Marciano Vasques


DÉBITO INCALCULÁVEL

 

Quando a minha filha nasceu eu declarei que ela se parecia com uma canção de Caetano Veloso.

Depois Caetano me envolveu numa viagem com o trem das cores.

Mais tarde percebi o quanto Caetano é parecido com o Coringa das histórias em quadrinhos do Batman. A primeira vez que reparei isso foi quando vi um desenho & grafite numa parede em Itaquera.

Era o rosto do Coringa, com aquele sorriso largo, aquela bocarra aberta e então exclamei:

- Como o Caetano é lindo!

Numa segunda viagem percebi o meu engano, o rosto na parede era o do Coringa.

Na continuação fui a cada dia percebendo a semelhança da boca do genial artista com o personagem dos quadrinhos e então fui também me dando conta de que Caetano é o dono do sorriso mais inteligente do Brasil.

Sempre foi um artista dos intelectuais e embora quando os intelectuais mais dele precisavam, ele dançou e cantou odara.

Nunca vendeu muitos discos, o que sempre foi uma curiosidade, pois sempre esteve na mídia. Sua tiragem nunca ultrapassou 100 ou 150 mil, coisa assim, o que o levou a declarar que a sua música não é sabonete para ser medida pelo êxito de vendas. Certo.

Recentemente, gravou uma música popular, de Peninha. Vendeu um milhão de discos, pela primeira vez. É aquela coisa da canção do Milton, o artista indo onde o povo está. Bem...

Claro que após esse sucesso de vendas, essa vendagem maravilhosa, Caetano não se importaria se a sua música fosse um sabonete de luxo. Mas o artista é grande e continua extremamente criativo. Sempre foi assim.

O Brasil tem motivos de sobra para se orgulhar dos seus ídolos.

Recentemente reparei que o paulista às vezes não se deixa influenciar pelos cariocas.

Caetano cantou em Sampa sem vaias. Talvez tenha mesmo havido a equivocada compreensão dos paulistas para a tal passagem da “Um Tapinha Não Dói”. 

Penso que se Caetano tivesse vendido um milhão de discos com Ciúme (aquela de Petrolina, Juazeiro e o Velho Chico) ou com o Trem das Cores, as suas opiniões seriam outras. Os enredos da mente humana são misteriosos e labirínticos. É possível que Caetano nem se lembraria de É O Tchan ou de Sandy e Junior.

Entretanto, nada é provável, pois a alma afinal é insondável.

Gosto das músicas que falam de trem, como O Trem das cores, O trem das sete, de Raul Seixas e O Trem das Onze, de Adoniran. Aliás, não adianta mestrado nem doutorado nem filosofia se o sujeito perdeu o trem das onze, quero redizer, quem não compreendeu o trem das onze, perdeu o bonde da história.

“Sabeis como morrem os camponeses? Há uma multidão deles, desassistidos, porque não se chamam Leo Tolstoi”, dizia o escritor que ardia em febre na estação ferroviária. Um débito incalculável para a humanidade. 

Um homem segurava a minha mão na estação ferroviária de Santos, aquela que foi destruída e em seu lugar foi erguido um hipermercado EXTRA. 

A locomotiva ao longe, apenas uma silhueta, uma imagem distorcida pelo calor que flui dos trilhos para o ar num sol de meio–dia, e ele, segurando a minha mão enquanto, com esforço, eu conseguia ler a primeira palavra numa tabuleta. 

Na outra mão uma garrafinha de Crush, e esse momento marcando profundamente a constituição da minha memória afetiva. Um débito incalculável.

Um homem resolveu discutir o geocentrismo e acabou por negar tal verdade. Nicolau Copérnico. Um débito incalculável.

As escolas municipais de São Paulo dão alimento mensalmente, leite em pó, obra do indizível, que permanece, tem continuidade.

Num passado remoto eu dizia que a direita é burra. Nessa época eu repetia como um papagaio as coisas que ouvia.

Voltando ao alimento, a escola tem que oferecer também o alimento do coração, da alma, da mente.

Esse alimento é a poesia, a literatura, o lúdico, o aprendizado na brincadeira, o prazer da leitura, o prazer de ler sem regras, pois o prazer é desregrado. 

Há muita preocupação de alguns professores com o empréstimo de livros nas Salas de Leitura. Preocupação desnecessária. Se por acaso um aluno rasgar um livro ou perder, isso não tem importância. O papel a gente pode repor, a leitura a gente não repõe. 

Ao ler o argumento de Mark Verheiden para o personagem de Lee Falk, que diz que o Fantasma deve a vida centenas de vezes a seus amigos e tem assim, um débito incalculável, fiquei pensando no tema desta semana.

Sim, débito incalculável. A doce voz que me falava coisas enquanto o giz riscava a lousa da sala de madeira da escola num dia chuvoso faz parte do acervo maravilhoso guardado em minha memória afetiva, que tem cheiro de poeira se dissipando na chegada da chuva e sonoridade de asas de insetos alçando a tarde e faíscas de choque de luminosidades de luares e pirilampos.

A voz portadora da ternura é o débito incalculável.

Meu pai, entregador de jornais saindo de madrugada com a sua lambreta e voltando à noite depois de um dia trabalhado na C.M.T.C, na FOLHA e no Diário de São Paulo, e a voz rouca de fuligem e o coração subtraído pela falta de livros e o fruto de seu trabalho levado pelos grandes magazines.

E uma vez por mês trazendo-me um gibi do Fantasma, que ganhava de um jornaleiro em troca dos jornais que sobravam durante o dia e ele deixava na banca em vez de levar de volta para as empresas.

Pessoas que só doaram, sem nada pedir em troca, como o carroceiro que trocava livros de literatura infantil por garrafas vazias e dependendo da história variava a quantidade de garrafas. O soldadinho de chumbo, uma das mais valiosas, um débito incalculável.

A vida é feita de coragens, mas também de doações. De vidas que se entregam ao amor sem cobranças.

A mulher que me escolheu como seu homem, seu companheiro numa noite já tão distante, com aquele sorriso largo que eu daria tudo para ter novamente, me oferecendo esse sorriso como a oferta mais valiosa que um homem pode receber.

Depois me ofertando um tesouro incalculável, a confiança em mim, a declaração de que acreditara desde o inicio, desde o primeiro momento, -intocável na memória afetiva do tempo-, que eu era um homem diferente, que eu não era um homem vulgar, e a voz lesada pelas indiferenças auditivas do tempo, dizendo que acreditava nisso cegamente.

E junto com essa confiança ofertada, o amor se manifestando em gestos simples, na dedicação diária, sem que eu tivesse ainda a capacidade de compreender que cada um manifesta o seu amor da maneira como pode, com os seus recursos. 

O sorriso largo, intransferível,o amor manifestado, a oferta esplendorosa, da confiança, tudo isso significa para mim um débito incalculável.

A compreensão, talvez fora de época, talvez em desarmonia com o amor, em desarmonia com a revelação de que a simplicidade das coisas está no cerne da felicidade e de que nada vale Rousseau, Descartes, os gregos, os contemporâneos, Heidegger, Sartre, se você perde o simples.

Se no caminho da universidade ou da biblioteca, você perde o simples, então nada esses homens transmitiram de essencial.

Porque tudo é absolutamente simples, o universo, a maior complexidade estelar, nada significa diante do olhar da simplicidade. Andrômeda, a Via Láctea, nada resiste ao simples.

Na simplicidade reside a felicidade e, com certeza, não é uma residência de jardins, de bairros nobres, não é uma residência luxuosa, ou é, no sentido de que luxo pode ser um conceito elástico, maleável.

Ter um dia reparado com atenção um cavalo abanando a sua cauda ao vento, livre, vivendo de acordo com a sua natureza, como vivem as joaninhas, ter tido o privilégio de ver esta cena e ter compreendido-a, ter conseguido atingir a compreensão, como um resultado do conjunto de coisas que compuseram a minha vida, como o primeiro gibi do Reizinho, o primeiro livro de fadas, a primeira música ouvida no rádio, ter visto, ter reparado, ter sido atencioso, ter me agarrado como pingente na atenção, num processo evolutivo no qual apagar da memória os erros nunca foi a predominância, mas retornar aos erros para buscar no tempo memorial o mestre, tudo isso é para mim o débito incalculável, e com certeza, sou o maior devedor na face da terra.

Minha mãe, alma encarvoada, breu, sonhos, rabiscos no papel do pão, ela  a que permitia que eu brincasse o dia inteiro entre eucaliptos, correndo nas trilhas de verdes zarpando entre fresta douradas do sol, convivendo com o verde liso e refletor das folhas à beira de pequenos lagos e fiapos de água cristalina em terra brilhante de cobre, de liquens, pés de ameixa amarela, amora preta nas amoreiras, pião de eucaliptos na palha do chão, nódoas da manhã, neblina da tarde, caules entardecendo, escorregadios, resfriados entre folhas e galhos, caminhos abertos pela força do pirata dos matos, formigas voadoras, espadas invencíveis de segmentos de galhos descascados, um débito incalculável.

Depois suas mãos servindo uma sopa quente numa noite fria de grilos lá fora e reflexos do luar nas vidraças da casa,estendendo-me uma caneca com chocolate, assim como as mãos tremulas da avó Conceição me oferecendo uma fatia de pão lambuzado de manteiga, numa manhã de vozes de gansos lá fora e som ligeiro de passarinho partindo entre as folhas de algum arbusto, um débito incalculável.

Tudo se entrelaça. Um homem observando a queda da maçã e isso motivando nele a idéia da gravitação universal, Andersen escrevendo vertiginosamente seus contos, são débitos incalculáveis da humanidade, assim como a simplicidade de gestos afetivos em minha infância.

Pessoas bondosas que doaram fragmentos essenciais de suas vidas para moldarem o meu crescimento, são, também, de certa forma, débitos da humanidade.

(julho/2001)


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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