Marciano Vasques


O SIGNIFICADO LITERÁRIO

 

Fico feliz quando lembro que em Aruba o povo fala o papiamento, uma língua inventada, uma mistura de idiomas, e ao saber que os jamaicanos falam o patoá, que é uma adaptação do inglês. O patoá é uma outra língua. Isso é espetacular, faz parte do espetáculo sonoro da humanidade. Línguas, quantas são e cada qual com os seus segredos e belezas. Algumas palavras em Espanhol são de extraordinária beleza e, um detalhe, só são plenamente lindas no idioma espanhol, em qualquer outro idioma não conseguem alcançar a rara beleza original. São filhas do idioma.

Quando Mussolini proibiu os homens de utilizarem o pronome Lei alegando ser este feminino, o povo obedeceu e por temor o pronome Lei emudeceu nas bocas masculinas. Desapareceu da linguagem do povo. Bobagem! A língua não tem jeito. Quando Mussolini acabou, o povo voltou a falar o pronome.

Pus-me a pensar com certa freqüência num editorial de uma revista que eu lia na década de 80, que falava imperativamente da necessidade de uma língua universal. Sempre quis escrever sobre isso, expor a minha discordância. Procurei pela revista em minha biblioteca e então me dei conta de que a emprestei e por isso não a tenho mais. Como sempre, não consigo lembrar para quem eu emprestei. É sempre assim, por causa de hábito bobo, vou ficando sem algumas coisas preciosas.Tenho, seguramente, cem livros (um pouco mais) emprestados, mas como a devolução demora, geralmente eu não consigo, em hipótese alguma, lembrar para quem eu os emprestei.

Sem a revista, sem o editorial..., mas discordo da idéia intelectual de se implantar uma língua universal. Melhor ficar apenas com uma língua alternativa como Esperanto, se me faço entender.

Em qual outro idioma seria tão belo o poema de Eugenio de Andrade?

A língua é um dos patrimônios humanos e isso encerraria a discussão. Aliás, o povo livre é o que cultiva a sua língua, que zela por ela. Na França, nada a ver essa coisa do inglês predominando na informática, para citar um exemplo. Quando uma língua alheia predomina, o povo é pré-dominado.

Aldo Rebelo gostaria de ler trechos desse artigo.

Língua, instrumento de dominação, língua, separa os povos, dificulta aproximações. Bobagens, quando há algo de profundamente misterioso nessa coisa do ser humano falar uma língua especifica. Que todas tenham derivado de um eixo, uma língua mãe, é evidente, mas o enigmático é o acasalamento  sonoro, a profusão de timbres, os vocábulos, a beleza particular e misteriosa de cada idioma.

Que importa que a maioria dos brasileiros não saiba a diferença entre letra e fonema, ou entre ditongo crescente e decrescente ,ou ainda, ditongo oral e ditongo nasal.Também não importa que não saiba o que é um dífono e nem sequer a mais fácil de todas as regras, que é a acentuação das proparoxítonas. Alias, devo ao Chico com a música Construção a verdadeira descoberta das proparoxítonas. Que importa tudo isso, se o que vale, o que realmente interessa é a alegria da língua, é ver a língua se arrastando nas praças, morros, ruas, -nas alegres e nas cruas-, praias, cidades, como uma linda serpente dourada e colorida,que se multiplica em milhares. Linda figura inofensiva que expele por onde passa o aroma inconfundível da liberdade e traz escorrendo em sua pele o licor da felicidade.

A língua é talhada na literatura. O papel branco é um eterno convite para a escrita, a escrita é o ourives da língua. A língua falada  é lapidada na escrita, é óbvio, mas às vezes o óbvio necessita de atenção.

É um covarde aquele que usa a língua escrita para oprimir o povo, como covardes são os que deturparam o conceito de contrato de Rousseau e o pobre consumidor assina sem ler, e, de qualquer forma, mesmo que lesse, assinaria. Um exemplo de covardia: quando a mulher reclamava do administrador regional no Parque Guarani, um bairro da leste de São Paulo, e enfrentava a prepotência, e então ele diz, em estilo coronel, “a senhora ponha tudo no papel, reivindique agora, por escrito”, e a mulher pouco a pouco se encolheu diante dos  risos hipócritas, como se fosse de fato vergonhoso não saber escrever, ou melhor, não saber redigir, colocar no papel.Isso não é vergonha. Vergonhoso é a ação de doutores que, com seus belos diplomas obtidos em universidades de elite, comandaram este nosso politicamente sofrido país. Não me lembro de uma mulher simples do povo no poder, apenas doutores, gente com mestrado e doutorado. Gente “preparada para dirigir, governar, comandar o Brasil”. Gente ilustrada na retórica, no sofisma, no discurso, na oralidade, na escrita. O que vem demonstrar uma tese que vive perambulando em minha cabeça, e tem sido alimentada em conversas, a de que a cultura adquirida (livros, universidade, etc) não modela o caráter, a essência, o que é essencial e anterior na pessoa. O que é essencial parece que já estava, isso é imutável. Isso deságua na idéia e no fato de que o homem rude culturalmente falando, ou seja, o iletrado, possa ser tão justo e correto, e agir com mais retidão, do que o doutor, o homem instruído, aquele que deveria zelar pela ética, pelo aperfeiçoamento da sociedade humana. Mas ele não foi instruído para isso, porque algo já estava dentro dele. Como também há homens instruídos que agem com retidão, isso agita ainda mais a tese. Não é a cultura adquirida, não é a universidade, o diploma, o livro, que vem transformar a pessoa no que ela de fato não é. O livro, a cultura adquirida ajuda, mas é necessário que haja algo anterior. Aqui necessita de mais amparo, mais argumentação e mais solidificação. O leitor pode e deve ampliar essa discussão.

Só gostaria de encerrar dizendo da imensa confusão que se faz entre acúmulo de informações com o aprendizado do pensar, é o tipo de confusão como a que se faz entre inteligência e razão, entre moral e ética. O sujeito tem muita informação e começa a acreditar que está mais lapidado que outros. Ora, informação é informação. Você pode adquirir informação de várias maneiras, na Universidade, nos jornais, na internet. E daí?

Uma forma de descarregar o excesso de informações é escrever. Colocar no papel tudo que se vai adquirindo. Encher o leitor de informações.

Li o livro de um amigo, resultado de uma dissertação de mestrado, mas é tanta informação! Tantas citações!, que fiquei impressionado. Aliás, em certos meios intelectuais quando mais você cita mais você demonstra cultura. E a coisa não é bem assim. Já passei por isso, quando escrevia poemas apenas para um grupo de poetas ler. Lamentei profundamente que o meu amigo tenha abandonado a sua simplicidade pessoal ao transpor para o papel o resultado da sua pesquisa (obs: nada tenho contra a pesquisa científica universitária. A questão que tento abordar é outra.) apenas para atender as necessidades de um certo comportamento acadêmico.

Quantas vezes pensei no isolamento do alemão, na tristeza pelas dificuldades do idioma, pensei por pensar, o alemão, com certeza, é feliz com o seu idioma. Mas é evidente que o idioma, no caso do alemão dificulta o seu, digamos, entrosamento.

O alemão e o seu passado de hybris, de orgulho desmesurado. Um povo lindo como são essencialmente  lindos todos os povos, quando se torna possível o desnudamento da alma de cada povo. Mas, quero dizer que os alemães sempre atiçaram as minhas reflexões sobre o modo de constituição de cada língua.

A língua me transporta para a literatura  e então me ponho a pensar no significado literário. Qual o estatuto  da literatura? Para onde ela caminha? A que será que se destina?

A literatura é arte? Ela está ligada somente a estética? Ela é neutra? Neutra em que? A literatura deve ser engajada? O Escritor deve escrever para as causas sociais? Estaria a literatura invadindo outros espaços?

Quando a literatura veicula conteúdo social, humanista, ela está sendo subordinada à política, aàideologia?

E quando se diz neutra, destinada apenas ao prazer estético, estaria de fato promovendo a alienação? Literatura é apenas um produto artístico, um produto estético? É apenas isso?
            Julian Murguia, um escritor nascido no Uruguai, escreveu uma beleza da literatura infantil, a pequena obra intitulada A Guerra das Formigas. A literatura, mais do que bela, mas do que um produto vinculado a prazer estético, está, no exemplo da Guerra das Formigas, exercitando a sua natureza de denúncia, de alerta, de orientação. Oriente- se  meu jovem, pela literatura, e verá que velhice esplendorosa terá! A neutralidade da literatura é impossível. Ela sempre estará comprometida com a humanidade. E esse comprometimento nem de longe sugere a sua transformação em panfleto!  

O livro paradidático, a literatura infantil e juvenil, estão aí demonstrando que a literatura é algo mais. Ela, no caso, está apoiando o fazer educativo, está sendo administrada como um complemento, um auxiliar, um complemento vitamínico para o espírito, um instrumento valioso no processo da educação. Se a literatura é arte, é arte diferente, é forma de manifestação artística diferente de todas as outras. Você pode olhar e admirar um quadro, uma pintura, e sentir a sua neutralidade social, humanística e política, e se deleitar com a sua beleza, com a efusividade estética. Com a sua estética apenas. O mesmo pode ser com a música, que pode chegar ao seu espírito com uma delicadeza incomparável e se derramar como rocha transbordante sobre terra em lava, e você viver alguns minutos de paz e restauro da harmonia, mas a mesma música não lhe transmitirá nada no que diz respeito ao social,ao humanístico e ao político. Aliás, ela pode ate fazer você esquecer desse tripé, mas, com a literatura é diferente!

A literatura tem o seu significado distante do, digamos, apenas prazer estético, é algo mais ou menos assim: você quando escreve, sente que é para mudar algo, você espera sinceramente que algo mudará, um grão de areia que seja, uma centelha, uma faísca, um relâmpago, um risco de fósforo, que seja, mas você sabe que a literatura promoverá alguma mudança. O texto, o poema, que você escreve mudará alguma coisa, que seja, arranhará um fiapo de consciência, um fio de água cristalina num oceano.

A literatura, plena de signos, está significada, tem o seu significado, isso corresponde a dizer que ela fez amor com a humanidade, perdeu a inocência, perdeu a virgindade, ele fez o amor mais belo, mais cúmplice. A cumplicidade da literatura com a humanidade é tema para outro momento.

Onde a literatura agirá? Dentro do homem, dentro do leitor, dentro da ser humano. Se não for assim, se você não acreditar nisso, nessa condição inerente de mudança contida na alma da literatura, se você não acreditar que a sua escritura promoverá alguma mudança, mesmo que, no temporal, aparentemente imperceptível, então não escreva. Deixe  para lá, pois não se trata de literatura, mas de outra coisa qualquer, um entretenimento. E como já vivemos na sociedade do entretenimento, que substitui a sociedade da felicidade, não é necessária a sua contribuição.

Está aqui de modo apenas esboçado o estatuto da literatura, o seu significado literário.                                             

(maio/2001)


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
marcianovasques@hotmail.com