Marciano Vasques


A SOLIDÃO ESCOLHIDA

 

O jovem fotógrafo do sindicato sai da Vila Mariana e vai até Guaianases para tirar fotos da escola. Vai de táxi. Não tem importância, afinal ele é sindicalista e está trabalhando e como bem me diz: não dá para pegar ônibus hoje em São Paulo e o metrô também demora. Além do mais, pagamos mensalmente o sindicato para essas coisas.

“Todos que trabalham no sindicato têm celular” - diz a moça.

Não tem importância, afinal sem celulares a comunicação entre eles seria muito demorada e eu pago mensalmente o sindicato para essas coisas.

O meu pensamento distraído com o jovem fotógrafo e a moça do celular, acostumado a se voltar para as coisas menos materialistas, me leva até o reverendo Billy.

Ele está certo, ele tem razão. Pena que escolheu o caminho de fundar uma religião. Por outro lado, se virar mania será interessante: todos fundarem uma religião para combater males contemporâneos, como esses.

O reverendo Billy me faz pensar em Gabriel Garcia Marques, que acredita que a fantasia seja a coisa mais detestável que pode existir. A fantasia é a invenção pura e simples, sem fundamento na realidade, diferente da imaginação, que é benéfica para a criança.

Segundo Gabriel, as crianças não gostam da fantasia.

São levadas a gostar, acrescento eu. A imaginação é o tesouro da infância.

Nesse aspecto, Disney nos roubou parte da infância. Dá-lhe, reverendo!

Gostaria de escrever sobre isso, sobre a diferença entre a fantasia e a imaginação, mas não é assunto para a preparação para a decolagem.

Querendo pensar em algo benéfico deparei-me com a solidão escolhida. Como lhe devo agradecimentos!

Se pudesse repartir ao meio uma lousa e colocar em um lado os benefícios que o coletivo me trouxe, e no outro, os benefícios da solidão, sei antecipadamente qual venceria.

O ser humano não pode prescindir da solidão. Se ele perde a oportunidade da solidão, certamente perderá um tesouro de apreciável valor. Infeliz aquele que viveu apenas no coletivo. Não teve com certeza tempo para se aperfeiçoar interiormente.

Talvez essa seja a minha revolução, a revolução do individuo. Talvez aí esteja a revolução primordial. A revolução do EU, a revolução do interior.

Se você não muda o individual, dificilmente conseguirá resultados práticos e duradouros no coletivo. Talvez isso eu tenha tentado dizer para uma amiga do pc do b recentemente.  E talvez eu tenha tentado dizer que o coletivo não promove mudanças significativas no eu interior. E o bem coletivo é uma quimera, ou melhor me expressando, uma ilusão, é algo assim como a idéia de humanidade, um conceito mais ou menos abstrato. A humanidade não existe. Parece confuso, mas não é. O que existe são seres humanos. A humanidade é apenas um conceito que usamos, uma idéia filosófica.

Exemplificando, o sujeito que furou os dois olhos do cavalo recentemente aqui na periferia de São Paulo, é um ser humano.

A mulher que ama os gatos e que, como eu, se comove e sofre pelos cães abandonados, é um ser humano.

A humanidade como idéia de abstração, etc, o mesmo pode ser dito do bem coletivo. O bem coletivo é uma abstração. Ele só promove mudanças na coletividade,e a coletividade não promoverá o bem no individuo, e o individuo é a base de tudo, de todas as mudanças.

A política não investe no individuo, para ela é algo arriscado demais, é algo muito perigoso. A política só investe no coletivo e essa idéia impera. Mas coletivo e individual são coisas diferentes.

O coletivo é mais fácil de ser massificado.

O discurso do político é sempre para o coletivo, ele nunca atinge o individuo,seria temeroso.

Se você conseguir desbloquear o coletivo e atingir o individual...

Alguém pode dizer que o individual não é mesmo campo da política, mas sim de algumas ciências, é campo da psicologia, por exemplo. É campo de algumas religiões também.

O coletivo não favorece o crescimento interior. Sei o quanto é arriscado esse tipo de afirmação. Sei também que certas afirmações são facilmente por quem não está acostumado a pensar, consideradas reacionárias.

Mas ele, o coletivo, exige apenas um pouco de reflexão.

O coletivo tem a sua importância, principalmente para o crescimento da criança. É no coletivo que se aprende as regras do jogo, é no coletivo o aprendizado das brincadeiras e também os sentimentos como a inveja e o ciúme. Foi no coletivo que eu entrei na ciranda, que eu aprendi as cantigas. Mas, as cantigas e as cirandas, foi na solidão que eu as transformei na poesia que hoje eu sou.

Também na vida de adulto, nas reivindicações políticas, o coletivo sobrevive e encontra a sua motivação.

Política é a arte de pensar coletivamente o bem comum, ou seja, o interesse comum. E o interesse comum é algo complexo, algo enigmático dentro da minha visão, porque afinal interesses comuns são representativos da vontade&necessidade grupal específica.

O que é válido para um grupo tinha de ser respeitado pelo outro...

Mas o coletivo não é jamais tão benéfico quando a solidão.No entanto, estou me referindo a solidão escolhida, que é diferente da solidão forçada.Essa é triste e ninguém deve desejá-la.

O crescimento interior, o aperfeiçoamento interior é propriedade da solidão escolhida.Só quem se recolhe para a solidão está criando as condições para a lapidação do seu interior.

Coletivamente isso não aconteceria jamais. No coletivo se aprende as técnicas para se viver adequadamente em função do bem comum, em função da convivência cultural.

O aprendizado do coletivo é técnico.

Todo o aprendizado do coletivo, desde as regras dos jogos e das brincadeiras é o aprendizado das técnicas da boa convivência em função da sobrevivência coletiva, o que vale dizer, por outro ângulo, a convivência cultural e a defesa dos interesses comuns. Como a cultura é variável, podemos dizer que é o aprendizado da comunidade, portanto não pode priorizar o bem interior, há no entanto, mesmo numa coletividade, pensamentos e filosofias,que se preocupam com o interior, e boa parte deriva para interesses esotéricos e coisas assim.

Devido ao fato de que no coletivo não são criadas as condições para a lapidação do eu interior, compreendo o quanto é para mim complexa a idéia de uma religião coletiva.

Hoje à tarde, quando comecei a pensar neste escrito, as pessoas coletivamente assistiam ao jogo do Corinthians contra o Grêmio.

Ao conviver com a solidão escolhida, você será um poeta ou um artista. É quase inevitável.

A poesia, por exemplo, é filha da solidão, porque o poeta é um ser  solitário, assim como escrever é um ato solitário.Toda arte requer solidão!

Mas eu estaria burilando idéias firmes e assentadas de que coletivamente se produz arte, e há profissionais que defendem a idéia de que, no coletivo brota o fazer artístico. A coisa não é tão simples assim!

Claro que é possível uma oficina de produção de texto, assim como a oficina de criação teatral. Mas isso não invalida, em hipótese alguma a idéia de que a criação artística é um ato solitário e, principalmente a criação literária.

Eu amo a solidão e ela não tem preço, isso não significa que eu seja um ser afastado do convívio com as pessoas. Pelo contrário, adoro festas, sou festa, risos, sou pura alegria, sou gargalhadas, nada substitui para mim o prazer de uma conversa ou uma cerveja com licença poética. Conversar é algo de extremo prazer. O riso, a música, os amigos, tudo é por demais prazeroso. Só não incluo o gosto por contar piadas.

Quando eu era criança, quando eu era menino de pandorga e gude, joguei em time da rua, e também queria ir ao circo.

Fui ao circo de lona rasgada, joguei futebol, corri das chuvas, troquei figurinhas, mas nada, nada me foi tão envolvente e maravilhoso quanto a solidão escolhida, a solidão de um livro, e, para mim especificamente, a contemplação dos eucaliptos.

Mas o circo e o jogo de futebol representam o equilíbrio, a oportunidade de convivência com a comunidade, o aprendizado das regras, do conformismo, da dinâmica da vida, do encontro com as amizades, com a higiene mental, com a alegria sem compromisso.

Mas o compromisso com a alegria e a higiene mental para mim nada teve a ver apenas com o coletivo, mas isso será aprofundado noutro momento.

Na solidão é que sempre ocorriam as minhas grandes descobertas e os grandes benefícios.

Como cresci na solidão!

Quem, por causa do excesso de convivência coletiva não aprendeu a procurar a solidão, partilhou de uma educação imperfeita.

Quem incluiu na sua escola de bom crescimento, no seu modelo de aperfeiçoamento humano a solidão, está realizando o mais benéfico dos modelos. A solidão é como o silencio, sempre tão produtivo, sempre tão benéfico,sempre tão restaurador, sempre tão suave.

O romantismo deturpa a idéia da solidão, que sempre aparece como fruto da dependência amorosa. Se você não lutar por ele/ela, você ficará na solidão e solidão é coisa pavorosa, que ninguém quer.

Como é necessário e urgente às vezes se fugir do coletivo para se reorganizar a vida!

Preciso fechar a janela. O som que chega é terrível. Não há respeito neste país? Não há respeito pelo ser humano? Como é possível? É domingo, nove horas da noite, uma igreja evangélica propaga o seu culto através de um alto-falante. Uma voz masculina alucinada grita Aleluia, aleluia ! e coisa assim, e eu sou obrigado a ouvir. Isso é profundamente desrespeitoso! Eu não estou lá!

Hoje o mesmo jovem que recentemente me questionou sobre a camiseta 100% NEGRO, também me perguntou qual a relação entre Che Guevara e Nossa Senhora Aparecida.

Respondi que ambos merecem respeito, mas ele queria saber outras coisas e eu expliquei que, a respeito de Che e da Santa, para o comerciante tanto faz, o importante é dar lucro. Expliquei que essa é a alma do capitalismo.

Sobre a camiseta, expliquei que 100% NEGRO é um site, de erotismo, de divulgação da beleza negra. Ele ficou aliviado, pois colocava em minhas mãos, como se eu fosse um mestre, a questão de que seria considerado crime ou não ele usar uma camiseta 100% BRANCO.

Ponderei que ele, o jovem tinha razão, mas como é apenas uma espécie de logotipo, uma marca de um site que divulga a beleza negra, não há nenhuma ofensa, nenhum tipo de provocação e aproveitei para falar um pouco sobre o quanto os negros foram prejudicados como gente, como seres humanos, através dos tempos pelo modelo imposto, pelo referencial que vigora há séculos, do branco&macho&europeu.

A beleza negra, assim como a resistência negra através dos tempos de sofrimento e desrespeito afrontoso, são valores que devem ser olhados com admiração por todos e cada um de nós é responsável pela história, pelos destinos de todos os povos, mesmo a nossa omissão diante de uma tragédia num país distante é algo profundamente revelador da nossa natureza individual.

O mundo moderno através do progresso científico facilitou o surgimento de comportamentos vergonhosos, mas que por uma questão de senso comum, de validação consensual, passam a ser considerados normais, como um noticiário televisivo mostrando um país em guerra enquanto comemos pipoca confortavelmente em nosso lar.

Bem, agora fui severamente prejudicado, primeiro por ter fechado a janela, pois perco o luar. Está certo que eu não vivo em condomínio, mas ninguém é obrigado a ouvir o barulho alheio, e, me ponho a pensar às vezes, se Deus escuta o silêncio...

Talvez eu deva descer e colocar um cd, ouvir música, uma canção, talvez quem sabe, this is my song, ou Something Stupid,ou quem sabe, A Via Láctea, ou ainda, uma canção italiana. Afinal, viva a domenica!

Mas...

Ela está chegando e a poesia descerá sobre mim e a coisa boa virá. Comparo a sua chegada com a purificação da minha vida.

Então eu vou comemorar e a comemoração será a maior porque não terá fim.

 

(junho/2001)


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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