Marciano Vasques


O ESPÍRITO DA RÃ

 

        Acordei pensando na Itália. Torço para que o que aconteceu lá , nas eleições, seja uma manifestação de protesto. Alguns povos do mundo, após a abertura para a esquerda, podem estar manifestando uma espécie de protesto. Espero que não seja uma tendência...

            Curioso um certo comportamento europeu. Alguns paises agem apropriadamente como países do chamado primeiro mundo (Essa divisão me pareceu sempre equivocada). Vamos lá, buscando uma comparação: no Brasil, as pessoas se fecham em condomínios e a pobreza continua lá fora...

            Falar em pessoas, lembrei do conto A Rã que Queria Ser Uma Rã Autêntica. Como eu gosto desse conto! Augusto Monterosso, um autor nascido na Guatemala, autodidata, intensa participação política, vida exilada, escreve essa pequena jóia da literatura contemporânea.

            Como eu já fui a rã! Na minha mocidade, no meu crescimento, como queria encontrar a minha autenticidade na opinião das pessoas, quanto mais buscava a minha autenticidade, mais dependia da opinião dos outros para encontrá-la!

            Como me importava com o que pensavam os outros!

            Sempre foi assim, depois fui compreendendo  pouco a pouco, o que significa ser independente.Não foi um processo fácil, aliás, foi dificil, e às vezes, doloroso, você se acostuma com a dependência.Você participa ativamente de uma forma passiva, do mercado de opiniões, da doxologia, da opinião da vizinhança.Tudo isso assume um peso muito grande, em determinado momento você está vivendo para os outros.

            Numa antiga noite de junho uma jovem se aproxima de mim. Eu, com a cabeça povoada de sonhos sem rumos, na frente de um colégio, estava então, pela primeira vez, diante daquela que escolheu caminhar ao meu lado.

            Não sei porque o nome Mário Quintana surgiu agora no meu pensamento.

            Depois, ao meu lado, passou a viver intensamente o seu amor, que se assemelhava, a cada dia, à adoração.

            Foram necessários alguns anos para que essa imensa mulher deixasse de viver em função do outro, ou seja, que deixasse de viver para mim, tudo fazendo sempre no objetivo de me agradar, e pudesse, magnífica, dar um salto espetacular em sua vida, reassumindo-a, assumindo a sua vida como algo mais valioso e importante do que a dependência de um amor. Só então ao se libertar daquele amor que a sufocava, ela surgiu grandiosa e se tornou pela primeira vez mulher, capaz então de amar um homem como seu companheiro, tornando-se alguém de vida própria, e assim fazendo revelar o ser humano raro que é, com seu esplendoroso potencial, e não mais uma mulher vivendo em função de outra pessoa, em nome do que se convencionou chamar de amor, e assim, objetivamente, com essa revelação, ver explodir o verdadeiro amor, aquele que não é sinônimo de dependência.

            Repentinamente me ponho a cismar de que talvez ainda viva em estado de dependência, e não seja afinal tão independente como venho supondo nos últimos tempos.

            Primeiramente me invade a lembrança de que recentemente, por causa da coisa triste em minha vida, pus-me na condição de rã, porém a rã do provérbio, a que está no fundo do poço e pensa que o céu é do tamanho da boca do poço.O espírito de rã novamente se acomoda em meu ser, embora eu contemple diariamente o céu em toda a sua imensidão, ao ser colocado numa circunstância tão grave permiti que o medo, a incerteza, o temor tomasse conta de mim de tal forma que me senti pela primeira vez exageradamente humano e assim, acuado pelos fantasmas criados em minha própria mente diante da incerteza e do medo, vi nitidamente o quanto a rã está fortemente sobrevivendo no fundo do poço da minha alma. Pus–me talvez na canção mais triste do Renato Russo.

            Depois observei envergonhado, que a pessoa que eu sou, admirado e respeitado por todos, estava com medo e paralisado diante da coisa triste e deixando escapar entre meus dedos as oportunidades impressionantes que se apresentavam diante de mim, quando as portas se abriram finalmente após tantos anos de luta no ideal literário, mas a nenhum editor interessa a sua dor, o que  não é absolutamente certo (tal afirmação), isso quer dizer, a dor não é justificativa...

            Pudesse dizer então que o espírito da rã estava em mim, não mais a rã que queria ser uma rã autêntica, não mais a Colibrã, a bailarina que eu criei na literatura infantil, a mistura de colibri com rã, mas a que está no fundo do poço pensando que o céu é do tamanho da sua visão distorcida, a visão permitida pela insegurança, pelo medo, pela incerteza, e com o coração perturbado abandonei os meus grandes aliados, entre os quais o filósofo Espinosa, e, insensato como somos diante da circunstância castradora, limitadora, pus-me a crer, obviamente, -obviedade que é filha do desespero-, que cada pessoa é uma aliada, que cada colega é um aliado e logo compreendi que não é bem assim.

            Os seus aliados são os mesmos, os de sempre, os seus amigos são os que estão com você sempre, mesmo que no pensamento. O amigo não precisa estar junto, em absoluto, e eu os tenho, as amizades são as mesmas, duram já vinte e cinco anos, trinta anos, não mudam, esse é o maior tesouro do ser humano, só numa situação de desespero como a da coisa triste, faz com que uma pessoa como eu cometa a tolice de buscar em colegas de trabalho, ou seja, em relacionamentos circunstanciais, aliados. Isso não significa que não possam surgir amizades verdadeiras e profundas no relacionamento usual, de serviço, de trabalho, como é até possível o surgimento de amizades verdadeiras na convivência literária. É claro que sim, mas geralmente não há tempo...

            A Via Láctea. Eu a ouvi em Brasília recentemente.

            Mário Quintana, poeta da chuva, da calçada, do cigarro solitário, do sereno, da manhã, Mario é como a Cora Coralina, representa o doce, ambos precisam estar vinculados ao processo educativo, Mario, excepcionalmente é o poeta da confissão.

            Quando me vi na condição de rã, a do poço, vi também, com a amargura de boldo, que no fundo, não sou assim tão independente e, ainda que disfarçadamente, apesar de ter encontrado a minha autenticidade, busco um resíduo do que já fui no passado, ou seja, busco encontrar, sinto essa necessidade estúpida, de encontrar nos outros, nas pessoas do meu relacionamento diário uma expressão, um sinal de reconhecimento, de afirmação dos meus valores, assim, sofro com o fato de que não importa para ninguém que eu seja aquele que gosta de Andersen, que gosta de Espinosa, que acredita com firmeza em alguns valores universais, que não abre mão da ternura e nem deixa escorregar escada abaixo a alegria de ser assim, de compreender o mundo com olhos de criança.

            O fato de que as pessoas estejam ligadas em valores diferentes do meu, ou seja, resumidamente, o carro, a visão errônea do utilitarismo, a aparência, a superficialidade, a competição, a valoração da esperteza, enfim, tudo isso, em detrimento da poesia, da ternura, da sensibilidade, da autenticidade, etc, isso freqüentemente me magoa, e me ponho assim como que em posição de gritar: Eu estou aqui, eu sou essas coisas, esses sentimentos...

            Verdadeiramente, não sou assim tão independente, e o que faço costumeiramente, é sobreviver os estilhaços, as frestas, os resíduos, do que fui no passado, quando buscava a minha autenticidade como a rã de Augusto Monterosso.

            Eu não altero nada no meu ambiente de trabalho, no meu relacionamento com pessoas que já estão marcadamente envolvidas com a vida edificada em valores que afugentam a contemplação poética, a ternura autêntica, e assim, são, não por culpa delas, incapazes, -não foram instrumentalizadas para isso-, de estremecer o seu próprio mundo  com a recepção amorosa, com a abertura do coração.

            Não me refiro a abertura casual que a mídia promove, mas sim, uma abertura autêntica, profunda, na qual penetre com altivez os raios solares da ternura, da felicidade, da sensibilidade, da serenidade, enfim, que penetre a força da poesia, para que ela, a poesia, um dia possa descer sobre a terra.

            E assim então os poetas se revelarão, sairão dos seus esconderijos, das suas academias literárias, dos seus grupos literários, etc, e passarão a conviver verdadeiramente com todos, numa fusão, melhor expressão, num encontro audacioso e feliz, quando não se escreverá mais poesia para o critico literário, não se escreverá mais poesia para a leitura do outro poeta, mas se escreverá para o leitor, que é o correspondente, o irmão, o amigo. Isso parece uma utopia poética, mas é apenas manifestação da vontade sincera e transparente de ver descer sobre a terra a poesia.

            Quando pensei que a poesia já descera sobre a terra, estava me expondo, me oferecendo para os vendavais, mais que isso, para as estacas, pois afinal a poesia nunca  descera à terra.

            E sobre os meus dramas pessoais, sobre o afunilamento das minhas circunstâncias, sobre a incerteza da minha alegria, o que significa, o império impositivo da tristeza, como limitador  da alma, que não ousa manifestar o seu próprio vôo enquanto ela, a tristeza, insistir na sua permanência; sobre a dor e a tristeza, talvez tivesse valido a pena ouvir a palavra da sensatez, o que figurativamente quer dizer, ouvir a fala do pastor, me refiro ao pastor de Orfeu.

            Talvez então com a afirmação amorosa do pastor, possa partir para uma ação edificante. A fala do pastor, que diz ao Orfeu: Só depende de ti

(maio/2001)


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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