Marciano Vasques


O DISCURSO DO PAI DA NOIVA

 

Dedico este texto para a  amorosa família de Anderson, pelo carinho imenso para com  a minha filha.E particularmente, para o seu Vanderlei, o pai do noivo, que não teve coragem de ir ao casamento, para não chorar.

       Em Brêmen, cidade da Alemanha, exposto na Praça do Mercado, está o Monumento aos “Músicos”, um burro, um cão, um gato e um galo.

            “Os músicos de Bremen” é a fábula que permite várias leituras e uma delas é a de que o confronto entre dois aspectos humanos são inconciliáveis, o trabalho exigido pelo vida externa e prática, e a arte exigida pela vida interior, no caso, aqui representada pela música, pelo canto.

            Orfeu e o seu canto: ”Quem canta seus males espanta!”.Os Músicos de Bremen: “Quem canta espanta os males”.

            Orfeu, os quatro músicos germânicos e a Cigarra,são histórias, clássicos, mitos, que ressaltam o papel da música no enobrecimento do espírito humano e freqüentemente opõem as duas realidades humanas, a arte (música)  e o trabalho (Como se o artista não fosse um trabalhador, como se arte não fosse também um trabalho!).

            Da música volto à Itália, sobre um pequeno comentário feito por mim em escrita recente.Poderia dizer que na Itália temos o Vaticano  e no Brasil, os evangélicos.

            Fico pensando em coisas.Vivo numa cidade desarticulada, sem solução visível, tudo parece e perece estraçalhado, ingovernável, tudo clama por um governo enérgico, portador de uma energia direcionada ao povo, a energia para o povo, mas, sei que tudo parece mais simples no papel, ou melhor, tudo parece mais simples  numa crônica,mas na vida real tudo é mais difícil, também tudo parece mais simples no palanque, na retórica, no discurso político, mas depois a coisa muda, e é claro que parto do principio de que nenhum governante quer realizar um governo impopular,melhor,originalmente, nenhum governante que governar contra o povo, ele se torna prisioneiro, refém dos próprios enlaces, das próprias circunstâncias políticas, infelizmente, política é a arte dos acordos.Quanto mais acordo, mais governabilidade, e é difícil, seja para um governo municipal, estadual ou federal (voltados evidentemente para o povo), lidar com esse emaranhado de interesses.Nenhum tem a energia suficiente e, na maioria das vezes, vontade (A vontade geralmente,  é barrada pelo monstro dos interesses partidários), para romper com isso e lançar o seu grito na Praça: -Eu estou aqui para governar para o povo! Isso, lamentavelmente, é inviável, pois contraria incontáveis interesses, inconciliáveis resultados  de apoios necessários (campanha é coisa dura).Um governo enérgico, com energia voltada exclusivamente para o povo seria varrido fatalmente pelas forças que se aglutinam ao seu redor.

            As forças e artimanhas são poderosas e para lidar com isso é preciso não ter nenhum apego , de nenhuma espécie, nem afeto, nem vida pessoal, nem amor, sequer pela mãe ou pelos filhos, pois você corre o risco de ser quebrado, estraçalhado moralmente, se me faço entender. Poderia, como ajuda, usar o exemplo do histórico debate do Lula, no final da década de oitenta, quando ele entrou no debate já estraçalhado moralmente, e fraquejou, não se deu bem, justamente por ser um homem com afeto, com ligações afetivas,  -( Lula já entrou quebrado moralmente, pois havia coisas fundamentais colocadas ali, coisas da sua vida, da vida do ser humano, e um ser humano verdadeiro não tem estrutura para enfrentar um negócio desse. Certamente ele tinha coisas mais profundas para dizer sobre o Brasil e só ele, naquele debate, naquela eleição, tinha a bagagem ética, tinha a história viva do pais, como a sua maior experiência, a historia vivida com cheiro de povo, ao lado de pessoas simples e pobres, mas é um ser humano, não tem estrutura nem habilidade para o jogo baixo, leviano e sujo da política feita por profissionais), - não um homem de ferro, mas um ser humano, e isso, o fato de ser humano dificulta a vitória política, pois  você pode ir a um debate estraçalhado moralmente pelos adversários, pelos opositores,que, distanciados da ética, profissionais da política que são, roubam-lhe a essência, a sua beleza, a seu encanto, e o encanto da política reside nisso, na sua ética, nas suas regras como jogo de xadrez, mas não nessa coisa imunda, nessa coisa enganadora,midiaticamente suja, uma falácia.Ora, política não pode ser uma falácia, um palavratório, um laboratório de sofismas, uma escola de retórica, política tinha que ser coisa limpa, transparente, de linguagem cristalina,não poderia jamais impor o dinheiro como a condição para se ganhar uma eleição e, melhor, não poderia recorrer a expediente como os utilizados      naquele debate.

            E o político não pode perder um debate ou uma eleição pelo fato de ser humano, a condição de humanidade não pode prejudicar um candidato, justamente por ele não estar preparado    para os golpes baixos e traiçoeiros dos que, incapazes     de uma linguagem clara, cristalina, transparente e verdadeira para o povo, usam tais expedientes.

            Entretanto, recorrendo novamente ao debate do Lula e Collor, o político, mesmo saindo de um debate inseguro ou perdedor, não deve jamais abandonar a sua condição de ser humano,( O Lula, especificamente, não pode, em hipótese alguma abandonar o seu discurso amoroso- Sim, Paulo Freire, o discurso do Lula, que é um discurso enérgico de denúncia contra os que usurpam o pais, é um discurso amoroso) não deve jamais se transformar nessa coisa “política”que está aí faz tanto tempo, aliás, parece que a direita está no poder há 5oo anos(certamente), isso mesmo, quinhentos no poder no Brasil.Por isso, recentemente, aquele alarde todo de comemoração, aquela coisa inventada pelos publicitários  e muita gente do povo entrou nisso, inclusive professores, embora , felizmente, muitos professores utilizaram a coisas, o evento, para fazer um bom trabalho com os alunos, tentando mostrar pelo menos parte do verdadeiro Brasil que a historia oficial tenta esconder nos últimos 500 anos.

            Sobre a questão da cidade desarticulada, desorientada, estraçalhada, disforme, poética em Caetano Veloso (Lembro de um discurso governista de Caetano que me deixou perplexo,indaguei pela primeira vez como é isso de dizer que gente é pra brilhar não para morrer de fome, e depois aparecer com um discurso esquisito, e depois em 1994, outro compositor baiano dizendo na Biblioteca Mario de Andrade: -Eu quero que a  civilização e a cultura se fodam! , e tudo isso foi instaurando pouco a pouco em mim a perplexidade e a necessidade de reformar conceitos, idolatrias, e, principalmente, compreender um pouco mais o universo artístico, no que ele tem de mais político e mais oportunista,e, mais recentemente a Gal na Bahia), mas é a cidade onde vivo, metálica, crua, fria,vejam, mais de 50 terminais de ônibus clandestinos na cidade e o terminal Bresser vai fechar  em Junho.Ninguém governa isso!?

            Vou agora ao meu lugar, aliás, o meu lugar preferido, melhor, a minha praia.

            O casamento da Daniela. Mais uma vez senti tanto orgulho da minha filha! Como senti orgulho ao vê-la!

            Como tenho que agradecer mais pela vida do que Violeta Parra, pela oportunidade rara de vê-la no sábado, no momento do casamento, linda, de vermelho,(Como estava linda de vermelho! O que terá pensado? Em alguma flor? Como saber? A única coisa que consigo saber é que ela não se anula, nunca se anulou, quando ela fala todos a ouvem, ela consegue isso, todos respeitam profundamente a sua vontade e as suas decisões, todos estavam angustiados com a sua demora para decidir sobre o local e a forma da confraternização, todos queriam, como eu, tomar a iniciativa- inclusive o noivo!- e alugar um salão ou um sitio ou fazer qualquer coisa enfim, mas não tem jeito, a decisão é sempre dela, é a minha filha, linda, de vermelho, diante dos meus olhos transbordados, revelando a todos a mulher do futuro!)

            Como me emocionou a minha filha se casando de vermelho, ter escolhido essa cor revela as sua personalidade linda e forte, que nos últimos vinte e quatro anos vi, pouco a pouco, se formar.Jamais abriu a boca para falar besteira, jamais participou de uma roda de piadas, enfim, e a sua aparição, atrasadíssima, todos suando, em silêncio  angustiante, com medo de que ela não chegasse em tempo e o casamento não pudesse ser realizado e então a sua aparição, a surpresa de todos, o seu vermelho lindo, a sua aparição emocionante...

Com ela aprendi que na delicadeza a força se revela mais forte, a verdadeira força escolhe a delicadeza para se revelar!.Como é possível que ela tenha se mantida tão delicada nos seus vinte e quatro anos ao meu lado, com tantas indelicadezas da vida brusca ?Quanto tenho ainda que aprender com ela! Quanto ela tem me ensinado com seu exemplo vivo e eu, por causa da correria e da vida que o nosso tempo nos oferece, não tive tempo de lhe agradecer.

Alegria de filha, felicidade de filha, sorriso de filha, choro de filha, como foi tão bom! E como fico em segurança ao perceber que ela ao ser escolhida, ou melhor, ao escolher o seu amor, acertou e certamente será feliz ao lado do moço com quem caminhará no dia a dia.

Como é delicada, gentil, doce, meiga, jeitosa, e com a sua delicadeza, sem jamais impor, vai, pouco a pouco impondo o que quer, porque (como a admiro!) ela só faz o quer , e com o seu sorriso suave em flor, impõe a sua força,como teria, representativa de todas as mulheres, uma contribuição , uma lição infinita para dar aos homens que, através da história, sempre impuseram a força pela força, seja individualmente ou coletivamente, no caso político, como Stalin, por exemplo, que impôs, assim como tantos outros, a sua força a ferro e fogo, sem a generosidade, sem o sorriso (o sorriso não é propriedade feminina!).

E quem nega algo para a Daniela?Nem o noivo, nem a família do noivo, nem eu, nem os colegas da faculdade, ninguém diz não e todos respeitam a sua vontade.Como a Daniela consegue isso?

Quando, no ano final do ano passado,ela me disse que estava esperando um filho, disse chorando, tremendo, com receio de falar, as sílabas quase encharcadas, como se houvesse nisso algum erro ou algum crime, e ao me contar, quando sorrindo eu lhe disse que ela estava pondo um peso muito grande nisso, na decisão de me contar, Isso não tinha nenhum peso e então, imediatamente o seu rosto ficou aliviado e o peso esfarelou-se, dissolveu-se, e ela se abriu em sorriso, ela floresceu em sorriso, aquele sorriso que é para mim a maior recompensa, o maior presente que a vida me deu e então nos abraçamos em gargalhadas felizes pela netinha que virá.E ali, no nosso abraço um pai comovido em perplexidade por estar abraçando a mulher , que um dia abraçou, quando ainda menininha vinha correndo em minha direção.Ainda bem que agora os meus olhos rasos de água não aparecem na tela.

E depois, a decisão de casar em maio e mantida,   mesmo após ter o apartamento já lindo e montado pelos amigos (Daniela ganhou tudo, como ela é querida!)  e poderia  morar nele, mas ,        uma decisão dela ninguém se atreve a contrariar e quando ela comunica  com a sua suavidade habitual ninguém nem pensa em contestar e afinal a decisão é sempre dela.

E eu, que agora percebo que estou envelhecendo, pois dizem que os velhos choram a toa, e eu, é claro, tinha que chorar no casamento  mas não pensei  que choraria tanto e que acordaria hoje com olhos úmidos.

Mas isso acabou atrapalhando, pois a Daniela acabou chorando muito e ela que vive em pleno estado de emoção e se eu choro ela chora e sempre foi assim e eu me esqueci disso  e indevidamente  chorei no cartório, chorei diante do juiz , e diante de todos,.

Gardel estava  certo ao dizer que a vida é um sopro e que vinte anos não é nada,tudo veio em minha mente, como um filme,e, desde o dia 8 de março de 1977, quando, no Hospital Santa Marcelina, eu a vi, pela primeira vez naquele berçário,e naquele momento a minha vida cresceu intensamente e dali em diante eu seria o homem que aprenderia a chorar de felicidade.Vinte e quatro anos de aprendizado.

Depois, acompanhando o seu crescimento através dos dias, a formação da sua delicadeza, o seu sorriso em flor se firmando absoluto, a sua personalidade decisiva, e então outro dia especial depois do seu nascimento e eu chorando feito um bobão.

Penso que o pai nunca está preparado para o casamento da filha. Eu, pelo menos descobri isso.Daniela não vai viver  ao meu lado todos os dias, não vai mais viver na minha casa, hoje, domingo, quando escrevo, ela já não mora comigo,Mora agora com outro homem, o homem  que lhe dará uma outra espécie de amor, diferente do meu amor de pai.

Ela foi embora para a sua casa, essa é a realidade.Quando chegou no cartório , já no ultimo momento, o juiz impaciente, querendo ir embora, fechar o cartório,  e eu sei que a noiva sempre se atrasa, mas como a Daniela é especialista nisso, exagerou e chegou nos últimos cinco minutos (e o juiz teve que trabalhar além do seu horário)mas trouxe com ela tanta emoção que parece que ela faz de propósito, ela sabe disso, que ela é emoção, talvez por isso sempre atrase.(lembrei dela me dizendo recentemente que queria ir comigo ao Rio, na Bienal, mas o médico a proibiu de estar num avião...)

Eu não estava preparado para a separação, eu estava feliz pela sua felicidade, sei que, matematicamente, saio ganhando, pois não perdi uma filha, ao contrário, ganhei um filho e uma netinha, que chegará breve, ou .seja, agora tenho três.

Mas é uma felicidade estranha, que se estende sobre este domingo, que é  o primeiro sem a sua presença em minha casa, algo para o qual nunca me preparei.

O moço que chegou sorrateiramente, e conquistou o coração da Daniela sabe o que eu sempre disse:quem gosta da minha filha, quem ama a minha filha,é, para mim, a melhor pessoa do mundo.

Estou feliz, sei que o choro de ontem, dia 26 de maio, foi choro de felicidade, uma estranha felicidade.

            Registro aqui meus agradecimentos por ter estado ao meu lado durante vinte e quatro anos, ter sido a criança que me encantou, ter através da sua existência, implantado em mim o amor por todas a s crianças do mundo,pois esse amor se tornou universal, e cada criança na rua, em todos os lugares onde andei, recebeu a minha atenção, o meu olhar,, que aprendeu a, sempre, em qualquer circunstância, se voltar para a criança.

            Depois, adolescente, seu Guns N’Roses, sua música, seus diários, sua vida, sua historia...

            E então, transformada em mulher, e isso um pai sempre demora a perceber, pois a filha é sempre a mesma menina que cresceu.

Agradecimentos por ter me mostrado essa força generosa de ser, esse sorriso largo em flor, que sei de quem ela herdou, essa delicadeza que nunca foi abatida.

Como é maravilhoso ter convivido com alguém que me ensinou, com delicadeza,  que é melhor viver com os olhos rasos de água.

(junho/2001)


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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