Marciano Vasques


EM  BUSCA DO CORAÇÃO DA MÍDIA

 

            Minha colega psicóloga diz que não devemos ser radicais, que não podemos seguir tudo ao pé da letra. Eu, que já passei muitas noites em branco, fico pensando na expressão da colega e, bem, agora surgiu outra: passar a noite em branco. É incrível como nós usamos expressões no dia a dia sem saber o significado. Qual será a origem da expressão passar a noite em branco?

            Tenho a impressão de que a preparação para a decolagem hoje será demorada e angustiante. Bem, usamos mesmo expressões sem conhecimento do significado. Passar a noite em branco, a origem está na idade média. Os guardas usavam armaduras brancas para passarem a noite vigiando, acordados. Todos que passavam a noite sem dormir, trabalhando, tinham que usar a armadura branca, eis a origem da expressão.

            Um dicionário de origem das expressões deve ser de uma leitura agradável e valiosa.

            A nossa conversa prossegue e observo que a colega tem razão. É bobagem ser radical em tudo, sempre e sempre, mas é necessário que o radicalismo continue existindo e norteando a nossa vida, complemento eu. Mesmo que você aparentemente não esteja sendo radical, mas não pode permitir jamais que o radicalismo o abandone, e radicalismo não pode ser confundido com intransigência, isso é outra coisa. A intransigência perturba, atrapalha. Radicalismo é outra coisa. Ser radical é participar da construção da felicidade. Ser intransigente é impedir a lucidez do diálogo.

            A delícia de ser radical está em encontrar pessoas radicais. Pessoas que partilham do mesmo radicalismo. Só o radicalismo pode significar raízes, o que significa, partir em busca da origem subterrânea dos nutrientes.

            O pronunciamento da colega está vinculado ao meu texto recente em que falo de Freud e do culto a Nossa Senhora. Ela diz que cada pessoa é uma pessoa e isso tem que ser respeitado. Ela, por exemplo, vive com o marido que é ateu, mas não consegue, e tem fé, diz até que sente atração por certos aspectos do espiritismo, mesmo sendo psicóloga e, mais, sendo freudiana. A conversa prossegue. Sempre aprendo muito em cada conversa, aliás, é de cada conversa, de cada contato com as pessoas que extraio a minha literatura.

            A música me traz muita alegria. Tem uma cena do filme Lili Marlene que me inspira felicidade, uma cena dos alemães dançando. Acho que assisti essa cena umas cinqüenta vezes.

            Como já é noite o preparo para a decolagem acaba sendo mesmo doloroso. Mas, vamos lá...

            As produções midiáticas do nosso mar de escribas revelam que ninguém está distante nem consegue escapar da mídia, ou seja, do meio produtor de informações, ou ainda, do meio produtor de comunicações. Nós nos comunicamos como a mídia quer. O sujeito longe da mídia está ilhado, isolado, sem condições sequer de compreender os mecanismos que regem a sobrevivência intelectual das pessoas hoje.

            A mídia é parte integrante da vida, que assustador mundo teríamos sem a mídia. A mídia é a nossa segurança. Sem ela, se pudéssemos viver num lugar sem a mídia, nos sentiríamos abandonados, desamparados e solitários. Uma banca de jornal na esquina nos coloca em contado com o mundo. Somos felizes porque vivemos num mundo com mídia. Nesse momento que escrevo milhares de pessoas estão assistindo ao programa do Gugu Liberato. Que seria dessas pessoas se não pudessem compartilhar desse sonho coletivo? Que seria dessas pessoas se não pudessem assistir ao Gugu nesta noite, neste momento? Como seria insuportável a vida! Como seria a vida sem o Gugu Liberato? Como seria a vida sem a Hebe? Insuportável! Como esse povo teria condições para continuar a árdua luta do dia a dia? Como esse povo estaria amanhã cedo na fila do ônibus, olhando os jornais na banca, enquanto esperam? Creio que temos que agradecer diariamente pela existência dessas pessoas que tanto auxiliam as pessoas a viverem nas noites de domingo e nas noites da semana.

            A  mídia é parte integrante da vida, não pode ser vendida separadamente.

            Uma entidade, uma ONG, fez uma pesquisa comparativa entre crianças da década de 60 e de 1997. O resultado foi surpreendente e revelador. O que ele nos mostra é sintomático.

            Ao serem perguntadas sobre como aprendiam, qual a referência principal na aprendizagem, qual a maior influência na obtenção de informações, na década de 60 apareceram, pela ordem, os pais, os amigos, as revistas e o cinema. Em 1997, em primeiro lugar a televisão, depois os jornais, depois as revistas, os pais não aparecem e a escola aparece em algum lugar.

            Para se fazer uma leitura pedagogizada do mundo atual, é preciso considerar esta realidade, a mídia penetrou na vida de todos de tal maneira que não se consegue mais viver sem ela. A antiga experiência de Erich Fromm de deixar alguns alunos universitários sem televisão, sem cinema, afastados dos meios de entretenimento, durante uma ou duas semanas, poderia ser feita atualmente. Com certeza as pessoas enlouqueceriam se ficassem sem jornal e televisão, principalmente sem a televisão. Imagine um mundo assim, sem rádio, sem televisão, sem jornal. Consegue?

            Jornal então é o cúmplice do cotidiano, a alma do dia. O jornalista é o historiador do cotidiano.

            O lugar do desenho roxo: a escola, local, espaço de comunicação que não flui, não circula, comunicação truncada. A escola pode mudar pelo jornal. O jornal deve penetrar na escola, circular na escola, invadir os seus corredores, entrar na sala de aula, pausar na sala do coordenador pedagógico, ser ativo na sala dos professores. A leitura do jornal é um ato político.

            O jornal é o desejo feliz de descortinar o mundo. Com o jornal o sujeito participa da história do seu tempo. O jornal impresso, de papel, dentro da escola, oferecendo a oportunidade de expor sobre o cinza uma camada de cores.

            Ler é um ato político, um ato político em si, ler jornal é o mais político dos atos. Desde que a leitura seja organizada pedagogicamente, isso significa, não uma leitura em fragmentos, despedaçada, desfragmentada, como a leitura feita hoje pela maioria através da mídia ou da Internet, por exemplo, mas uma leitura didática, pedagógica. Não basta ler, mas tem que ler a leitura como um ato político.

            A mídia tem muito a oferecer, principalmente aos professores- os que professam!- principalmente à educação. A mídia pode ajudar, principalmente os que foram afastados da leitura. É uma forma dela obter o perdão!

            E o professor deve ter a clareza e a tranqüilidade de ensinar, o que deve significar, fazer a cabeça, educar, mostrar os caminhos, ser objetivo e valente na árdua tarefa, e ter a compreensão lúcida de que se ele não fizer isso, se ele tiver medo de educar, se ele não educar, a Xuxa educa, o Sergio Mallandro, o É o Tchan. Há muitos educadores na mídia. O professor precisa estar atento, ter atenção, estar ligado, e estar ligado é estar atento, como o padre que dá o sermão lá na frente, mas está ligado, está atento, como o padre da história da menina russa.

            O padre quando dá o sermão está lá na frente, é como o político no palanque, está lá na frente, o professor está lá na frente. Isso é algo que ele não pode desprezar. Temos a consciência de que as pessoas não aceitam comunidade redonda. Ninguém quer comunidade redonda. Veja quantos mestres temos, entre eles Paulo Freire, mas comunidade redonda o povo não quer, aliás, o povo gosta de doutor, sujeito instruído, com diplomas, universidades, enfim, doutor. Não precisa ser doutor, basta ser padre, basta ser professor. Mas o professor ainda não compreende isso direito, pois não consegue ainda assimilar a sua defasagem, o seu destronamento (isso é uma ilusão), a mudança de rumo da sua utilidade, o professor ainda se põe como concorrente da mídia, por exemplo. O professor tem muito medo de ser substituído. Bobagem, ele é insubstituível, apenas precisa compreender que não tem concorrentes, não é mais, por exemplo, o depositário de informações. Informações se consegue hoje com a Internet, por exemplo. O professor é outra coisa. A sua utilidade reside no exercício da sua capacidade de trabalhar as informações, colocá-las num universo pedagógico.

            O padre está atento e o professor precisa estar atento. É preciso transformar a mídia em companheira, veja o que o Geraldo Vandré fazia com a poeira na sua canção. Uma forma de transformar a mídia em companheira é tornar o jornal mais próximo, o jovem adquirindo o hábito de ler e esse hábito deve começar com o jornal, e o jornal conduz fatalmente ao livro.

            A família italiana assina o jornal. A assinatura é um hábito familiar. Esse ato faz parte da composição familiar. O jornal é o outro membro da família. Brasileiros acostumaram a ler o jornal exposto na banca. Mas isso pode mudar!

            De um modo geral as pessoas estão saturadas, estão cansadas, todos parecem querer coisas novas, todos buscam a novidade. Novos caminhos, principalmente a novidade, quem sabe, a poesia descendo sobre a terra.

            Mas a poesia descerá sobre a terra!
            As pessoas querem a novidade, e talvez a mídia possa ajudá-las!

            A mídia precisa puxar as suas próprias orelhas. Precisa se desvincular do comportamento comercial e ampliar o seu raio de ação, o que quer dizer, o seu olhar precisa mudar. Talvez a mídia precise lavar os seus olhos no riacho da poesia. Quando acontece um evento cultural, como a recente Bienal do Livro, no Rio, a mídia, simbolizada por grandes jornais, demonstra a sua falta de visão e coloca em suas páginas apenas autores famosos, de grande porte midiático, como se não houvesse no país outros autores, como se não houvesse a saudável renovação diária de talentos e valores. Mas ao nacionalmente famoso tem o espaço garantido na mídia.

            Isso é uma estreiteza visual sem tamanho e precisa a realidade ser decodificada pela mídia. É compreensível que o autor famoso, portanto, o autor da mídia, atraia o público para o evento e garanta o sucesso do empreendimento, mas, e os outros, que também precisam de espaço?

            É uma mídia viciada e isto é o seu problema.

            Enquanto escrevo, folheio um livro de Audrey Wood, com as ilustrações de Don Wood, um casal que vive numa casa sonolenta e realiza um trabalho desconcertante, que encanta os pequenos, como a Bruxa Salomé, que apesar de ter um texto pedagógico, encanta mesmo pela ilustração. Ao olhar as figuras do livro, cada página, cada ilustração, parece, ou melhor, é um quadro, uma obra de arte. Depois, vejo o outro livro sobre a minha escrivaninha e releio o conto A Cotovia e a Rosa, de Oscar Wilde. Que coisa linda!

            Volto ao meu texto e pareço ainda estar na decolagem.

            Mas o que estou querendo afirmar é que o jornal poderá salvar a mídia, o que quer dizer, salvar os nossos jovens. O Mar de escribas deve se agitar e partir em busca do coração da mídia, como se fôssemos cada um, um Eros moderno, contemporâneo, com nossas flechas de raio laser perfurando o coração da mídia, incubando, nos jovens que entram num curso de comunicação a curiosidade e a vontade de flechar, com a decisão ardorosa da juventude. A mídia tem coração e é preciso percorrer os seus centros nervosos para encontrá-lo.

            Ouço música, as pessoas estão felizes, a alegria está lá fora.

            Como eu queria estar no meio da alegria! Como queria abraçar as pessoas, ouvir música... Como queria sentir, pelo menos uma hora, os mesmos sentimentos que sentia no passado, como eu queria viver a vida da forma como a compreendo!

            Como eu queria poder me aproximar das pessoas! Como queria poder mostrar em minhas mãos que a felicidade voltou e que não tardará para a poesia descer sobre a terra.

            Preciso interromper esse texto porque a noite já desceu e eu sou o poeta da manhã. Saudades de Tarancón!

(junho/2001)


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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