Marciano Vasques


ASSASSINOS DO TEMPO

 

        Sobre um pequeno comentário meu, a respeito da eleição na Itália, uma leitora faz uma observação interessante e produtiva e com ela complementa o meu pensamento, realizando assim a interatividade tão essencial dentro da minha proposta literária. Diz ela que além dos evangélicos temos no Brasil um certo catolicismo. Fala do culto à Nossa Senhora Aparecida e também da Renovação Carismática. Agradeço pela participação da leitora.

            O tempo que as pessoas gastam com essa ilusão despertou a curiosidade investigativa de Freud. Para mim foi fundamental o devaneio na teodicéia. A primeira vez que me senti profundamente escritor e poeta. (Filósofo nunca. No país talvez algumas pessoas pudessem ser chamadas de filósofos, mas elas não aceitariam o título. Na verdade não há, contemporaneamente, um sistema de pensamento edificado, o que caracterizaria o filósofo, porém dentro de uma perspectiva acadêmica e nesse aspecto Marilena Chauí, o Pessanha - que já nos deixou - não seriam filósofos, mas estudiosos da filosofia - grandes estudiosos, diga-se. Mas como também há vida além do círculo acadêmico - tentei buscar a imagem da espiral, que pertence à história, mas círculo parece-me  mais adequada - e o conceito de filósofo pode sofrer alguma alteração e em certo sentido isso poderia significar aperfeiçoamento, é possível que se encontre filósofos no país).

            Mas o que importa aqui é o fato de eu começar a sentir definitivamente que sou um escritor ou um poeta quando a curiosidade pelo que é profundo começou a substituir o canto da sereia e deixei de lado também os versos que não falavam das profundezas, da angústia e da felicidade do ser humano. Claro que passei pelo processo de me sentir poeta quando escrevia alguns poemas falando de casos de amor, falando da mulher como a musa inspiradora, etc. Foi preciso muita coisa para a compreensão de que a dor, a miséria e o sofrimento humano ao lado do percurso universal e das forças comoventes da natureza representariam a inspiração poética que nortearia a minha vida.

            O preparo para a decolagem sempre é angustiante.

            A piada certamente tem uma função social. Especialistas poderiam averiguar e expor isso (sociólogos, antropólogos, psicólogos, psicanalistas, etc).Talvez uma cartase, uma ruptura, uma fresta, uma ventilação, um rebento, enfim, uma ação assim contra o mecanismo do cotidiano, uma fenda, uma válvula, uma forma lacaniana de existir, enfim, talvez a piada nos revele muito de nós mesmos. Afinal a piada nunca é neutra.

            Talvez alguém diga que a vida é uma comédia, que a dor afinal seja um arlequim, que a seriedade é uma piada (que o próprio país é uma piada), que o riso, a gargalhada seja necessária (e quem discorda disso? - mas poderíamos falar de outras fontes de gargalhadas.) e que não se pode ser tão radical. Realmente, faltam radicais no mundo.

            Comédia é arte, a comédia seria o avesso do drama, da tragédia.Você não precisa falar das coisas da vida apenas através da tragédia. A piada contada entre amigos é outra coisa. Pode ser engraçada (e sempre é), mas geralmente (esse geralmente é um atenuante) toda piada é preconceituosa. Se alguém mestrando ou doutorando fizer um inventário, um estudo específico sobre o painel das piadas brasileiras, com certeza as classificaria em diversas, digamos, modalidades, a saber: racistas, machistas, etc.

            Toda piada contra gay é preconceituosa, toda piada contra negro é racista. A coisa de alimentar o racismo é uma vergonha humana. Piada contra mulher é machista ou preconceituosa. Gabriel Pensador está para o povo como Chico Buarque estava para o Chacrinha. A loira burra virou uma entidade nacional e Chacrinha nunca compreendeu a Geni e o Zepelin.

            A artimanhas dos neurônios dos que elaboram piadas é algo fantástico, mas nesse mundo não me iludo, há pessoas para tudo. É melhor que seja assim. Seria sem graça o mundo, diriam alguns, se todos pensassem. Quem ligaria a televisão? (Um reparo – a televisão não é de toda vilã, mas a sua boa programação exige um controle remoto com cérebro, dizendo melhor, quem pensa encontra uma programação cultural na televisão, mas é necessário pensar, e como a televisão é encarada pelo coletivo inconsciente como pura diversão, o problema está lançado).

Para se elaborar uma piada é necessário o pensamento. Sim, da mesma forma que para se construir bomba atômica é necessária a inteligência. Mas a razão não está? Foi tomar uma cerveja? É possível, em nossa época...

            Toda piada é preconceituosa. Quem quiser provar que não, que conte a primeira. Quem se acostumou a contar piadas, mesmo que profissionalmente, corre o risco infame de perguntar para uma prefeita qual a cor da calcinha dela.

            Mas não sei como matar o tempo! - disse alguém. A piada existe para matar o tempo.

            Quem falou que o tempo quer ser morto? Quem falou que o tempo quer ser assassinado?

Por que matar o tempo? Por que não torná-lo vivo? Por que não dar vida ao tempo? Por que não nutrir o tempo? Por quê?

O tempo nasceu para ser vivificado, alimentado, nutrido. A relação com o tempo tem que ser nutricional.

O tempo é um drinque, um brinde, um presente, uma dádiva. O tempo é a nossa maior preciosidade, é a nossa escassez! É a nossa realidade! A nossa raridade! É o grande senhor! Nele viajam lado a lado o declínio da vaidade e o futuro que engatinha.

Uma menina encontrou num extenso campo de margaridas amarelas uma pedra azul, uma safira talvez e brincou com os olhos encantados de bolinhas de gude, sob os olhar amoroso de  Deus a se derramar no branco das nuvens e no amarelo das flores.

Uma mulher encontrou numa joalheria, numa caixa de acrílico, ao lado de um vaso de margaridas artificiais, uma pedra preciosa azul, uma safira talvez, e enquanto procurava o talonário de cheques, pensava na pedra -convertida em jóia- em seu corpo e no desfile diante das mulheres do seu mundo social.

O tempo é um drinque. Quem não sabe o que fazer com o tempo ocioso, com o tempo livre, não o  merece. Quem mata o tempo não o merece. Não sejamos assassinos do tempo.

Um espantalho oferece o seu coração de palha para o pouso de pássaros anônimos, enquanto nos trigais o sol doura os cabelos do menino que brinca de correr com o tempo.

Se alguém insistir em matar o tempo, há, além das piadas, outras alternativas, como a programação da tevê.

Eis algumas formas de se matar o tempo no domingão legal: são os programas vespertinos e até noturnos, tipo Gugu Liberato, Faustão, e outros, nos quais você pode matar o tempo, inclusive malandramente, verificando sem nenhum esforço mental a vulgarização do corpo da mulher - com a contribuição, é claro (mas não lógico) da própria mulher.

É mais fácil matar o tempo. Aliás, matar é sempre mais fácil. Veja um pássaro voando. Basta mirar e atirar. Se você mira e acerta, pronto, você matou! E você pode se sentir um vencedor (Desculpe, Roberto, estou emprestando isso de AS BALEIAS). Mas afinal, vencedor do que? O pássaro em nada compete com o homem, bem..., matar uma idéia é mais fácil ainda. Uma idéia pode ser morta ainda no nascedouro. Quantas idéias eu tive que caminharam como se estivessem num matadouro (vi um, certa vez em São Roque, muito antes do tempo de se retalhar o boi ainda vivo, como se faz atualmente em grandes frigoríficos – mas isso por enquanto é assunto para a consciência européia) .      

Matar é mais fácil. Não há grande vantagem nisso. Matamos diariamente grandes idéias por causa das circunstâncias limitadoras da nossa existência individual, matamos formigas, insetos, alguns lindos, como borboletas. Matamos para comer, matamos por outras necessidades, como a tristeza de se matar os búfalos em Roraima, e matamos por diversão e matamos até para matar o tempo, pois se você não sabe como matar o tempo sempre há a possibilidade de se treinar tiro ao alvo, basta mirar nos que causam inveja aos homens, os que têm asas.

O mais difícil é dar vida.

A piada iguala a todos. Alguns humoristas da tevê, que enriqueceram, bem, deixa isso pra lá. Deixa também os cartunistas que, tomando uísque, elaboravam cartuns contra os militares durante os dias mais difíceis da ditadura, e continuam firmes, na ativa, alguns produzindo vinhetas para a Rede Globo, o que, em hipótese alguma desmerece, diminui ou desvaloriza o talento e a criatividade dessa brava moçada.

A piada iguala mesmo. E cada um tem a sua parcela de responsabilidade. O intelectual (um sujeito importante, sim) tem a responsabilidade do discernimento. O discernimento é a coisa mais importante no intelectual. Se ele se igualar através das piadas, motivado por um descanso, uma cerveja (até a razão gosta de uma cerveja!) um lazer, ele está contribuindo fortemente para o nivelamento, e nivelar não é preciso. Além de que, com certeza, o reino da cerveja é poético. O resto é desvio causado pela má formação da mente. Qual a diferença entre a cerveja e o vinho? Nenhuma. Ambos são poéticos.

Nivelar não é preciso, ainda mais nivelar por baixo.

Mas o sujeito conta piada da mesma forma como lê história em quadrinhos. Argumento inválido .Da mesma forma como faz palavras cruzadas? Inválido também.

Mas é impossível viver sem se contar piadas e, há piadas inteligentes. Respondo: a inteligência é neutra e nenhuma piada é burra, o mecanismo de construção de uma piada exige a inteligência. A inteligência é tão neutra que é utilizada para emburrecer, embrutecer.

O mundo não é uma piada, a vida não é uma piada. Compreender isso, essas coisas, é o primeiro passo para o riso sadio.

Rir da piada é uma forma de propagá-la. Mas, e o cartum? E a charge? Bem, aí é outro universo. Estou a me referir à piada de bar, de rodinhas de amigos, as piadas caseiras.

O cartum, às vezes, é a coisa mais séria dentro da política, principalmente de um país tropical, e a política parece que sempre merece uma piada. Sim, mas aí a coisa é arte, é trabalho artístico, é produção artística, é um trabalho de conscientização, é uma função pedagógica. A pedagogia do cartum é fundamental para se compreender o país, o cartum costuma revelar muito da alma dos que mandam.

As piadas populares, preconceituosas, racistas, machistas têm a função de igualar, nivelar e nesse nivelamento, revelar muito de cada um de seus adeptos.

Mas, vivemos no país do apagão! Se a gente não contar piada, ninguém segura esse rojão (Agora peguei emprestado de você, Chico), não é bem assim. Os livros continuam esperando, e a poesia também, e a gargalhada da felicidade também.

Mas, seja cartum, charge, piadas políticas (já contei duas em minha vida, as duas clássicas, uma sobre o ex-presidente Figueiredo e a outra do Paulo Maluf), enfim, seja qual for a piada, seja até a política, o núcleo, o eixo é sempre exatamente o mesmo: ridicularizar.

A ridicularização é a mãe da piada. Você sempre conta uma piada para ridicularizar alguém. A charge também faz isso! Pelas orelhas do Lula, o que estou falando tem sentido.

E o intelectual, um sujeito que precisa resgatar a sua imensa importância, reverter o processo de deteriorização que o acompanha, o mesmo que acompanha o professor, o poeta, o artista (falando em populismo, um tapinha não dói. Não é mesmo, Caetano? Aliás, é a mesma coisa o Presidente Fernando Henrique rezando terço ou cultuando uma santa).

O intelectual (só ele) poderá reverter isso e então se tornar o que originalmente é: farol, luz que clareia o caminho, que abre a passagem, que ilumina a floresta escura, que instala a clareira.

O intelectual ensina a moer o trigo, a preparar a farinha, e sua oficina é o povo, melhor, é o anseio do povo, isso é para o intelectual autêntico a sua matéria prima, a sua oficina, o seu labor. O anseio do povo é a sua possibilidade de felicidade. O intelectual feliz, da cerveja poética, é um servidor do povo, ou melhor, da gente.

Se o anseio do povo é por afetividade, o intelectual deve levar ao seu pensamento o amor esclarecido, o afeto necessário, se o anseio do povo for por liberdade, ele deve ser fortalecido pelo intelectual, que deve injetar no povo as condições mentais para a compreensão das camadas necessárias para a solidificação (construção) dessa liberdade. Deve o intelectual promover a abertura para o tecer. O povo deve aprender tecendo e aprendendo pela instrução do intelectual. Isso nada tem a ver originalmente  com política partidária, etc, mas com o exercício pleno da cidadania intelectual.

É no universo do intelectual que nasce a semente da mudança. As sociedades todas dependem e necessitam do intelectual e ele não pode se esquecer disso.

Encerro com a bela iniciativa de um grupo de intelectuais. Para denunciar as condições de miséria e sofrimento do povo, um grupo de professores e alunos da Universidade de Oxford, onde estudava Oscar Wilde, resolveu usar de todos os meios intelectuais, como escrever contos e contar histórias.

(junho/2001)


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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