Marciano Vasques


INDENIZAÇÃO MENTAL
parte 1

 

            Onde é território do escritor é só liberdade.  Não território físico, mas da fala, território da palavra, da sua palavra. E por isso o escritor deve falar sobre as coisas sem temor.

            Todas as perdas, todos os danos, tudo que se perdeu, a vida que não mais pode ser vivida, aquilo que, por mais precioso deixamos escapar entre os dedos, como areia, aquilo que nos foi precocemente amputado, extirpado, aquilo que nos levaram. Os prejuízos e as perdas mentais, a alegria sempre adiada, a felicidade de pensar, perdida, escorrendo abaixo os degraus do cotidiano até ser pisoteada, isso é indenizável. É necessária a consciência da luta por uma indenização mental.

            A genitalização do sexo, a convergência do sexo para a genitália, como núcleo absoluto do prazer, em abandono do corpo como o templo maravilhoso da sensualidade, a invasão do espaço da criança, transformada em consumidor, em pequeno ser erotizado, um ser xúxico, a perda do olhar educado, voltado para as formas simples e belas, o livro como o efêmero da mídia, vendendo como vende, por exemplo, um disco de Zezé di Camargo,,,

            Meu pai, que nunca conheceu um poema de Drummond de Andrade, -a representação da simplicidade poética-, nunca leu, nunca soube de uma canção amiga, nunca leu, não conheceu um poema, uma prosa de Cecília Meireles, nunca soube que A vida vai sendo levada para longe, como um livro...

            Minha mãe brigando com o pequeno lojista por causa da caixinha com os soldadinhos, por causa do soldadinho com defeito, com uma perna só, ficando corada, vermelha como um camarão...

            Depois fiquei sabendo que a pobre mulher nunca lera um livro de literatura infantil, nunca lera um clássico das florestas...

            É preciso uma indenização mental pela instauração da malandragem. Um homem foi jogado no sofá para ficar horas do seu domingão legal diante da tevê, um homem transformado numa anomalia, a mulher convertida definitivamente em objeto sexual, o prazer concentrado, genitalizado. Quem pagará por essa vida desperdiçada, pelas perdas e os danos?

            Os doutores, os que deviam ter velado pela felicidade das pessoas, os que têm mestrados e doutorados e foram preparados nas universidades de elite para dirigir e governar o país, os homens que foram preparados para os poderes, homens da universidade vã, do estudo inútil,que adquiriram o conhecimento acumulado pela humanidade, mas não aprenderam o básico,o amor, o zelo, o cuidado, a sinceridade.Esses doutores através de anos e décadas, deviam ser obrigado a nos pagar uma indenização mental.

            Compreendi um dia, que é necessária a Postura Andersen, a postura de não perder o encanto. Andersen adquiriu a sua resistência de chumbo ao conviver com as intempéries de sua infância sofrida, fome, tristezas, perdas, mas é claro que ele escapou de um tempo xúxico, ele escapou disso, do smog mental, para ele certamente foi mais fácil do que para as nossas crianças. A educação ainda não havia sido terceirizada...

            Necessidades como a de botar os ovos no alto da montanha e ouvir as onomatopéias da alma, assim como de ser verdadeiramente o palimpsesto autêntico e independente em nossa vida, me levou até a literatura infantil, que vejo como a protagonista na alfabetização, num processo educativo de alfabetização, principalmente por causa dos seus valores que são éticos, e portanto universais.

            A história russa de Nikita, intitulada O Sapato de Ouro, contém os elementos que aparecem em histórias de outros povos, pois é assim que acontece com os contos de fada, com os clássicos da literatura infantil, com os contos primordiais...

            Era uma vez duas irmãs, que ganham cada uma um peixinho do pai. A mais velha frita e come o seu, a mais nova, Nikita, pergunta ao peixinho o que deve fazer com ele. O animalzinho responde que ela deve preservar a sua vida e joga-lo no rio, que assim, com esse gesto, coisas boas acontecerão para ela, e ele sempre a ajudará. A mãe acha isso um absurdo e começa a maltratar a filha, vai com a outra às missas enquanto ela fica em casa limpando o chão, fazendo o trabalho caseiro mais pesado, como uma empregada, uma escrava. E ela sofre, pois também quer ira à missa. ”Eu queria tanto ir à missa”, suspira.

            Ela vai ao rio e invoca o peixe, que lhe pede para ir à missa com as roupas novas que ela encontrará em casa. Ela vai à missa tão linda, parecendo uma princesa e ninguém a reconhece. Até o padre, que está sempre atento, repara na estonteante beleza da menina, e o príncipe, que também vai à missa, fica encantado e se apaixona pela bela desconhecida. Após três missas ele decide jogar cola no chão, perto do sapatinho de Nikita, e promete que se casará com a menina em cujo pé o sapatinho entrar. Vai ao vilarejo, de casa em casa, experimentando o sapatinho em todas as moças, até que finalmente encontra a dona do sapatinho e assim Nikita casa com o príncipe e vira princesa de verdade. O valor ético é que a bondade é uma coisa que vale a pena.

            O Sapo Príncipe, “Você prometeu tem que cumprir!” diz o pai para a princesa. Isso é um valor ético. A palavra é poderosa, você tem que respeitar a palavra. Tem que cumprir o que a palavra promete. Os políticos, -a maioria, parece que não leram este conto.

            Branca de Neve quando chega na casinha dos anões, chega para organizar a vida, o lar, ela reflete a alma feminina, a alma educadora da mulher, a mulher nasceu para educar o mundo. Se o mundo observasse melhor a mulher em vez de tentar atrofiá-la, em vez de tentar engessá–la, como vem fazendo através da história, com o auxilio da religião, da política, se prestasse atenção a reconheceria como a educadora por excelência. Ela tem  mania de educar, parece que quer lapidar o mundo, ensina aos homens a preocupação com detalhes, a organização com a toalha, a não urinar fora do vaso sanitário, e coisas assim. Meticulosa, exigente, e assim é a Branca de Neve, ensinando noções básicas de higiene...

            A ética do Soldadinho de Chumbo, o seu amor trágico. A criança não quer isso, ela se sobressalta,  ela quer um final feliz. Mas o soldadinho ensina por meses e meses de aula.

            E assim, falando em amor, Tristão e Isolda, Orfeu e Eurídice... O destino de Orfeu é o destino da cigarra, é o mesmo destino, primeiro ele foi expulso, o artista é expulso da sua morada, o cantor, o que canta e encanta é expulso. Isso pode ser levado para a literatura infantil. Ele se apaixona por Eurídice, e ela dança e o comove, ele diz ”Querem acabar comigo... mas você está aqui, ao meu lado e eu sou mais forte”. Depois acontece a tragédia com Eurídice, e a serpente já vai se acostumando a aparecer como simbologia do mal, e ele vai ao mundo subterrâneo buscar a sua amada, e a sua música comove o senhor Hades, o senhor dos infernos e comovido aceita devolver Eurídice para a vida, mas com uma condição, e isso é importante para a criança, a literatura também é isso, ela ajuda a impor limites, ela ensina a necessidade de condições, de regras, de acordos... Mas ele, curioso, desobedece, fraquejou, olhou par trás! E isso é importante, pois a curiosidade é a deusa da evolução, mas também é perigoso você romper tratos, acordos...

            Orfeu é mitologia, mas pode e deve estar na literatura infantil para uma criança da quarta série.

            Porém, só com o que é absolutamente lógico, só com aquilo que é possível de ser compreendido através da lógica da mágica. O que é compreensível você leva para a bruxa, você joga para a Bruxa, a Bruxa cuida com excelente performance disso. Agradecimentos aqui para a Bruxa, por ter zelado pelo meu crescimento, e ter tornado as narrativas tão interessantes.

            O que não é compreensivelmente lógico, o que não é magicamente lógico, você não pode colocar na literatura infantil, como as mulheres, as bacantes, que trucidam, que retalham, que esquartejam Orfeu, que dão a ele o mesmo destino da cigarra, o mesmo destino de Sócrates, que toma cicuta,  por ter pervertido a sociedade e a juventude, assim como Orfeu perverteu a natureza com a sua música.

            Essa lógica a criança não assimila: por que as mulheres fizeram isso com Orfeu? Por que elas não suportam a fidelidade masculina? Elas não suportam a fidelidade de Orfeu? A sua fidelidade para com a amada, isso é insuportável para a mulher? Um homem como Orfeu, fiel, precisa ser destruído e assim elas matam o objeto do desejo.

            O adulto devia ler A Guerra das Formigas, de Julián Murguía, um uruguaio. Nós estamos ali, nós somos aquelas formigas. Dois formigueiros, e a “vida transcorria placidamente”, em harmonia. Uma formiga preta com carga se choca com uma vermelha numa encruzilhada. No formigueiro vermelho, um conselheiro da rainha ordenou que quatro formigas fossem ao local, para prevenir novos choques, para organizar o trânsito nas quatro bocas da encruzilhada. Uma formiga preta viu e se apavorou: -”As vermelhas puseram guardas na encruzilhada! É um ataque!”

            Um dos conselheiros ouviu e, sem investigar se era verdade: - “É inadmissível!  Como podem fechar um caminho que é nosso?”

            E assim vai. A literatura infantil é a voz que nos aponta o caminho. É a voz que nos orienta, apenas aponta o caminho. Apenas diz, “Não converse com estranhos no caminho da floresta”. É a voz poética, delicada.”Sua voz me assusta!” diz a Dona Baratinha e as crianças se encantam com isso. A voz da Dona Baratinha, um conto de origem oriental é justamente isso, a representação da suavidade da voz. Da voz que deixa dormir. Mas a voz tem que estar inserida num contexto harmonioso, senão você cai dentro do caldeirão e então a decepção será muito grande.

            A literatura infantil dos seres fantásticos. E a Bruxa existe!

            A verdadeira Bruxa é o que deixa crianças sem livro infantil, com fome, no abandono, nas praças, nas ruas, isso tinha que ser prioridade absoluta!

            Aquele que explora o trabalho infantil, nas carvoarias, nos trens do metrô. Essa é a bruxa que devemos temer! Aquele que explora, que subverte, que violenta, que espanca a criança. Essa bruxa sim, deve ser combatida por todos os de boa vontade.

            A mitologia na literatura infantil já está e ela é rica, principalmente no Brasil. Há tantas lendas, lendas ricas e fascinantes. Isso tem que ser levado para a sala de aula diariamente, isso tem que nortear a alfabetização e não apenas ser lembrado no dia ou na semana do folclore, pois assim estamos contribuindo para a colocação desses povos, o povo indígena e o povo negro, num lugar de inferioridade, pois estaremos sempre nos referindo como se fossem povos do passado, isto é, o negro contribuiu com isso, a contribuição do negro na cultura, a contribuição do índio, e negro e índio são povos do presente e as suas lendas e mitologia fazem parte do nosso universo cultural. Não são povos que estão mortos, não são povos do passado, não foram mortos, não foram assassinados pela civilização, apesar das tentativas.

            Uma lenda tupi fala do nascimento da noite. ”No principio do mundo havia harmonia e a noite ainda não havia sido inventada” A noite havia sido guardada  no fundo do rio por um índio mágico. A filha do índio explicou que ela estava guardada num caroço de Tucumã, fruto de uma palmeira do Amazonas.

            O feiticeiro entrega  o caroço de tucumã e avisa: ”Eis a noite! Cuidado para que a semente não seja aberta, se isso acontecer, as coisas mudarão”, mas a curiosidade, como sempre, venceu, a deusa da evolução, que não aprende as regras, venceu, e em casa a moça filha do índio mágico disse:  ”Eles soltaram a noite, e veio a escuridão”.

            E assim é a literatura infantil, com toda as sua riqueza, nela também pode estar o destino feminino, como ele se apresenta nas narrativas lendárias e mitológicas, Psiquê, Perséfone, enfim... E veja a Ilíada, que inaugura a literatura ocidental, Helena, a mais bela de todas as mulheres, cobiçada e inatingível, é raptada por um sujeito medíocre, (Os medíocres também amam!), covarde, preguiçoso e indolente, incapaz de conquistar uma mulher e então, ele, Páris, filho de um rei, ele que cobiçava a mulher do próximo, rapta Helena, a mulher de Menelau, o rei. isso desencadeia uma desastrosa guerra  entre Tróia e Grécia, pois ao saber do incidente, Menelau procura Agamenon, que leva junto o amigo Aquiles, todos para enfrentar Tróia e resgatar Helena. Mas,Agamenon se apaixona por Briseída, a companheira de Aquiles, e rapta Briseída. Uma nova confusão, um grande problema, enquanto isso a poetisa Cristina Rosseti diz ”Ninguém nunca amou a minha alma peregrina!”.

            É preciso ouvir o chamamento da literatura infantil, ver a Sala de Leitura como o lugar sagrado na escola, o lugar do encanto, o lugar onde a boneca de pano fala e o gato de botas nos ensina sobre a vaidade humana, ao transformar o grande mágico em rato.

            O educador que não fala da literatura infantil, que a despreza no seu projeto pedagógico precisa urgente entrar na floresta como fizeram os irmãos Grimm, precisa com urgência rever a sua intencionalidade.

            Entre outras coisas ele está sendo privado do contato com o texto que nos afirma o tempo todo que a palavra é mágica, que a palavra abre portas, traz felicidade e tragédia. A bruxa pronuncia a palavra, isso é pedagógico. O mago pronuncia a palavra, isso é pedagógico.

            A literatura infantil nos mostra e nos oferece o conhecimento útil, o que se aprende com patinho feio, com os três porquinhos, com a guardadora de gansos, é fundamental para a alfabetização. Principalmente porque a literatura infantil ajuda e ensina a criança a decidir. Veja A Cigarra e a Formiga. É a criança que decide! Nem precisa de uma intervenção explicita do educador. A formiga é esquartejada por causa do canto? A criança que decide. Ela tem estruturas para decidir sobre isso.

            O professor ensina dígrafo, dífono, proparoxítona,etc... mas precisa ouvir o chamamento. Uma menina estava triste e o pai perguntou o motivo, ela respondeu que faz um mês que a professora ensina coisas e ainda não abrira um livro. E ela pensava que a escola era lugar de livros.

            Assim eu falei um pouco sobre a literatura infantil no processo educativo de alfabetização. Um dos investimentos de qualquer governo para nos pagar a indenização mental é justamente esse: livros e livros e livros. Investir na poética, no texto doce, que é o sabor infantil. No texto suave, na poesia, isso tem que começar com a criança. Nenhuma criança pode crescer sem conhecer os clássicos literários da literatura infantil, para que ela não cresça ouvindo algumas bobagens tipo: poesia não vende, ora, se você reproduzir isso sem explicar que não vende na lógica fria e calculista do mercado, como já assinalaram vários escritores, você está contribuindo com uma deformação da compreensão. Poesia não vende? A culpa não é da poesia, e menos dos poetas. A culpa é da insensatez metálica da nossa sociedade mercantil que tem a noção de utilidade deformada e coloca a poesia na relação das coisas inúteis. Um pensamento mercadológico, frio, insensato. Mas isso tem uma solução e está principalmente nas mãos dos educadores, a compreensão da literatura infantil como protagonista no processo educativo de alfabetização.

            Mas  para isso não adianta o governo  apenas comprar livros, que isso já é  feito, comprar livros e enviar para as escolas é muito pouco, apesar da importância do gesto. A escola  não é depósito de livros, a escola é o lugar do livro vivo, é preciso investir com firmeza e persistência no professor, equacionar a falta de contato com o texto literário poético infantil, instrumentalizar o professor com reciclagens, cursos, torná-lo um leitor. Colocá-lo na floresta, na palavra.

(maio/2001)


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
marcianovasques@hotmail.com