Marciano Vasques


INVENTÁRIO DE CICATRIZES

 

                                                      Eu sei que as cicatrizes falam...”
Roberto e Erasmo
     

          Acabo de ler o livro CARTA AOS NÁUFRAGOS de Dojival Vieira e aproveito o título de um poema para nomear esta crônica.

            O fato de Dojival ter lançado o seu livro na Universidade Católica de Santos já criou uma aproximação entre nós e como eu sempre quis homenagear os poetas, compreendi  que o título de um poema estar numa crônica é uma forma boa. Aliás, o título do seu bonito poema já traz em si mais que uma crônica, traz um romance, uma dissertação, etc.

            As feridas expostas também cicatrizam. As imensas decepções também são feridas. Algumas frases nascem feridas e se derramam bêbadas de tristeza no ar. O poeta poetiza a cidade. A cidade é a sua poetisa.

            O poeta oferece o seu estatuto para a sociedade metálica. Um dia eles serão chamados e às vezes penso que este dia está perto. Olho para as pessoas e elas parecem saturadas da lógica fria.

            Algumas decepções também são feridas que se cicatrizam, porém a cicatrização não afeta a falta de afeto. Isso quer dizer:o fato de haver a cicatrização não significa que você estará imune, que escapará ileso ao afeto escasso.

            Há pessoas que só confiam em pessoas afetivas. E são pessoas com doutorado na França. Algo não mudou nessas pessoas.Talvez eu chame isso de resistência. A resistência é o maior bem atualmente.

            Prefiro me envolver com pessoas afetivas. Talvez nem me tenha dado conta de que só me relaciono com pessoas afetivas. Aliás, na educação sempre fui assim, por isso sempre prestei atenção em Paulo Freire.

            Decepções também são feridas, mas não são incicatrizáveis. Uma de minhas decepções foi com um importante político nacional. Decepção porque eu admirava e, mais que isso, acreditava no seu discurso socialista, voltado para as liberdades. Sempre me pareceu bem intencionado! Mas fez aquilo no avião e então me decepcionei profundamente. A partir daquele vôo quis catalogar as decepções com políticos, depois desisti do empreendimento.

            Ele passou a mão na bunda da comissária de bordo. Ela, profundamente ofendida e desrespeitada, falou ao comandante. Depois ele fez novamente a mesma coisa. Um político que eu tanto admirava! E deixou um cartão na bandeja da comissária de bordo.

            Ela, em prantos, falou com o comandante, que a substituiu por um homem que passou a fazer o serviço de bordo.

            Na chegada o deputado se aproximou dela e falou: “Você é tão bonita! Não devia estar trabalhando...”

            Ela respondeu: “O senhor está dizendo que o trabalho é só para gente feia?!”

            Ele continuou: “Você pode ganhar muito dinheiro se quiser, pode ter tudo, sabe onde me procurar...”

            O comandante o agarrou e disse: “O senhor pode ser um deputado, mas se fizer isso novamente no meu avião, eu o amarro na poltrona e faço um barulho na imprensa.”

            Se um dia ele ler essa crônica ficará aliviado ao descobrir que preservei o seu nome...

            No melhor lugar do país para se viver, um jovem oferecia drogas para um garoto de doze anos. A polícia chegou e começou a espancar o rapaz que, mesmo com o seu rosto transformado em pasta de sangue, continuou a ser esmurrado, cada vez mais forte.

            Enquanto o jovem gritava:  “Pelo amor de Deus, parem!”, uma jovem desesperada telefonava para a central de policia: “Vocês  precisam vir aqui, estão matando o rapaz...”

            Resposta: “Já vamos enviar reforço!”

            Pouco depois chega um novo carro de polícia com quatro policiais que passam também  a espancar o rapaz que, ensangüentado, permanece em pé desmaiado de tanto apanhar.

-Mas vocês não podem fazer isso! –grita a moça.

          -A senhora tem filho?- falou um deles, talvez o comandante.

            -Sim, tenho!

            -Então veja, quem está batendo nele não são policiais, são os pais. Aqueles policiais todos são pais.

            Fiquei pensando na justificativa do policial e algo me inquietou.

            A policia não é paga para fazer isso. A atitude correta seria levar o jovem para a prisão, mas, de qualquer forma, são lógicas diferentes...

            Queria escrever um poema de amor, ser como os poetas que ficam derramando seus poemas amorosos, confessionais. Alguns transformam os poemas numa espécie de poesiaterapia para a mulher, pois ela aparece como uma musa inspiradora, uma espécie de deusa, uma mulher idealizada, a mulher amada, e então  contam em seus poemas os momentos íntimos, eróticos, falam do amor romântico, declaram dependências, prometem, às vezes, que darão o céu para as suas amadas, enfim.... Falam do amor com tanta propriedade, que sinto  receio e constrangimento quando me apresentam como poeta, sinto que o termo está meio vazio, meio vulgarizado, meio distorcido.  Em muitas circunstâncias o poeta está descontextualizado e o seu significado se aproxima do letrista de música pop romântica.  Mas isso é assunto para debates, entre os poetas comprometidos com a discussão, e o que me importa aqui, o que está ao meu alcance é a compreensão de que o poeta está muito vinculado à idéia do amor romântico burguês. Isso realmente me incomoda e me perturba, mas o guará é solitário e tímido.

            Claro que numa etapa de crescimento, de amadurecimento, também escrevi poeminhas de amor romântico, nos quais a mulher idealizada era o eixo central, a razão de quase toda a poesia. Escrevi muitos poemas confessionais e pensava comover um leitor com as minhas declarações de amor, mas nada sabia ainda do amor verdadeiro e conhecia apenas a mulher idealizada, a construída pelo mito do amor romântico burguês, não conhecia ainda a mulher de todos os caminhos que se apresentava envolvida em névoas, a companheira distante da cantoria...

            Quando a gente amadurece tende naturalmente a esquecer o próprio passado e menospreza a aflição do jovem, sem compreender naturalmente que a consciência das coisas não brota espontaneamente, mas é fruto, é resultado de um processo. E nesta história de amor romântico burguês, foi preciso eu descrever um arco para compreender que por trás de tudo, por trás dos poemas românticos, tipo letras de música pop romântica, está a necessidade intrínseca do ser humano, do homem e da mulher, de amar. Independente de qualquer coisa, homem e mulher nasceram para o amor.

            Tantas são as cicatrizes, que é necessário o seu inventário.Talvez inicialmente o seu mapeamento, um índice geral de traições, de ressentimentos, o primeiro olhar severo, a primeira severidade, o primeiro silêncio, a primeira frase brusca, a primeira dissimulada, pessoas que me roubaram projetos, pessoas com quem convivi e me traíram, pessoas que se articularam na minha pureza, e ergueram de soslaio os seus empreendimentos mesquinhos, pessoas que conheci e se intitularam poetas apenas por trabalharem com as palavras, mas agiram moralmente.

            Alguns brigando por cargos em entidades culturais, levantando picuinhas, agindo verbalmente  e moralmente, como se disputassem um diretório acadêmico, ou como se estivessem num partido político, ou numa agremiação partidária  ou outra coisa assim, gente causando silêncios, tentando com o silêncio provar que o outro não existe, se você não cita o outro ele não existe, gente ganhando dinheiro com a boa fé do outro, gente ganhando dinheiro com o sonho do poeta, mas, principalmente, gente silenciando o nome do outro e essa é uma prática hipócrita entre alguns que justamente se intitulam poetas apenas por trabalharem com as palavras.

            Um inventário de cicatrizes é uma excelente contribuição para se compreender cada pessoa. Somos afinal o resultado do acúmulo de cicatrizes e cada cicatriz nos empurra para a frente, cada cicatriz, como atriz, nos envereda em nossos próprios destinos, nossos palcos, e nos amadurecem. Não somos acabados, nunca estamos perfeitos, somos frágeis, repletos de falhas, de incertezas, de dúvidas, isso talvez seja a fascinação humana,talvez nessa imperfeição resida o encanto humano.         

O básico é ser imperfeito, mas sempre agir eticamente. A imperfeição não dá o direito da ação antiética, da ausência da ética, a idéia, o ideal ético jamais deve ser abandonado. Um homem ético, embora imperfeito, é um homem de boa vontade. Como seria enfadonho um homem perfeito, completo, acabado, como seria morto!

Procuro me aproximar da consciência das nossas imperfeições, a consciência da necessidade de eterna reforma, de eterno aperfeiçoamento, de brindar a nossa fragilidade, como é agradável conviver com pessoas imperfeitas (como eu sou), que aprendem no dia a dia a lidar com isso, com essa fragilidade, com as próprias limitações, isso é  para mim, o ponto de conexão com o outro.

Talvez nisso resida a paixão pelo outro, pois somente quando somos movidos pela intensa paixão é que a vida se concretiza. Paixão, paixão, paixão! Paixão pelo outro, pela amizade, pela conversa, pelo vinho, pelo encontro com o outro, pela simplicidade, pelo projeto de vida, pelas coisas pequenas, conversar com um amigo, uma amiga, ouvir a voz da mulher, o seu timbre dizendo coisas, participar dessa sonoridade, verificar no amigo a mesma fragilidade, isso é viver!

            Ocultar as cicatrizes é como ocultar a própria fragilidade, mais que isso, ocultar a paixão pela vida.

            Estar apaixonado é  mistério, é condição básica para a felicidade. Paixão no sentido de paixão. Nada deve ser feito ocasionalmente, nem o ocaso é por acaso. Tudo deve ser feito pelo pressuposto da paixão, do sentir prazer, o prazer que acompanha a paixão. Mesmo o casualmente deve ser envolvido pelo manto espetacular da paixão.

            Ela, a paixão, o seu conceito, o seu estatuto, precisa ser reformulado. É preciso um novo estatuto para a paixão.

            Penso que se estou vivo no presente - e presente significa isso: dádiva, originalmente, a dádiva do senhor, - devo assumir o inicio do novo século como alguém que contribui para as reformulações dos estatutos, pois assim poderá estar nascendo uma nova configuração nos sentimentos e ideais humanos.

            Por causa das incertezas, dissabores e decepções com o amor romântico burguês, a paixão é compreendida erradamente, e de uma forma deturpada, deformada e estranha.

            Se você não viver com paixão, a sua vida será idêntica às folhas amarelecidas que o vento deposita nos cascalhos.

            É necessário e urgente um inventário de cicatrizes, para que seja equacionada a pessoa que se apresenta. Mas também é necessária  uma nova semântica, uma ampliação do termo paixão, uma reformulação, uma nova compreensão.

            Se você não estiver apaixonado você não será feliz! (essa declaração nada tem de audaciosa). Apaixonado pelas coisas que se apresentam; o céu é o mesmo há milhões de anos, e o tempo é uma invenção humana, mas esse céu teimoso, essa imensidão ilusória, que se apresenta azul ,esse imenso azulejo sobre nós, ainda merece paixão, como as coisas todas, o verde, os seres vivos, as pessoas, o que você faz, o que você constrói, um poema, um sorriso, um projeto de arquitetura, o seu amor, a sua mulher, o seu homem, tudo clama por paixão e  só o apaixonado sobrevive na devastação midiática total que vivemos...

            Enfim, a paixão necessita urgente ter uma um novo estatuto. A primeira coisa a ser substituída é a dependência. Todo o tratamento que a paixão recebeu do amor romântico burguês causou uma confusão enraizada. Estar  apaixonado, viver em paixão, isso nada tem a ver,  por exemplo, com dependência. Também é uma interpretação do amor romântico burguês a paixão como transitória.

            Além de fundar um novo estatuto para a paixão, é necessário também um inventário de cicatrizes, para que se compreenda como tudo começou, quais as feridas que validaram, que esboçaram, que edificaram a pessoa que hoje se apresenta, que hoje é.

(maio/2001)


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
marcianovasques@hotmail.com