com o homem. Nada tinha a ver no sentido da expansividade universal! É claro que o homem, o ser humano, se revela naquilo que escreve, mas quando algo fica oculto gera uma indagação, uma preocupação, uma reflexão, mesmo que tardia. E no caso da alma de expansão universal, foi dolorosa a revelação de que ela está apenas na literatura, pelo fato óbvio de que o escritor, enquanto homem também, enquanto ser humano, tem que estar voltado para o sol, sua face tem que ser a do girassol, o que significa, ele tem que estar voltado para o futuro, e o futuro é sempre a luta pela liberdade e contra toda e qualquer forma de opressão, e isso não cabe numa visão politicamente reacionária e tampouco em mentes preconceituosas. Talvez tenha sido eu o verdadeiro cego! Sim! Talvez tenha sido eu o cego!

Em outra ocasião, já desabara com a descoberta surpreendente de que o cantor de protesto fora um mártir fabricado, assim, um mártir inventado, uma invenção mitológica, uma criação mítica da esquerda.

Fui enganado, com o seu silêncio, com o seu consentimento. O cantor de protesto foi também o meu ídolo, uma espécie de ídolo. Embora Luis Momesso, que hoje está na Universidade Federal de Recife, tenha dito a mim que não tinha nenhuma ilusão com intelectuais e eu tenha preferido ignorar, pois na época me julgava um intelectual, quando devia ter investigado cientificamente o que ele queria dizer com aquilo, inclusive se tinha a ver com a idéia de que um intelectual não combina com o poder, ou apenas com o cantor de protesto que já negava tudo, sem que eu quisesse prestar atenção.  O fato de eu me julgar um intelectual não acrescentava nada ao meu caráter. Apenas demorou para que eu pudesse compreender que o intelectual não é dono da verdade. E, se de fato alguém fosse o dono da verdade, a venderia com juros acima do mercado de opiniões.

Se eu já tivesse compreendido o valor da atenção não teria agido da mesma forma como agia o seguidor do cantor da Jovem Guarda quando no inicio dos anos setenta, talvez o mais significativo momento da igreja católica no Brasil, quando emergia uma campanha da fraternidade com um cristo renovador, de paletó e gravata, inserido no cotidiano, um homem da atualidade, um novo cristo, colocando em questionamento o cristo antigo, - em musicais, e em missas jovens nas igrejas da periferia de São Paulo -, justamente quando o novo cristo entrava na igreja, pela porta da frente, pelos braços da juventude, o cristo distante dos mistérios, distante da filosofia mística, mas o cristo operário, metalúrgico, trabalhador, cidadão, o cristo no meio do povo, e o seguidor do cantor da Jovem Guarda não prestou atenção no significado da gravação da primeira música religiosa de Roberto Carlos, na qual reaparecia o Cristo antigo, o Cristo pai, o salvador.

Eu nunca quis prestar atenção nas coisas. Isso afinal requer um aprendizado. E talvez por isso, mesmo com o cantor de protesto  afirmando, após anos de silêncio e consentimento, ter sido ele uma necessidade midiática, um atendimento ao espírito ideológico, eu tenha chegado ao imenso escritor de literatura universal, - não mais posso falar de alma -,  como uma entidade dentro do homem, como se fosse uma coisa só. Posteriormente, a obra e o homem, essa separação causou em mim um ferimento profundo, dói.

Lembro então o quanto a nossa mente é imperfeita durante o seu processo de lapidação. Escrevi um artigo sobre os Ídolos do Intelecto, quando talvez tenha sido prisioneiro de outros ídolos, tal como um adolescente tem os seus ídolos musicais, e o ídolo sempre costuma ser cruel, como o poder, o grande ídolo de muita gente, o mais cruel dos ídolos, conforme assinalou o aluno de jornalismo da Unicsul, tomando como base uma frase filosófica de uma historia em quadrinhos.    

Aquele  que veio depois, o jovem, tem o seu ídolo musical, e também  o povo, a gente simples do povo. Eu também tive os meus ídolos. Qual  a diferença? Por que o escritor é o meu ídolo? Por falar as coisas que quero ler ou ouvir? E assim com Chico Buarque, Caetano Veloso, que cantam a poética que eu entendo e quero ouvir? Mas o ídolo pop, ou o cantor da música comercial, o sertanojo (Essa expressão não é minha! E não gosto dela!); cada ídolo fala ao seu fã, ao seu seguidor, aquilo que ele entende e quer ouvir. Assim acontece comigo. O escritor, o poeta, o cantor da elite intelectual, fala, escreve ou canta o que eu entendo e quero ouvir.

            Talvez eu tenha  então que me autoflagelar intelectualmente com penitências mentais, mentalmente, não para ser transformado em santo, como o fundador da Companhia de Jesus, que se mutilou, se autoflagelou durante anos - um homem se autoflagelando  vinte anos vira santo, assim como o que jamais aceitou os seios maternos, e por essa “virtude”, também é transformado em santo!- Esta autoflagelação mental, intelectual, significa o rigor com a mente, um rigor mental, absoluto, para que a mente não receba nem procrie e nem agasalhe mais o ídolo e o expulse como expulsou as superstições, aprendidas na pedagogia caseira. E então, a mente, autoflagelada, a alma, venha a ser educada e possa pensar com retidão. Este rigor significa o mergulho na literatura universal e a recusa do fácil, do entretenimento, de tudo que atrapalha o desenvolvimento intelectual da humanidade. Esse mergulho, esse cuidado extremo com a mente pode ser motivo de intenso prazer por nos colocar em contato não apenas com o patrimônio da humanidade, o que ela tem de melhor, os seus melhores espíritos, mas também nos colocar em contato com as mais interessantes pessoas, com as mais belas e frutíferas amizades, e gente, - disse um dia a Daniela - é a melhor coisa do mundo.

            O autoflagelamento intelectual deve ser tão eficiente quanto o aperfeiçoamento intelectual de Santo Agostinho. E assim, quem sabe poderíamos sistematizar a literatura contemporânea, se não me desviasse dos textos, e ficasse impregnado dos poemas, sem o ídolo, sem a necessidade do ídolo.Talvez então a mente, alada por natureza, pudesse edificar a vida. E a vida desabrocharia na sua morada definitiva, o lugar primordial, onde os girassóis substituiriam definitivamente medos, superstições, a smog, incertezas, ídolos...

(abril/2001)


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
marcianovasques@hotmail.com