Marciano Vasques


A QUE SERÁ QUE ME DESTINO

 

            Escrevo ao escritor enviando os meus parabéns pelo seu escrito no jornal da cidade do Sul. Como gostei do que ele escreveu, então o cumprimento. Depois de alguns dias, recebo sua correspondência. Ele me envia um currículo enorme, apenas propaganda dele. Não entendo este gesto, fico momentaneamente decepcionado, sem compreender porque alguém que escreve coisas interessantes, faz um negócio desse, envia sua propaganda pessoal para um colega que elogiara o seu texto. Enfim, parece que estamos novamente naquele cruzamento onde acostumam acontecer trombadas, choques. A velha distância entre a prática e a teoria, melhor, entre o escrito e o escritor, melhor, entre o que se escreve e o que se vive.

         Numa festa de fim de ano no Teatro Municipal, de confraternização dos professores orientadores de Sala de leitura das escolas municipais, escritores estão presentes. Fico na fila para receber o autógrafo no livro que é cortesia da editora. Mas a decepção é grande, melhor ter ficado apenas como um fã do autor, um admirador, mas fui tentar conversar, falar coisas e, quanta arrogância, bem..., depois conversando com um editor de literatura infanto-juvenil, ele me fala que uma parte dos escritores, é melhor você conhecer a obra, nunca a pessoa.

         Bobagem agir assim, mas compreendo que esse autor estava lá na praça, na procissão, admirando a nova roupa do rei, maravilhosa, que só podia ser vista por pessoas inteligentes. Penso que deve haver sempre a humildade, mas essa humildade é preciso que seja bem compreendida.

Não vamos recorrer a nenhum filósofo, que estão todos de plantão, principalmente Nietzsche, que gosta muito de contribuir. Vamos deixá-los descansar um pouco.

         A humildade a que me referi não é a falsa humildade. Essa é detestável, é hipócrita, ou, (atenuante), planejada, uma humildade metodológica. Humildade metodológica não nos interessa aqui, interessa a humildade autêntica, assim, espontânea, melhor, sincera, sem nenhuma intenção. A humildade falsa seria, por exemplo, o Pelé ter declarado  um dia que não sabe jogar bola,ou o Ziraldo declarar que não tem talento.

         A humildade a que me refiro é o sujeito pelo menos ser sensato e compreender que enviar sua propaganda pessoal para um colega é tão ridículo como improdutivo.

         A produtividade está fortemente vinculada à própria produção, ao conteúdo da obra. O resto aparece. É claro que na maioria das vezes o currículo longo, academias, concursos, títulos, é uma forma de compensar a falta de talento, ou de produção. Se eu fizesse verdadeiramente parte do mundo literário deixaria ao escritor a mensagem de que currículo, propaganda pessoal (e coisas assim) deve ficar em compasso de espera, para ser acionada quando solicitada. Outra coisa, o bom é as pessoas descobrirem. Isso sim, é gratificante. A única coisa que deve ser mostrada pelo escritor é o seu talento, ou seja, os seus escritos, a sua literatura, a sua poesia. Essa coisa de divulgar currículo é negativa.

Tem gente que participa de dezenas de entidades, de academias, mas, penso eu aqui na fragilidade da minha ignorância (desculpe, Voltaire): que importância tem tudo isso? Que importância tem  saber que o sujeito é membro de dezenas de academias, de entidades? Isso não tem a menor importância, é apenas um equivoco. Um poema sim, é arrebatador, um único poema fala pela alma do poeta, um único conto fala pela alma do escritor, uma só produção literária revela a força do autor, a sua força interior, o seu valioso talento, um único poema. Nada mais é necessário.

         Mas estamos vivendo numa época de mídia, quem não se divulgar morre, desaparece, dirão alguns. Isso merece uma reforma de entendimento (desculpe, Espinosa), merece uma conversa, mas, sobre conversa, falaremos a seguir nesse texto que por aqui tenta a preparação para a decolagem.

         Lembro-me ainda da última conversa que tive recentemente. Ter uma conversa é algo importante. Melhor é ser a conversa. Estar tão envolvido, participar com tanta paixão que você é a conversa. Esta é a saída: inventar a conversa. Você, o inventor de conversas.

         Isso já aconteceu um dia, quando as varandas tinham um significado, no tempo em que varanda rimava mesmo com ciranda. A varanda já foi o cômodo especial, assim como a estante era para os livros e o céu dos balões.

         Ele se barbeando, coração em soluços, diante da crônica esportiva, quando o futebol era da alma e a vida do jogador, sempre um exemplo.

         Havia qualquer coisa de cuidado, de zelo, mesmo no rústico.

         Tudo seguia  o seu ritmo serenamente, nada era imposto de fora para dentro. Nada chegava pelos fios condutores, impondo uma forma de vida. Nos dias em que a Coca Cola começou a ocupar o seu espaço definitivamente na mesa, mesmo que ainda timidamente, os homens e as mulheres começaram a conversar nos intervalos. Um outro mundo foi se estabelecendo e ficando mais real do que a vida verdadeira. Jovens, principalmente as moças do Sétimo Céu, que com Capricho, foram as pioneiras em gastar a própria energia com a vida dos ídolos.

         E as mulheres conversavam na varanda e a rua era da ciranda e o anel passou e hoje a conversa se foi. Os assuntos são “dominados”. Quase a conversa abocanha a mídia. O que era novidade foi se extinguindo, ou seja, a novidade está ausente dos olhos, tudo passa muito velozmente, tudo parece tão efêmero, tudo deixou de ser novidade, o pasmo não encontra mais espaço no olhar.

A graça e o encanto parecem que vão pouco a pouco se transformando em acrílico, a poesia parece cada vez mais concreta e o concreto vai  solidificando a cada dia o desencanto, a criatura do menosprezo, da indiferença.

         Ninguém parece interessado em modificar isso! Dar outro rumo. É como as pessoas que não fazem questão de usar o cérebro para aprender a lidar com o caixa eletrônico porque sempre um funcionário faz isso por elas, sem tempo nem habilidade para educar, para alfabetizar. É mais cômodo dar os peixes.

         A conversa é um tesouro, um bem precioso, aquele que conversa converte, conversar é converter, é a conversão do outro ao universo comum, universo de concordâncias e discordâncias, mas comum, porque foi convertido pela conversa.

         A conversa converte para o aconchego, para a sensibilização recíproca, mas não a conversa artificial, sem esforço, parecida com o aluno transformado em máquina de copiar ou com o usuário que desprovido de critérios, de sensibilização para a escolha, acessa a Internet. Desacostumado a exercer o critério da peneira, da separação das pedras no cascalho, exerce esse jeito de ser, não criterioso, sem rigor, nas eleições, quando coloca seus governantes no poder e depois, mantendo a tradição brasileira, adquire o hábito de falar de soslaio, cochichar, falar baixo, de lado, reclamar, se torna especialista em reclamações, em crítica, e, muitas vezes, se julga importante por isso, como se tivesse mesmo alguma importância alguém criticar, reclamar, para um grupo de ouvintes, no ônibus, nos bares, antes da missa dominical, etc, se na hora precisa não vai à passeata, não participa das manifestações, não põe o rosto ao vento, não vai a luta enfrentar. E assim permanece, reclamando, criticando, e isso causa a ilusão de status intelectual.

         A conversa artificial é a conversa sem esforço, que não exige muito, aliás, comumente, não exige esforço nenhum, fica uma conversa sem esforço, às vezes estéril, na qual é costume o outro sempre concordar e às vezes, mesmo quem tem pensamentos opostos, acaba concordando em pontos com os quais jamais concordaria.

É o tipo de conversa que não enriquece, não acrescenta nada, e, considerando que eu só tenho um dia de vida, hoje, e considerando que eu vivo uma única vez e estou vivendo pela última vez, e considerando que, apesar da eternidade do tempo (Espinosa), existe a duração, e na duração eu estou envelhecendo, assim como a árvore que despeja seus verdes ao vento, a conversa tem que ser prazer puro, como tudo tem que ser prazer.

A evolução humana caminhou para isso, para a busca do prazer em tudo, ou seja, no ato de viver, que tem que ser completo, inclusive na conversa, O ser humano não evoluiu tão longamente para buscar a dor, mas o prazer, e ele vive na eternidade, que é o tempo presente, o único que existe, mas também vive na duração, que é a sua passagem na eternidade.

Sofro pelos crentes que pensam que eternidade seja algo diferente do maravilhoso tempo que eu vivo nesse exato momento e que se arrasta milhões e milhões de anos, que não passam de invenção humana. Mas assim como eu vivo na eternidade, vivo a minha duração, que é cortesia do eterno, e tenho que converter a conversa em prazer, como a comida, o alimento, que vai além da fome, por isso, os sistemas cruéis do mundo, políticas monstruosas, que deixam tantos seres humanos com fome, são horríveis, nefastas e malditas, e devem ser combatidos por todos, de uma forma ou de outra, mesmo que apenas educando as crianças para que não sejam jamais injustas, assim como aprendam a amar os animais, principalmente os cães e os gatos, mais próximos da convivência humana.

         Quisera acreditar numa vida eterna diferente da que eu vivo, algo fora do mundo, um tempo interminável, uma vida sem fim, fastidiosa, assim como também acreditar num paraíso, como nas visões mitológicas, um lugar de puro ócio, de prazer sem fim  e sem sentido, e então, como confortável seria acreditar nessas coisas!, porém como seria impossível viver a vida intensamente, principalmente pelo impedimento de se viver o momento na íntegra, impedimento causado pelos sacrifícios impostos, pela observância de regras morais, etc, para se alcançar tal vida eterna e tal paraíso, como se fossem um prêmio e não essa dádiva natural que recebemos ao nascer e diariamente temos à nossa disposição, seja o paraíso e a eternidade, ambos ao nosso alcance, aqui, agora, e não uma ilusão, um sonho.

         Mas, dirão, isso aqui jamais será um paraíso, e essa idéia metafísica da eternidade é muito bonita, mas é melhor a idéia do crente (mesmo que ofensiva à própria idéia de Deus), lugar, e época, inalcançáveis em nossa vida atual.

         Isso aqui é um paraíso. O maravilhoso planeta que caminha em direção à estrela Vega, é um paraíso. Que maravilhoso seria viver neste mundo! Que paraíso temos a nossa disposição! Pássaros voando, lagos e rios, verdes e mares, montanhas, neve, sol, azul, animais, flores, que paraíso maravilhoso! Como é possível que tenha sido implantada na mente humana a idéia de algo fora deste mundo e ele então não tenha podido ter a chance de reparar que vive num paraíso.

 Os que me contestarem estarão, mesmo sem o compreender, se referindo a ação humana sobre este paraíso, por isso finalizo dizendo que esse paraíso no qual vivemos tem o mistério de exigir a sua construção diária, a sua reforma, a sua edificação, não porque tenha naturalmente surgido imperfeito, mas porque a ação do homem o destrói a cada dia, só o ser humano tem a capacidade de destruir, de matar sem necessidade ou por interesses desumanos. Só o ser humano aniquila o seu próprio paraíso enquanto acredita na ilusão de um paraíso que encontrará após a morte.

A religião do futuro será a religião da mãe deusa, a Terra, isso é Erich Fromm, mas é assim, uma religião para toda a humanidade, de amor e de preservação do nosso paraíso, não para se salvar a alma individualmente, não esse estranho egoísmo, não para isolar o crente do resto do mundo, mas para colocá-lo no mundo, mundo que ele, com a sua ação de amor, tornará melhor, mundo que ele embelezará com o seu amor e com a sua fé, mundo que ele restituirá como o paraíso primordial, com o seu amor pela natureza, pelas crianças, pelos animais, envolvido pelo amor para com a humanidade,  amor pela mãe Terra, pela deusa.

Então, extremamente enlaçado pelo ideal de amor e não mais prisioneiro de regras e observâncias morais de aniquilamento da alegria e da felicidade, estará mais perto da idéia de Deus, que tanto já fora, em séculos, ultrajada,  como, inclusive, uma idéia de imperfeição.

A imaginação, que elabora a realidade, criou ao paraíso. Esse paraíso mitológico foi criado a partir da realidade, da necessidade da humanidade de elaborar essa realidade, compreender o seu próprio mundo, porém não houve essa elaboração efetiva, essa transferência. E a humanidade, sem compreender o seu próprio mundo, continuou criança, não cresceu, como  crescem as crianças com o auxilio pedagógico da imaginação, e criança ainda, continua brincando de destruir o seu  mundo.

Como nunca compreendeu o seu próprio mundo, portanto, a sua realidade, nunca reconheceu que o paraíso é terrestre e está diante dos seus olhos. Crendo no pai, no Deus Pai, não reparou que a mãe, a Deusa Mãe, generosa, sempre lhe ofertou o paraíso.

         Colocado tudo isso, a conversa tem que ser prazer puro, tem que ser buscada como prazer, pois é no prazer que reside a vida, e não, jamais na dor, a dor é o resultado, a conseqüência, de distorções somáticas, de erros do viver, de acúmulos da insensatez, do modo incorreto de se viver, a dor é resultado dos erros. Sobre o prazer, é possível que eu tenha dado uma  pequena força para Epicuro.

         Bem, vamos à última conversa que tive. Foi com a mesma amiga de texto anterior. Dizia então que não compreendia como a Rede Globo admite que o tal de Casseta&Planeta conte certas piadas zombando de autoridades, como o Itamar, o ACM, o próprio governo , etc.

         Disse-lhe que não compreendia a sua perplexidade, pois não há nada nisso, a Rede Globo só faz coisa planejada, jamais iria permitir que algo contrariasse o seu ego-editorial, o seu mercantilismo. O planejamento da Globo é louvável, merece admiração e compreensão, está ligado ao ideal da comunicação de massa, que se baseia originalmente na martelada, na repetição, não há nada estranho no fato de Casseta&Planeta ir ao ar, como nunca houve nada estranho com o Jô ou com o Chico Anísio, para citar exemplos mais próximos.

         As piadas do Casseta nada significam, não alteram nada, não modificam nada. A Rede Globo é inteligente, tanto que se transformou nesta beleza de invejável rede, capaz de impor até o horário de uma partida futebolística, tirando o encanto e a graça do futebol, alegria do povo, assim como é capaz de colocar um presidente na república e, se for necessário, tirá-lo.

         As piadas do Casseta são como as piadas do Chico e do Jô no passado. Não produzem nada no povo, além da continuidade da alienação, do conformismo, ou seja, apenas a gargalhada, o riso, a diversão, a válvula de escape que impede a (revolução é uma palavra muito forte) tomada de atitude política, a participação política além do riso, da gargalhada. É apenas o amortecimento, algo tipo Ilariê nas crianças, não se diferencia da novela, enfim, tudo é um pacote compacto, nada do que está no polígono da televisão é despropositado, tudo é planejado, metodologicamente planejado.

         O sujeito que ignora um varal de poesia numa praça da cidade do Rio de Janeiro (Passa na praça que a poesia te abraça - quem se recorda disso?), oscila entre as aberrações da velha praça da televisão e a inteligência do Casseta, embora uma boa parte recuse o humor popularesco e se afirme intelectualmente assistindo apenas ao refinado humor do C&P.

         O sujeito chega extremamente cansado, janta e liga a televisão, e assiste ao humorístico, dá gargalhadas e é só, nada além disso.

A piada não produz nada no sujeito, o melhor que ele faz, para que haja um retorno, é contá-la depois, enfim, tornar-se um repetidor, agindo como as pessoas que repetiam as bobagens que viam nos Trapalhões, e coisas dos humorísticos da televisão, como me lembro de alunos no pátio gritando: Porrada! Porrada!, e isso certamente era coisa da televisão, ou como o mocinho que veio de Roraima falando da novela, ou a certa linguagem se impondo lentamente no Acre, com o sotaque (jeito) paulista ou carioca. Enfim...

         Tentando cercar o meu pensamento (afinal, isso aqui é um debate) alguém poderia argumentar, validamente, que seria mais alienante ler histórias em quadrinhos (falei do Fantasma, recentemente), mas eu não disse que o Casseta em si é alienante. Estou falando do veiculo, da televisão, de uma rede, da rede Globo. Estou falando do espanto de alguém pelo fato da RG  permitir piadas contra o governo em sua própria tela.

Se as pessoas fremirem seus raciocínios por conta desses escritos, isso, por si só, é gratificante.

         Pura distração, pena não poder dizer Higiene Mental, pois para mim higiene mental tem outro significado, outro conceito. Rir de piadas “intelectuais” e “Políticas” de programas humorísticos não é higiene mental, apesar de, isso é importante, eu valorizar profundamente os roteiristas, a equipe de criação. A questão aqui é outra, está relacionada ao comentário da amiga sobre a sua incompreensão da Rede Globo permitir tais piadas no ar.

         Higiene mental, para mim, é varrer os porões da mente, retirar os entulhos (preconceitos, idéias antigas, deformações, etc), limpar, e depois, organizar o lazer. É essa a higiene mental. Como fazer isso, (a higiene, varrer os porões da mente, etc)?

         Há várias formas e caminhos, entre os quais, a leitura,  claro que de bons autores, claro que bons textos, entre eles os filósofos, Nietzsche, Erich Frohmm, enfim, ler, mas não absolutamente filosofia, também a literatura, a poesia (tão benéfica!), as grandes obras clássicas do espírito humano, leitura de Erasmo de Roterdam, de grandes escritores, e assim por diante. Outra forma é você com você mesmo, é preciso então romper com tudo, com a multidão, com o canto da sereia, e iniciar a sua busca, a busca de você, a busca mais difícil de todas. É a busca evitada. Quase tudo que existe no entretenimento contemporâneo, que foi inventado pelo ser humano, é para afastá-lo dessa busca, pois afinal o encontro consigo pode não ser agradável, e é melhor então desfazer a busca.

         Mas, se alguém insistir verá que vale a pena o esforço, pois quando se encontrar o feio, o desagradável, o oculto, surgirá a necessidade da verdadeira higiene mental, da varrição mental, da higienização, enfim, e então, renascido, este alguém buscará a organização do lazer.     

         Da mesma forma que ninguém ama aquilo que não conhece ninguém se transforma naquilo que não quer.

         Também ninguém enfrentará o governo, ninguém participará de manifestações políticas por ter rido das piadas altamente politizadas, filtradas pelo filtro metodológico da Rede Globo, filtro invisível, mas, como sabemos, o essencial é invisível, nos ensinou um príncipe, e o essencial para a Globo é manter a sua hegemonia, o seu monopolismo, inclusive do monopólio do riso, da gargalhada. Se puder, do riso refinado.

         Finalizando, o policial corrupto assiste e dá risada da mesma forma que o aluno universitário e a empregada doméstica (que termo horrível!) se tiver chance. Nenhum deles promoverá mudança, de maneira nenhuma alguns serão transformados em Mentes Pintadas, com as cores da liberdade.

         Conversa é coisa de paixão, para conversar alguém precisa estar profundamente apaixonado pela vida, pelo prazer da vida. Só as pessoas profundamente apaixonadas realmente conversam! Outras  discutem futebol, ou contam piadas.

         (Não há aqui preconceito com o futebol, enquanto alegria rara do povo).

         Recentemente, em Brasília, conversei com Jailton e ficamos amigos. A amizade precisa ser alimentada diariamente, e no nosso caso, seja através da Internet e dos telefonemas semanais. A amizade na distância, precisa ser naturalmente cultivada, e, aliás, quem falou que a amizade significa apenas presença física?

         Bem, com ele aprendi o que agora faz parte da minha filosofia, ou seja, do meu projeto de vida,  projeto que se estende através dos anos. Aprendi e agora sou assim: “Tudo que eu tenho medo eu faço!”.

         Ela chegará e comparo a sua chegada com a renovação da minha vida. Ela chegará nesta semana, na quarta ou na sexta. É o que diz a ultra-sonografia da Daniela. A que será que me destino?

         Como é possível que os meus olhos transbordem e sintam tal emoção de choro quando penso no comovente soldadinho de chumbo? Serei eu um homem? Como posso me comover tanto com a história de amor do persistente soldadinho de chumbo? Deitado, sem poder se locomover, sem poder fazer nada, contemplando a sua bailarina. Quem amou assim?...

         De onde vem isso, essa minha forma de sentir? Em que momento, em quais circunstâncias brotou o homem que hoje eu sou? O homem que se distancia do que ocorre ao seu redor, não compreende nada de esportes, incapaz de discutir futebol, que não se deixa levar pela enxurrada das novidades, que a mídia deságua em nossas mentes sintonizadas. Acho que irei sempre de bolero de Ravel.

         A que será que me destino? Por que em mim coincidem Mozart e a viola?O que essa tal sensibilidade, esse modo de ser que me arranca do cotidiano, quer comigo, aonde me levará? Por que me ausento das pessoas bancárias, que aprenderam a carimbar e continuarão carimbando o resto de suas vidas? Por que me ausento das conversas vulgares, dos homens que falam de mulheres, que comentam coisas da mulher, fisicamente falando, homens que aprenderam na juventude, a tratar a mulher como objeto ou inimigo, como tratavam as “minas”, a namoradinha. Sim, a forma como se fala é coisa de inimigo, mas não é assunto para agora.

         Mas, a que será que me destino? Desço ladeiras, olho as pessoas, descortino a manhã, amo as calçadas, enfrento o sono, olho os livros e sinto por eles algo estranho, tantos assim fechados, em silêncio, desafiadores, instigantes, o mais fascinante dos objetos, e eu aqui, diante dos livros, diante também desse outro universo que é o computador, e a pergunta a se repetir, a pergunta sem resposta. Eu poderia arriscar? Será que me destino à poesia?

         Mas a poesia é assustadora. A poesia, tão camaleônica, nos tira a liberdade, nos tira a nós os poetas, a liberdade, porque nos exige tudo, suga-nos toda a vida,o poeta precisa perder a sua liberdade, não tem mais o direito de viver normalmente, como poeta então irá divulgar a liberdade. Precisa perdê-la para mostrá-la aos outros, mostrar a sua beleza, a mais bela, que é a da libertação.

O poeta é o Sol da liberdade, mas para isso precisa perdê-la. Sempre lembro de Cristina Rosseti: “Ninguém nunca amou a minha alma peregrina”. E assim é a alma do poeta, parecida com a alma da mulher, peregrina.

O poeta perdeu o direito ao lar, o mundo é o seu lar, mesmo que não viaje fisicamente, ele não pertence ao espaço restrito da convivência com os seus. O seu coração buscará as coisas imensas e ele se atemorizará diante da violência, e o que for passageiro não mais o comoverá.

         A poesia que não traz a libertação do homem, não merece ser chamada de poesia. Poesia não é apenas estética.

         É um engano, um terrível equívoco, um artifício se acreditar nisso. Poesia não é concreta. Poesia é algo abstrato, que está na alma poética e se concretiza ao atingir o leitor.

         (A alma poética  será tema de algum escrito no futuro)

         Ele, o leitor, tem que atender ao chamado das artes, ao chamado poético, tem que atender ao chamado da alma poética. Se não houver esse chamado com nitidez, a poesia dançou. Nesse sentido, a concretude da poesia se dá, se alcança, nesse encontro da alma poética com o leitor, é nesse encontro que se verifica que a poesia não é concreta, mas tem a oportunidade da concretude.

         Se o leitor leu a poesia e nada se alterou, a poesia precisa se questionar. O poeta é tão importante na cidade, nas praças e nas livrarias, como o palhaço no circo. Um dia  o circo voltará definitivamente para a criança, assim como a livraria será definitivamente um lugar de espetáculos poéticos, de brilho, de maravilhosos encontros.

         A poesia deve partir em busca do leitor, do seu leitor, pois a poesia tem o seu leitor, e esse leitor específico, capaz de receber a alma poética, será o seu multiplicador, e então ela descerá sobre a terra.

         Mas atingir o leitor não significa apenas esteticamente. Não significa apenas assumir a sua estética, como se fosse o seu padrão, ou o seu estatuto, mesmo porque a estética é natural, e o que é natural não pode ser considerado estatuto, veja bem (aqui é difícil), a estética está naturalmente  na natureza de todas as artes. O que diferencia, ou seja, o estatuto da poesia é a libertação que ela traz embutida em si, essa libertação é a possibilidade da liberdade. Essa é a sua “estética”. Se isso não for provocado no leitor (pela leitura amorosa), a poesia perdeu e pode ser outra coisa. Pode ser exercício intelectual, retórica visual, capacidade de arranjos com as palavras, metrificação, habilidade lingüística, capacidade de elaboração de versos, capacidade de transformar em concreta o que de fato não pode ser.  Para ser poesia, tem que oferecer a liberdade.

         O mais bonito poema de amor deve trazer essa oportunidade única de se libertar, nesse sentido a poesia é irmã do teatro, da filosofia, da literatura, porque o individuo pego pela alma poética, não tem como escapar.

         De todas as artes, talvez ela seja a que mais necessita buscar o leitor, estará vagando na praça, passará pelo vendeiro, passará pelos torturadores, passará pelo “comerciante”, assim como pelo que escolheu o comércio como o seu ganha pão honesto, passará pelo falso amigo, pelo empresário desonesto, pelo que seduz a mulher (seduzir, no sentido de enganar), passará por todos e encontrará o seu leitor.

E, enquanto na televisão os tapinhas não doem, a poesia deverá mostrar a dor do mundo. E ela, a poesia,  não é concreta.

         Serei eu então destinado à poesia? A que será que me destino?

         Bem, acho que agora vou ouvir música, romântica, é claro, pois afinal a minha alma, além de universal, continua portuguesa.

(junho/2001)


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.com.br