Marciano Vasques


AQUELE QUE DIZ POETICAMENTE

 

Quando, em maio, fui à Brasília, para falar sobre a linguagem poética da literatura infantil na alfabetização,fui levado para Taguatinga. Lá falei sobre o tema com um grupo de estudantes de filosofia.

Inicialmente, os jovens olharam com desconfiança, visto que o tema aparentemente nada tem a ver com filosofia, principalmente, inclusive, pelo fato de que os filósofos não tiveram infância, já nasceram adultos, como os homens criados por deuses nas mitologias.

Nos dias de Brasília, almocei e jantei na casa de Elóia Gomes e Jailton e fui levado para todos os lugares por Regina Franz, e dormi todas as noites na casa de um deputado, um sujeito que eu gosto muito.

Numa de minhas idas ao plano piloto com ele, ou seja, no seu carro, tive que seguir em silêncio, pois ele no trajeto, só falava com o motorista sobre CPI e coisas assim, o tempo todo, a viagem inteira, só CPI, só política.

A lógica do poeta parece sempre estranha, pelo fato dele só conseguir falar das coisas poeticamente. Essa é a sua linguagem, essa é a sua conversa. Ele só sabe dizer poeticamente.

O fato de dizer poeticamente o afasta do sectarismo. O poeta jamais será um sectário porque nele habita a abertura para o universo, o poeta é filho das coisas que existem. A sua abertura para o ser representa a sua condição de sugador da vida, é dela que ele extrai a sua liberdade.

O poeta naturalmente jamais entrará na rua estreita do sectarismo, como também não entrará na do dogmatismo, essas duas vertentes redutoras do homem.

Devido a sua abertura para o ser, a ganância pela expansividade universal do ser, o dogma é para ele o logotipo da redução da mente humana.

Por isso ele só sabe dizer poeticamente, pois dizendo poeticamente ele é condenado pela sua expansão natural. E, com o seu dizer, assinala o seu modo.

Esse é o seu modo. Se alguém pede para que ele fale diferente, não consegue, pois tenta falar, escrever, sobre as coisas pelo viés literário.

Um texto acadêmico é algo diferente do seu modo, também um texto jornalístico. Falar poeticamente não significa impor verdades, muito pelo contrario, fica o signo da conversa, o dizer poético tem o sabor da conversa, ele se permite tratar de todos os assuntos, porque os assuntos quando tratados jamais serão transformados em tratados.

Quando percebi que a filosofia se vale da literatura para chegar ao leigo, segui em frente.

Quando estou aparentemente escrevendo sobre mitologia, na realidade estou fazendo literatura, estou dizendo poeticamente. Nem me atrevo a tentar uma narrativa mitológica, pois qualquer tentativa desembocaria no dizer poético.

Esqueci com a Daniela o texto do Rubens Alves, que pretendia levar amanhã, para a leitura de alguns professores. Rubens Alves fala dos olhos do professor, pede que o professor cuide dos seus olhos, pois o olhar do professor modifica uma criança, o olhar do professor tem o poder de expandir ou encolher uma criança.

A mamãe leva a criança no psicólogo, que detecta problemas na aprendizagem, e, bem, Rubens Alves segue em frente...

Gosto sempre de levar os artigos de Rubens Alves para discussão. Às vezes levo também algum artigo meu, porém costumo colocar como autor um nome inventado, um doutor em pedagogia, coisa assim, e o texto rende uma discussão imensa, desencadeia uma discussão profunda e animada, principalmente se o autor for traduzido do alemão, do inglês ou do francês, mas o que importa é que seja um autor conceituado no mundo acadêmico e científico, mesmo que seja desconhecido pelos colegas de trabalho. Já fiz essa brincadeira...

Já levei um texto de um autor de verdade, mas com o meu nome, o nome de um simples colega de trabalho. Claro que desperta alguns interesses, mas a discussão geralmente é tímida.

O nome é importante, é a coisa mais importante em nossa sociedade.

Como vivemos numa sociedade anônima, de anônimos, o nome passou a valer mais do que o conteúdo. Talvez a nometerapia tenha os seus princípios ou fundamentos validados.

O texto de alguém famoso, consagrado, produz efeitos benéficos consistentes e tranqüiliza a mente de quem lê, mesmo que o texto de um autor desconhecido seja profundo e tenha consistência, mas se não for de um consagrado, for de um colega de trabalho, perde bastante da sua força, pois a alma do texto parece que está no nome do autor. 

O texto de um desconhecido, de um colega de trabalho, do escritório, nem merece ser lido. É normal que seja assim.

Isso acontece em todos os setores. No mundo artístico é mais visível, mais notável. Talvez por isso artistas consagrados da música brasileira, grandes talentos, grandes nomes, fingem que não sabem, que desconhecem a existência de grandes talentos desconhecidos no país e nada fazem para modificar isso, pois acreditam que o povo só dá valor ao que já está estabelecido, ao que já é consagrado. E cada um segura o seu lugar.

Sempre brinquei com isso...

Desde criança olhava nos livros as fotos dos escritores, todos velhos, com suas longas barbas. Alguns jovens, mas morreram de tuberculose, em plena mocidade, e coisa assim.

E cresci com a impressão de que escritor no Brasil só fica famoso quando tem sessenta ou setenta anos e parece que nada produziu na mocidade, nada produziu quando tinha vinte e cinco anos.

Talvez as fotos de escritores tenham contribuído para um tal conselho popular de que devemos respeitar os idosos, como se não houvesse entre os idosos os canalhas. Não é a idade que faz o homem, por isso todo ser humano deve ser respeitado desde a infância. E não apenas por ser um idoso, pois como acabei de dizer, um idoso pode ter sido um canalha a vida inteira. Com esse aspecto, devemos respeitar o ser humano em princípio, mas um canalha é complicado.

Disse recentemente que o Brasil não conhece Chico Buarque. Ora, o Brasil não conhece nem o Brasil, nem o seu artista mais popular, o Roberto Carlos.

Não conhece, não tem na memória uma só canção do Roberto que seja fundamental para se compreender esse artista. Só conhece as canções comerciais, aquelas que a mídia quer que sejam conhecidas, aquelas que o Roberto Carlos quer que sejam conhecidas, por causa do seu medo de voar.

Fico pensando na maravilha que seria se o Brasil tivesse memória. Seriamos uma nação incomparável!

Alguém me pede permissão, uma espécie de autorização para citar algo do meu texto, ora, a única licença que eu conheço é a licença poética, aquele que permite que a palavra invada sem constrangimento todos os espaços da língua e perfure as barreiras culturais das padronizações.

O que escrevo não é mais minha propriedade. Mas, poderiam argumentar: e a coisa de direito autoral, e o interesse de proteção intelectual, e do direito do autor. E os interesses comerciais, editoriais, etc...

Certo. Mas são coisas diferentes. Você pedir autorização para citar um dizer, uma fala, um trecho, soa melindrosamente estranho. Tem é que citar mesmo!

O autor existe contemporaneamente, o autor não é alguém morto, alguém que sobrevive apenas na consagração dos tempos, mas ele está conosco, vive aqui, o que ele diz é para ser citado, basta citar a fonte, dizer que o autor falou tal coisa, disse poeticamente tal coisa e pronto. Nada desse negocio de pedir permissão, licença para citar. A conversa não nasce por aí.

Representantes de quase duzentos países reunidos em Bonn, para tentar salvar o mundo do efeito estufa. Ora, os EUA, responsável por quase 25% das emissões globais de dióxido de carbono, não quis participar, melhor, não quis nem ouvir falar do tal acordo protocolar de Kyoto, cuja meta de redução é prejudicial à economia americana. Veja que os interessantes americanos são motivados pelo econômico. E dizer que a América podia ser, cada uma delas, a musa contemporânea do mundo.

A América, musa do mundo, as novas mitologias não vingaram, não vigoraram, não exatamente porque já vivemos no estágio da razão, não pelo fato de que já ultrapassamos a fase do pensamento mítico, ou seja, a humanidade está na idade da razão,

Não é esse o motivo. E a idade da humanidade está um pouco indefinida.Talvez tenha efetivamente passado da idade da filosofia, e esteja caminhando para uma espécie de senilidade, ou de desvairamento adolescente. A humanidade talvez precise de um divã, diriam. Outros, como eu, que acreditam na descida da poesia sobre a terra, - sei que ela caminha para a idade da poesia -, embora tudo pareça indicar o contrario.

América como musa do mundo me faz pensar numa nova mitologia. Embora estejamos distantes, em tese, do pensamento mítico e, parece, da razão (as barbáries do século XX cristalizaram em nós uma espécie de descrença na razão. Ficamos impressionados facilmente.), uma nova mitologia se faz necessária. Algo parecido com isso: as Américas, como musas do mundo, a deusa Ciência, estabelecendo o seu reino, a criaturas horríveis, a mãe Superstição, a Inveja, e outras, atormentando o mundo, as deusas Religiões, e, bem, a coisa segue em frente...

E a poesia, bem, ela resolverá tudo quando estabelecer o seu reino.

Havia um pensamento em voga que dizia, ou melhor, rezava, que poesia era coisa de mulher, comentários que traduziam o coronel que era esse país, bem, aquilo sempre me atraiu, se poesia fosse coisa de mulher, tinha então um significado especial, pois as mulheres eram as responsáveis pela vida, e sempre relacionadas com a doçura, e hoje sei que não é bem assim, essa coisa do monopólio da doçura é invenção do mesmo sistema que sempre oprimiu a mulher, mas, vamos lá, comecei a pensar na poesia.

Ainda vitimado por estereótipos que interferiam violentamente em minhas reflexões, deturpando consideravelmente a pescaria dos pensamentos, a alma feminina, com firmeza defendi. Desde cedo aprendi que é preciso insistir em algo que não se apresenta com clareza. E nunca se apresentou claramente para mim um argumento convincente sobre a necessidade de se oprimir a mulher.

Mas a resistência dos opressores é mais brutal do que pode imaginar um simples lutador e atira em todas as direções, -piadas, criações publicitárias, livros didáticos, etc, e é preciso ter o destino da poesia para se compreender a dimensão da opressão.

Esse destino está vinculado à luta sem trégua contra as fontes que oprimem, -e o caso da mulher está intimamente ligado ao de outros oprimidos-, como numa declaração de irmandade, vamos dizer, um círculo universal, afirmativo que diz: nenhum ser será oprimido. 

Foi preciso que a vida, em sua complexidade, mostrasse-me que a mulher é um ser humano e não pode ser estereotipada. Tive chefes mulheres terríveis, o que me lançou numa tese pessoal de que elas nunca tiveram o poder, então com o poder que uma ou outra consegue, acabam aderindo ao autoritarismo, tentam inconscientemente se aproximar da mentalidade masculina, acreditam no autoritarismo como uma defesa, é por aí...

Veja, o poeta, que vive outra lógica diferente da lógica dos EUA, que é uma lógica sanguinária, de capitalismo desenfreado, que coloca a motivação econômica acima da segurança e da sobrevivência do planeta, é a lógica da burrice, que precisaria despertar a juventude do mundo inteiro, pois só ela, a juventude num levante ameaçador, fazendo a sua voz varar todos os continentes, tornando-a continental e agitando os oceanos, só ela, a juventude, a preservadora das lutas, poderia mesmo modificar o pensamento bestial, ilógico, insensato e burro desses sujeitos. Se a juventude se levanta, os velhos vão atrás.

O velho que se esquece que foi moço é idêntico ao moço que não se reconhece num velho que passa. Uma certa indústria estabeleceu a juventude como a idade ideal, impôs essa bobagem por força e natureza do mercado, e com isso agravou distâncias, privilegiando uma idade em detrimento de outras, atendendo assim numa pseudo-inocência, aos interesses mercantilistas que regem tudo no mundo hoje, inclusive a ausência da poesia...

E a poesia, que ciclicamente ameaça descer sobre a terra, poderia contribuir fortemente, aliás, a juventude vai atrás da poesia, ela não tem culpa se escondem a poesia, mas sempre foi assim, ela sempre procurou a poesia, pergunte aos garotos que amavam os Beatles...

O poeta, que vive outra lógica, que tem os olhos atentos, o único que vê e recolhe o que os outros nem sequer ousam imaginar que exista no cotidiano, o poeta vê onde outros não se atrevem, isso, se não me falha a memória, é Eugenio de Andrade, poeta português de barcos, seixos...

Então, ele, o poeta da lógica estranha, aquele que só consegue dizer poeticamente, aquele que diz poeticamente o mundo, como fica diante disso? Diante da lógica do país desenvolvido que é o EUA, filho do protestantismo inglês, filho do empirismo inglês, como fica o poeta? Conseguirá dormir em paz enquanto a juventude consome os mclanches da vida,e pipocas, e música de poesia rasteira e entulhos lixeirais que são transformados em arte, por uma indústria voraz, perversa, alienante...

Ora, a coisa que aliena a juventude precisa ser extirpada...

Poeta não tem poder nenhum, só o político tem poder. Todo aquele que tem poder está vinculado ao político, ao ser político, ao ideal político, à cobertura política, a uma idéia política. O empresário que monopoliza os preços, a policia,enfim. Poderoso não se vincula ao poeta, à poesia, pois ela não dá poder. O seu poder é outro, não é um poder visível, de efeitos imediatos, não é um poder consumista, materialista, etc, não é um poder ilusório, efêmero...

Justamente na aparente falta de poder do poeta que reside e resiste o seu chamamento. O poeta resiste porque chama. Esta é a sua chama: o seu chamamento paciente...

Ele pisca, a sua luz é aparentemente frágil, como a do vaga-lume diante do néon, diante de um holofote. Essa luz atuando que precisa ser reparada, e, se for possível, repensada. Reparar é a cortesia da distração. Talvez chegue o dia em que a poesia descerá sobre a terra e o poeta deixará de se esconder nas academias, nas agremiações, e poderá viver nos lugares onde a vida escorre...

A aparente inutilidade da poesia é a chaga da sociedade, é a sua ferida que não cicatriza, é o seu machucado infame.

O machucado infame da sociedade. As pessoas passeiam no shopping. O poeta apenas observa. Todos parecem que estão em estado de ‘Natal’: comprar, comprar, comprar. A observação do poeta é o fato invisível, é o fato desprezado, o seu olhar não reluz nas vitrines, nas luzes coloridas, nas atrações do shopping. Ele, o poeta, não quer uma ágora (meu computador não aceita àgora. Esqueceram de colocar a antiga praça grega no rol de palavras válidas), talvez procure a nova musa. A musa necessária, a musa urgente agora é outra, é a chuva, a feira, a fábrica, a tecelagem, as fibras e os sulcos nos rostos, a terra, enfim, a vida, o mundo, o planeta, a Terra.

Talvez o poeta tenha finalmente adquirido a consciência da nova musa.

As pessoas que estão no shopping talvez não tenham consciência da necessidade da poesia e talvez digam que a poesia não seja afinal necessária, como dizem da filosofia, e talvez tenham uma relação falsa com a poesia, uma relação murcha, quebradiça, ingenuamente hipócrita, e se relacionem apenas com a leitura do dever cumprido.

A leitura do dever cumprido é ler muito raramente algum livro de algum poeta famoso e muito citado e assim se fica com a impressão do dever cumprido, por se ter lido Drummond ou outro poeta consagrado, e talvez seja até possível se decorar algum trecho ou alguma frase ou até mesmo algum poema e depois num encontro entre amigos possa então se citar o autor e assim talvez seja a relação com a poesia, essa coisa que exige calma, paciência, e tempo, ou seja, o avesso de tudo, o avesso da correria, da falta de tempo,

Ou então, haja uma também ingênua relação com o livro, uma deformação contemporânea, na qual o livro aparece como o objeto de consumo lembrado em datas especiais para ser dado como presente para alguém, como se dá qualquer outro presente, o livro perde a sua essência, assim como a música o seu significado na compra vulgar do CD. Você presenteia alguém com um livro sem se importar com algo além disso. E será melhor ainda se livro tiver uma capa atraente, o que significa, luxuosa, o luxo passou a ser necessário e substituto do verdadeiramente essencial, pois não há tempo para os dois na mente que vagueia no mundo quando o mundo é um imenso Shopping.

O essencial seria a ilustração histórica, profunda com extremo valor literário, bem...

O que estou dizendo é que o luxo passou a ter uma importância descabida, tomando o lugar do que é o essencial. A convivência harmoniosa entre os dois na mente da multidão parece algo distante. Quem presenteia o livro sem amar o livro, coloca o luxo acima do esmero na mensagem. Melhor o livro com uma capa atraente, luxuosa. E o ideal seria ver a criação artística da capa, com a sua mensagem.Isso devia ser o rosto do livro na mente da multidão.
 
Uma sociedade que ignora o poeta ou não o valoriza é a mesma que convive com a violência e o descaso.

A ausência do poeta já é uma violência, uma deformação; que adianta luxo, luzes, vitrines, se o poeta está ausente, se a poesia está ausente?

O descaso com os produtores da poética é simbólico na sociedade que suja as calcadas, que suja a cidade, ignora os torturados, e finge hipocritamente que a criança que dorme abandonada nos cantos imundos da sociedade não é também o seu filho e não vê, porque a vista está embaçada, que a criança veio ao mundo para nos salvar. E também não tem nada a ver com a morte dos presos, pois afinal guarda dentro de si estranha semente da pedagogia do castigo e o inconfessável prazer pelo sofrimento que não lhe afeta.

Sociedade sem literatura, sociedade sem poesia... Como se ignora os escritores, como se ignora os poetas...

O poeta e o escritor, pelo fato significativo de não se esconderem no mundo acadêmico, viverem nessa situação intermediaria, de produção intelectual, de refinamento da linguagem, porém no mundo do leigo (embora confusamente recolhidos em academias, grupos, agremiações, etc), sofrem.

É curioso o fato de que alguém possa responder o nome de Drummond ou Machado de Assis (é sempre o mais citado como sinônimo, como confirmação de leitura, de convivência com os livros, de apaziguamento mental, o grandioso Machado de Assis) e então cite talvez Jorge Amado e ultimamente com mais freqüência Paulo Coelho e entre as mulheres, quem? Quem? Talvez, talvez, Cecília Meireles... Infelizmente é assim (embora, na minha pesquisa pessoal um jovem tenha respondido Ana Maria Machado).

A resposta Machado de Assis é um vicio, um hábito, um vicio circular (Atenção! Nada a ver com o valor do escritor! O que estou querendo passar é um acontecimento cultural vigente em nosso modo de ser contemporâneo), um costume adquirido, um senso comum, estabelecido, fincado.Talvez adquirido, quase com certeza nos bancos escolares (a idéia de bancos escolares sempre me remete ao grandioso mestre Paulo Freire, em suas considerações sobre a educação bancária). Algo parecido se dá com a repetição quase mecânica nas discussões sobre nomes de bandas e artista da música, aqui no caso, obedecendo aos desígnios midiáticos. 

É errado também se considerar o poeta como dono da sensibilidade, ele é apenas o ser sensível em si, que expressa, que se manifesta, que manifesta a sua sensibilidade de uma forma especifica. A poesia é a sua forma de dizer. Ele só consegue dizer poeticamente.

Inútil pedir que ele diga algo cientificamente ou politicamente ou academicamente, pois ele só sabe dizer poeticamente. É isso o que o distingue na multidão. Não é a sensibilidade em absoluto.

Carreguei comigo durante anos o entendimento de que eu, por ser poeta ou considerado assim, fosse o dono da sensibilidade, o portador máximo da sensibilidade,

Poderia talvez ser o seu catalisador, oferecer-me como palco para a representação da sensibilidade, mas não, em absoluto o dono da sensibilidade, o que fatalmente criaria estereotipo sobre o poeta, que passaria a ser o representante da sensibilidade, como se cria estereótipos sobre o cientista, que aparece como um lunático, e isso atende a interesses esotéricos, místicos, e assim...

Foi preciso ter convivido então durante anos com pessoas que têm uma sensibilidade acima da minha, para compreender o quanto eu estava errado e o raio de visão da gente às vezes é muito curto.

...Ter convivido com pessoas extremamente sensíveis, porém que não se manifestam como poetas, não se manifestam da mesma forma que eu.

Não dizem com as palavras o dizer poético, mas dizem com os gestos, com o modo de ser e viver, dizem o dizer poético. Cabe ao poeta então registrar isso, a forma dessas pessoas dizerem poeticamente a vida.

 
(julho/2001)


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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