Marciano Vasques


AS RENAS ESMAGAM OS GROUS

 

Encontrei um diário antigo de anotações.

Na noite de 21 de julho de 1969, eu olhava para a lua e pensava na menina que costumava aparecer com uma blusa azul na quermesse.

Sonho meu é como um grou. Alguns imensos e brancos como os grous da Sibéria. Outros, coloridos e tortuosos. Uns carregados de esperanças, outros, sem esperanças, apenas livres.

Os ninhos com os filhotes de grous são constantemente esmagados pelas grandes manadas de renas que disparam em regiões asiáticas.

Manadas nunca perdoam, passam por cima, arrastando tudo.

Manada pode ser considerado o vendaval mais pesado e mais arrasador para as pequenas criaturas do caminho.

As renas esmagam os grous.

Diariamente as manadas das dificuldades, de intempéries, esmagam meus sonhos, como se eles fossem grous.

Um presente para o mundo. Devemos dar o nosso presente para o mundo.Somos gratificados a cada manhã com o presente, com a dádiva de viver, de receber um novo dia, sempre o derradeiro, o único, o absoluto.

Estar no mundo solicita uma retribuição, um agradecimento, um presente. O mundo melhora, se aperfeiçoa com cada presente que recebe.

Um presente nosso, por mais simples e delicado que seja, presenteia e presentifica o mundo, que fica presentificado.

Uma voz suave é uma obra tão grandiosa quanto qualquer outra.

Andersen escreveu e publicou as lendas que ouvia na infância.

Transformou-as em livros para as crianças, altamente educativos para os adultos. Um dia declarou: “Este é o meu presente para o mundo”. 

Hans Christian Andersen. Sua vida sofrida era um patinho feio. As adversidades não contavam com a persistência do soldadinho de chumbo.

E ele deixou o seu presente para o mundo.E até hoje, se faz presente.

Leo Buscaglia, um conferencista americano que fala, com extrema sensibilidade em suas obras, de temas delicados como a morte.

Num de seus livros a história de uma folha.

A folha vaga num galho de árvore e vive ao lado das outras a passagem das estações. A folha faz uma pergunta:”Se viemos e vamos embora, se morremos, se viemos ao mundo para morrer, por que então viemos?”.

Leo responde.

Sempre que posso estou relendo este livrinho de Leo Buscaglia.

Os olhos de ver. Isto é Tatiana Belinky, a vovó que só dá livros de presente.

Tradução Simultânea. Com este seu conto fiquei sabendo que uma criança judaica recebe o seu primeiro livro com uma gota de mel na capa. O estudo é doce.
A criança precisa aprender desde cedo que o estudo é doce.

Os professores Orientadores de Sala de Leitura das Escolas Municipais proíbem que as crianças consumam balas na aula de leitura.

O argumento: Sala de Leitura não é lanchonete, não é restaurante, para se comer doces ou chupar balas, além de que podem sujar os livros ou interferir negativamente na aprendizagem, pois um aluno, -defende uma professora-, que estiver mascando chiclete ou consumindo bala terá uma aprendizagem insatisfatória e não aprenderá adequadamente.

A bala, o doce, o chiclete,-segundo ela-, pelo fato de se mastigar, gasta uma certa energia da criança que deveria ser utilizada no esforço de concentração.

Bem, a leitura parece então o campo de concentração, no sentido mesmo de concentrar. Ou seja, concentrar, concentrar e concentrar. 

Evidente que o chiclete idiotiza a pessoa, o jovem, o adulto. Não idiotiza a criança, mas o chiclete deve mesmo ser evitado. No entanto, a bala não é chiclete.
Bala e chiclete são coisas totalmente diferentes!

Outro argumento que ouvi é que a bala acostuma, vicia a criança no doce, no sabor doce, e isso atrapalha mesmo, interfere na aprendizagem. A criança pode, acostumada com o doce, pensar que tudo na vida é doce.

O ideal seria então, pensei, dar apenas jiló ou boldo para a criança.

Mas as contradições estão nos detalhes e prestar atenção nos detalhes é coisa de realeza.

A mesma professora que ouvi falar da questão da bala, do impedimento do doce, defendeu o uso da chupeta numa conversa sobre criancinha.

Numa escola itaquerense, é a professora de Sala de 
Leitura que escolhe o livro que a criança vai ler e, tem mais, nunca tem empréstimo.

Logo que terminou o curso normal (à época, para formar professoras primárias) Irene Serra foi trabalhar em uma escola judaica, como professora de alfabetização. Durante o período em que lá trabalhava, a coordenadora pedagógica entrava e distribuía balas às crianças, justo na hora da tentativa de ler. Era uma festa a aula de leitura.

Festa, doce, bala, sabores.A leitura tem que estar relacionada ao doce, pois é o sabor preferido das crianças. Sendo o sabor preferido das crianças, então vamos ao doce. E viva a bala!

Viva mesmo, esteja sempre viva na memória, como as balas de goma que eu ganhava quando meu pai retornava sujo de dores na sua bicicleta desbotada, com seu quepe da CMTC orgulhosamente ostentado, e nesse momento da mão de meu pai me entregando as balas, buscava o seu alojamento para permanecer em estado de espera a poesia.

A bala e a leitura, o doce e a leitura, o sabor doce, percorrendo as linhas do livro, as letras, os signos. Que delícia é a letra adocicada!

Temos tanto para aprender com os Judeus, já sabemos disso, é claro, mas o doce na educação, no estudo, na leitura é uma das maiores contribuições para o aperfeiçoamento educativo. Abre um leque imenso dentro dos parâmetros de discussões pedagógicas.

Sobre a cruciante questão do Professor de Sala de Leitura ser também um substituto por força de uma portaria inadequadamente interpretada, - pois fornece frestas para uma outra interpretação -, disse em texto recente, que atende a interesses outros que não o pedagógico.

Referia -me ao fato de que o Professor Orientador de Sala de Leitura como um substituto atende a interesses administrativos, de funcionamento da escola, e o funcionamento da escola atende aos interesses imediatos da auxiliar, da assistente, como é natural que seja.

Resumindo, a escola precisa funcionar e os professores faltam e não há substituto suficiente, então que ninguém se atreva a modificar a tal portaria.

Mas, finalizando, o funcionamento da escola, o preenchimento da aula vaga, etc, não tem relação com o interesse pedagógico.

Tem sim, poderá algum funcionário retrucar, ou quem sabe até argumentar.

Um possível argumento: aula vaga significa perda de conteúdo.

E tirar o Professor Orientador da Sala de Leitura significa o que?-pergunto. 

Bem, é isso, por enquanto...

O passeio mágico. Chamo assim a curiosa viagem de situações entre as histórias e lendas de povos de regiões e épocas diferentes.

Já há pesquisas e catalogações sobre isso.

Em diversas histórias, mitos e lendas de povos distantes entre si, em época e em regiões, algumas situações costumam reaparecer e se repetir, como se fossem universais, como se cada povo vivesse ou sentisse as mesmas coisas, cada qual a sua maneira.

É evidente que Joseph Campbell já demonstrou isso na mitologia, mas sempre é bom observar certas coisas na literatura infantil.

Observar o seu passeio mágico, essa repetição saborosa, que às vezes extrai da mitologia uma passagem, uma situação altamente significativa.

Penso, arrisco, que a literatura infantil é a grande auxiliar da mitologia, a sua irmã, ou, se podemos assim dizer, a sua correspondente para falar com os pequenos. Assim como a literatura é a irmã da filosofia para falar ao leigo. A filosofia se vale da literatura para atingir o leigo.

E o termo literatura exige uma discussão imensa. O que afinal é Agatha Christie? Por exemplo.

Mas, voltando, o passeio mágico que se verifica com um pouco de atenção, entre a mitologia e a literatura infantil é o legado humano precioso que nos pisca diariamente.

As situações se repetem, as coisas passeiam.

Podemos ver como exemplo um mito e uma história infantil:

A ordem dada pela madrasta da Gata Borralheira e a ordem dada pela ciumenta Afrodite à Psiquê.

Tanto a ordem de Afrodite quanto a da madrasta são absurdas e humanamente impossíveis, além de serem iguais.

Afrodite, ferida pelo ciúme causado pela bela Psiquê, que se tornara amante de seu filho Eros, ordena que esta execute uma tarefa muito difícil.

Psiquê tem que separar e catar milhares de sementes espalhadas. Como conseguirá?

Sempre aparece uma ajuda. As formigas ajudam a pobre Psiquê, que para espanto de Afrodite, consegue separar e recolher as sementes.

A madrasta de Cinderela dá também uma tarefa muito difícil para Cinderela. A pobrezinha tem que separar e catar milhares de lentilhas espalhadas na cinza.

E ela consegue com a ajuda dos passarinhos. A madrasta fica espantada.

Psiquê e as sementes, Cinderela e as lentilhas, Psiquê e as formigas, Cinderela e os pássaros.

Encontro da mitologia com a literatura infantil, algo fascinante. Talvez porque ambos tenham em comum a mesma mãe.

Seria Gilgamesh a mãe de todos os contos de fadas e de todos os mitos?

Gilgamesh, um poema épico, uma beleza sumeriana, escrito há cinco mil anos atrás.

Gilgamesh, Ishtar, -no amanhecer, guerra, ao entardecer, amor, Enkidu, Shamash, e Utnapishtin, o homem mais bondoso do mundo, construindo uma arca para levar, além da sua família, um casal de cada animal, um macho e uma fêmea de cada animal do mundo.

Utnapishtin e a sua arca e o dilúvio.

É bonito. Desde a primeira vez que li Gilgamesh nunca mais o larguei. Foi ali que tudo começou.

Foi nessa obra dos Sumérios que teve inicio o passeio mágico e o passeio continua até hoje, nas histórias para as crianças e nas histórias para os adultos.

Os russos contam as suas histórias, os italianos e os franceses também.

É a imaginação a serviço da humanidade. Serviço no sentido de servir.

Podemos contar todas as histórias, quase todas. Uma não podemos contar, ninguém pode.

Ninguém pode contar a história da gigantesca batalha entre três deuses no Egito. Esse confronto, esse encontro de deuses que ocorreu um dia, a batalha cujo resultado foi decisivo para a humanidade.

Quando os deuses se enfrentaram nesse encontro, ninguém podia prever o que aconteceria nem qual deles seria o vencedor. Certamente os gregos torciam pelo seu deus e cada povo, é claro, pelo seu. Mas essa historia não pode ser contada. Vamos seguir em frente.

Na verdade não é bem assim. Essa historia já está contada. A humanidade é que precisa aprender a ler.

Quando menino, olhava para as folhas das parreiras, das mamonas, lustrosas, brilhantes, brilhantemente verdes, refletoras do sol, alisadoras do sol, sedutoras, enceradas pelo orvalho, olhava para os eucaliptos, -devo a eles o meu gosto pela contemplação, olhava para as joaninhas, as borboletas, as libélulas, o cavalo, o maravilhoso animal, o impressionante e belo animal chamado cavalo que o homem bestamente (ainda bestificado) continua a escravizar, e olhando essa visão esplendorosa que me era gratuitamente, generosamente (é a palavra mais adequada, pois gratuitamente ainda não tinha sentido para mim) ofertada, por que eu não podia ali, diante daquela vida imensa e amorosa, conversar diretamente com o Deus?

Se Ele, na minha compreensão de criança estava ali!
Em cada folha, em cada animal que rastejava, que voava ou saltava entre os verdes, enfeitando com a sua graciosidade a clorofila, o reino dela?

O episódio do confessionário na Igreja Matriz da Penha é algo que vez ou outra me volta no plantão da memória, no reservatório onde estão acomodadas as idéias afetivamente exemplares.

Lá estava eu, após subir vagarosamente a escadaria e ter entrado no silêncio daquelas obras que se apresentavam pela primeira vez aos meus olhos.

Lá estava eu no escuro do confessionário, aquela coisa esquisita para mim, que, acostumado com vôos e luzes naturais piscando, ou melhor, pirilampeando, lume vagando, estranhava a espécie de armário ou caixa, enfim, lá estava eu me confessando.

Respeitosamente e muito amedrontado, coração tropeçando, começava a minha confissão.

Uma novidade atemorizante para minha pobre mente em formação, que até então se acostumara naturalmente a confessar-se diretamente, no contato com as folhas verdes dos maravilhosos eucaliptos e das maravilhosas árvores e plantas.

Eu, um menino em dias de primeira comunhão, no confessionário da Matriz da Penha, sem poder ao menos olhar para os belos vitrais coloridos de azuis, vermelhos e amarelos para verificar os raios de Sol, teimosos a penetrar, na igreja.

Quem era eu afinal? Aquele que galopava um relâmpago entre os verdes ou o que era levado para um carro de boi?

E então eu comecei, falando no escuro, confessando as coisas que os adultos diziam que era pecado e enfiavam em minha mente, desrespeitando a coisa mais importante do universo.

E então, após ter falado tanto no escuro, ter inventado tantos pecados, ter improvisado, ter transformado em pecado tantas brincadeiras de criança, tanta vida, tanta alegria, tanta felicidade, após ter falado tanto, sem parar, sem vírgulas orais, sem pausas, então, uma portinhola se abriu acima de mim e eu ergui os olhos e vi uma parca luz entrando no confessionário e uma voz mista de gravidade e suavidade, dizendo: Pode falar, meu filho.

E eu, recomecei tudo.

Traquinagens de criança, ter xingado a minha irmã, num desprendimento de brincadeiras infantis, ter feito besteira com algum colega, que nem tinha feito, mas tinha sido orientado nem me lembro por quem para que dissesse isso, ou, agora me lembro; o padre perguntou, docemente, sim, a voz era mais suave que grave, e ele perguntou sobre besteira e bastava eu consentir e disse sim, e ter enganado um colega num jogo de figurinhas ou escondido um pedaço de breu que encontrei no peitoril da janela do seu Zé das Cabras.

Enfim, toda a arte do crescimento da criança, transformada ali em pecado, (embora agora compreendo o quanto aquele padre foi bondoso comigo, pecador, e pouco talvez se importasse com a minha confissão e certamente me amava como criança), pela mente adulta, encharcada, ensopada de religião (ensopada é a palavra adequada, pois estava dentro do meu universo, de sopa quente simbolizando o amor mais bonito; a palavra encharcada veio bem mais tarde, num conto de Arthur da Távola, que li.).

Eu não tinha pecados! Então, lembro-me até hoje, do esforço tremendo que fiz para relacionar coisas, como se fossem pecados; talvez um pião de madeira que eu tenha tomado de algum amigo, embora nunca tivesse feito isso, mas não podia dizer que não tinha pecados, que não era um pecador, seria um sacrilégio, uma infâmia, uma profanação ao rumo natural das coisas... Absurdo, quem é esse que tão pequeno ainda, se atreve a falar que não tem pecado?...

Então eu discorria sobre coisas que eu precisava no meu intimo que o padre as aceitasse como pecados e a bondosa e fria voz pediu-me que rezasse Ave-Maria e Pai Nosso e também Salve Rainha, que eu conhecia por ter decorado no catecismo, e fui então perto do altar cumprir a minha penitência e me punha a indagar como era possível que palavras decoradas pudessem sensibilizar Deus .

A culpa era de algum adulto que, embora tentasse inocentemente, ou seja, agindo de acordo com a sua consciência, adulterar a minha alegria de viver, não havia me seduzido para a reza.

Como não havia sido seduzido pela reza, pelo texto decorado e repetitivo, não compreendia aquilo e saí atordoado da igreja (bem mais tarde compreendi que a reza está ligada ao desejo ardente. Você deseja ardentemente e então as palavras decoradas passam a ter um sentido).

Pisava, caminhava sobre os paralelepípedos com insegurança.

O sol havia sumido e uma leve chuva caia na Penha, isso me trouxe uma alegria incomparável, a mais intensa sentida até então.

Essa chuva me trazia de volta o meu Deus da inocência, e eu olhava as nuvens e lembrava das joaninhas, das verdes folhas, do cavalo e quis beber a chuva, e quis fazer-me água.

Mas durante a madrugada tive o meu segundo pesadelo.

Na infância tive dois pesadelos, um foi numa noite de Natal, outro foi nessa noite.

Sonhei que todas as catedrais do mundo desabavam sobre mim e me esmagavam.

No sonho, é claro, apareciam apenas as igrejas que eu havia visto e possivelmente alguma que fosse um ajuntamento dos detalhes de cada.

Bem depois, ao ler pela primeira vez um poema de Pedro Casaldáliga, o bispo de São Félix do Araguaia, compreendi que Deus pode ter várias faces e talvez a mais linda estivesse ali naquele poema, naquele momento, naquele sacerdote poeta. 

Compreendendo isso, já estava preparado, mesmo sem o saber, para ler Campbell. A vida circunstancial vai nos preparando para certas leituras. É curioso isso...

O passeio mágico que começou com Gilgamesh, também 
presente na literatura infantil, me leva até Nikita, a menina russa, que tinha uma irmã.

Um dia o pai deu a cada menina um peixinho. A irmã comeu o seu, Nikita perguntou ao peixinho o que devia fazer com ele. O peixinho pediu que ela o salvasse.

A menina jogou o peixinho no rio. Achando isso uma aberração a mãe começou a maltratá-la. Levava a mais velha à missa e Nikita, maltratada, ficava fazendo os trabalhos caseiros, colhendo e socando o trigo e fazendo a farinha.

Queria tanto ir à missa!

Foi pedir ajuda mágica ao peixinho, que a ajudou.

Na missa encantou a todos, começando pelo padre. Por causa da sua beleza que a transformava numa princesa, nem a mãe nem a irmã a reconheceram. 

Um príncipe, que também ia à missa, ficou encantado com ela e teve uma idéia. Príncipes apaixonados são criativos.

Passou cola no chão próximo ao banco onde sempre sentava a Nikita.

Quando a missa terminou a menina se levantou e foi embora correndo e um sapatinho ficou colado no chão.

O príncipe fez todas as donzelas da região experimentarem o sapatinho de ouro até que o pezinho da Nikita entrou no sapatinho. Final feliz!

Tem também uma história italiana. Zezola, uma menina que sofre com o novo casamento do pai.

A nova madrasta já tinha filhos de um casamento anterior e só cuidava deles, ignorando a pobre, que maltratada ficava limpando o fogão, esfregando o chão e trabalhando sem parar.

A menina plantou uma semente trazida por um pássaro. Cresceu uma figueira encantada que a ajudou a ir ao baile –sempre há uma ajuda mágica!-, contanto que voltasse antes da meia-noite. 

No baile, atraiu a atenção do príncipe, seduzido pela sua beleza.

Ao sair antes da meia-noite, deixou de propósito um sapatinho no salão.

O príncipe fez todas a meninas da região experimentar o sapatinho. O pezinho de Zezola foi o único que conseguiu entrar. Final feliz.

Essas histórias foram contadas por Santiago Domenico, um padre missionário que hoje está na África, em BASSA, DOUALA-CAMEROUN,e também por Késia Gagliani, meus amigos.

Com Santiago adquiri o amor pelo idioma italiano, além de recuperar o prazer de ouvir histórias.

Recentemente fiquei sabendo que essas e outras histórias de vários paises e povos são também contadas por uma pesquisadora brasileira apaixonada por contos de fadas, que escreveu uma tese de doutorado sobre o tema.

Sua tese virou livro nos Estados Unidos.Seu nome é Kátia Canton.

Tanto a história da menina russa como a da italiana foram também recontadas por ela.

Eu ouvi falar do seu belo estudo numa conversa que tive com alguém num seminário sobre literatura, educação, arte luso-afro-brasileira. Um desses seminários nos quais a gente conhece pessoas como Tânia Macedo, ou fica sabendo de um trabalho como o de Kátia Canton.

Quando a embarcação de Ulisses passa perto das sereias de canto tão belo que só de ouvi-lo os marinheiros atiravam-se ao mar, para evitar a morte, os companheiros de Ulisses tampavam os ouvidos com cera.

Mas ele quis ouvir o canto das sereias e pediu para ser amarrado ao mastro. Assim poderia ouvir o belo canto sem correr o risco de se levar pelo encanto.

E assim ficou Ulisses, amarrado ao mastro.

Assim estou eu faz tempo, amarrado ao mastro.

Sobre os contos de fadas, eles não nos abandonam jamais. No entanto, não podemos viver como se estivéssemos num conto de fadas.

Assim como devemos nos amarrar ao mastro, também devemos nos prevenir para que não sejamos afastados da razão nem sejamos tirados da realidade pelos nossos sonhos.

Sonhos não podem ser prejudiciais.

Por eles podemos enlouquecer. Podemos até nos tornar um rei louco, como Luis II, da Baviera, para quem os contos de fadas não passaram.

Ele construiu três construções maravilhosas, um projeto alucinado, pois permaneceu com os contos de fadas na mente.

Enlouquecido em seus devaneios construiu um castelo que inspirou Disney para o castelo da Cinderela.

Com seus castelos quis tornar reais os contos de fadas.

A paisagem alemã refletiu a partir do século dezenove a sua loucura, o seu sonho.

Os meus são como grous.
 
 

 
(julho/2001)


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.com.br