Está frio, um dia chuvoso, ideal para o
livro. Tenho duas opções. Uma, A Presença dos IRMÃOS GRIMM na Literatura Infantil e no Folclore
Brasileiro, de Adelino Brandão (EDITORA IBRASA).
Faz tempo quero ler este livro. O livro é alimento, por isso a expressão Devorar um Livro, a Literatura é nutriente, alimento. Clarice Lispector sempre soube disso, Cecília Meireles também.
Falando nela, chegou o presente enviado pela Fernanda, presente para a Melissa, uma centopéia.
Mas Cecília sabia, Clarice também. Elas sempre sabem. Há também mulheres que acreditam que literatura seja apenas lazer, divertimento, dirão.
É provável.
A segunda opção é DOZE CONTOS PEREGRINOS, de Gabriel García Márquez
(EDITORA RECORD); para um dia friorento e de chuva, é um bom aquecimento da alma, um bom alimento, provavelmente o melhor.
Olho para o balcão. O verde branco, a profundidade do olhar de Berther Morisot é o signo que fica na memória afetiva do dia que passa
hoje. O alimento se anuncia. O balcão não está aqui fisicamente, está dentro de mim, o verde e o branco e a leveza mesclada à profundeza da beleza de Berther Morisot vieram compor os ingredientes do alimento que se completará com os doze contos peregrinos ou com os GRIMM,o livro de Adelino é para estudo, quem quiser pode começar por ele, penso
eu. O de García é toda suavidade que podemos exigir num dia chuvoso como esse que em Sampália se nos apresenta.
A chuva é comovente, e sentir a chuva é algo sem preço, é como a caminhada sob o sol que falava Caetano no retrato musical que fez para o Roberto
Carlos. Sentir a chuva, aguçar os sentidos, com os olhos transformados em olhar, percorrendo as linhas, cada palavra, de um
livro, ouvir a chuva, sentir o frio na pele, o frio ultrapassando a lã, o algodão, o tecido, e invadindo a pele, nos fazendo lembrar da existência do vinho, do irmão da música, do irmão da poesia, do irmão da alegria...
Os guarda-chuvas azuis de Renoir, lembrar deles hoje, nesse exato momento de frio em que escrevo, lembrar do frio azul, das tonalidades suavizantes, que o pintor colocou no quadro, lembrar de uma mulher no meio da multidão, de uma menina toda protegida contra o frio, as dezenas de guarda-chuvas dos parisienses, onde estava Renoir? O pintor que um dia decidiu pintar a alegria e é assim que tem que ser, mesmo quando você pinta o dia da sua fúria, mesmo quando você pinta os horrores, como a desolação de uma guerra, você está pintando a alegria (Não a alegria da guerra), pois a pintura é uma manifestação da alegria
humana. A pintura é como a música que é como a poesia que é como a literatura que é como a filosofia.
O filósofo fala da vida. Ele não pode falar da morte. Ele só pode falar da vida, pois se não fizer isso, estará comprometendo o seu próprio estatuto, estará traindo a sua
condição. O filosofo é o ser da alegria, às vezes indecifrável, diriam, sim, às vezes sim, há filósofos que falaram de coisas profundas, porém utilizando uma forma inatingível, de difícil leitura e decifração, como, por exemplo, na literatura, um escritor muito badalado e imitado, que foi infeliz porque não conseguiu falar ao
leigo, a sua literatura se tornou difícil, e portanto é triste, e a literatura, como a poesia, tem que ser feliz.
A alma portuguesa, que atua fortemente em mim, é do meu gosto, do gosto da minha alma, da minha mente. O romantismo, melhor, uma forma de sentir muito própria, isso, é lógico (deve ter a sua lógica), é português, veio dessa alma linda que é a portuguesa, para mim, a cada dia que passa, -na expansão da minha compreensão-, a alma da alegria. Comecei a reparar isso com os poemas de Eugénio de Andrade, bem, Eugénio trouxe-me
Portugal, e não larguei mais a idéia da alegria, conheci Eugénio de Andrade no dia 5 de novembro de 1985, eu estava no Rio Grande do Sul, melhor,
estava em Portugal, foi então que soube da existência desse homem, desse poeta, desse querido poeta,
Voa coração ou então arde. Quando, no estande da Fernandinha, na Bienal, ela me abraçou forte só porque falei que sabia quem era Eugénio de Andrade.
O filósofo é aquele que fala sobre a vida, só a vida interessa para ele, é o ser para a vida, o poeta também, com os seus girassóis (o girassol é a minha flor, foi preciso anos de vida para que eu chegasse ao girassol. Hoje, pelo fato dele estar sempre virado para o sol, tornou-se para mim o símbolo do poeta), o escritor
também, e também o pintor e o cantor – tenho pelo cantor um respeito profundo, porque ele simboliza a alegria, ele traz a alegria, ele carrega e nos oferece com a sua voz a
felicidade. Como eu amo os cantores! Veja agora, escrevo, falta-me a música, a voz humana que
canta. Lembro-me de uma multidão no meu bairro para ver Angela Maria cantando em cima de um caminhão, Que voz maravilhosa!, ela é a felicidade que registrou na memória afetiva aquele dia, milhões de instantes naquele dia e milhões de coisas acontecendo no mundo, mas o dia ficou na minha memória da felicidade, porque a Angela Maria cantou na tarde que eu
vivia. E muitos acreditavam que um anjo cantava na voz de Maria. Possivelmente ela nem se lembre que esteve um dia na terra dos carvalhos.
Recentemente tive publicado no jornal Correio do Sul, que eu amo, e quero registrar aqui o meu amor (Um jornal é apenas uma empresa, é nada, um jornal é muito mais, está muito além disso, de ser apenas uma empresa, ter amor por um jornal por causa da crônica lida é algo que ultrapassa a vivência comum das pessoas.Talvez nem o próprio jornal saiba da sua importância!), então o
Correio do Sul publicou o meu artigo AS CASAS DE TIMÓTEO, no qual falei da importância musical de Agnaldo Timóteo para a felicidade do Brasil, para um certo jeito de ser do Brasil, e falei no artigo, do tempo em que a voz de Agnaldo penetrava em todas as casas, na casa de Irene, por
exemplo, e escrevi esse artigo com muita felicidade, e é provável que os que me acompanham desde o ano de 1985 tenham estranhado, mas eu assumi a felicidade de ter um dia ouvido Agnaldo nos verdes campos do meu
lar. E assim é para mim o cantor, o ser da alegria, a alma oscila, e a música encontra o seu
espaço, e ao cantor se permite o direito de cantar os amores ,e todos merecem o seu espaço, não posso passar a vida inteira lendo, e o meu coração estremeceu quando pela primeira vez ouvi a viola de Tião
Carreiro, mas, diriam os amigos, falar de Agnaldo ou de outros cantores não seria assumir um lado Brega, de gosto do brega, do romantismo rasteiro? Como é possível, para quem quase só ouve música clássica, Mozart, e música Brasileira, a chamada erroneamente de popular, como é possível que alguém que ouve Chico Buarque e por aí, possa ouvir bolero e baladas chorosas, de amor que chora, que
sangra, de onde vem essa necessidade?
Vem das profundezas dessa alma herdada, dessa alma portuguesa, responderei
simplificando. E essa alma portuguesa que me invade diariamente, que convive harmoniosamente com o que eu sou, com o intelecto, essa alma que quer e impõe que eu tenha um amor profundo por aqueles que cantam o amor do homem pela mulher e o amor da mulher pelo homem e
assim, indica-me o caminho por onde deverei passar para recolher a literatura e escrever os romances que não posso por falta de
tempo, e fazer como todos os escritores, como Mario Vargas Lhosa, como Galeano, como Gabriel Gárcia, para ficar nos queridos latinos, que sempre souberam que a literatura se recolhe nas feiras, nos mercados, nas creches, no meio do povo, no povo, na sua música, na sua alma exposta nas
rádios. E todos eles têm um débito imenso com essas pessoas que vivem a sua vida, a literatura deve muito à vida.
Mas então um compositor famoso quando elogia Sandy e Junior e É o Tchan, está certo? A coisa de elogiar os artistas, que eventualmente possam ser da sua própria gravadora é algo mais complexo...
Estar em Nápoles, noutro tempo, como é possível isso? É possível com Brueghel,
que, com suas cores me leva até Nápoles, é, como Renoir, para mim, um representante da
alegria, pois me oferece com a sua arte a alegria de viver, mesmo quando em seus quadros expõe a desolação, a tristeza, a ironia, a ceifa de julho e o
sofrimento. Por ter exposto assim, em forma de arte, fez com que o signo ficasse na alegria, a alegria de um dia eu ter podido olhar a sua pintura.
Brueghel, as pessoas carregando cestos de vime, as mulheres com ancinhos, e chapéus de palha, o encanto sendo a paisagem, horas eu ficaria se as tivesse atualmente, horas eu ficaria olhando todos os detalhes, toda a riqueza da sua pintura, cada novo pássaro descoberto, as folhas das árvores, as flores vermelhas na beira da estrada, a ponte sobre o rio, só por ter registrado as folhas vermelhas na beira de uma estrada, Brueghel já se tornou para mim o representante da alegria.
Certa vez participando de um encontro talvez em Perdizes ou Pinheiros sem me anunciar para evitar vida social, pois era um encontro que reunia muitos poetas e escritores, não me lembro bem, então alguém comentou que não gostava de Fernando Pessoa e preferia outros escritores portugueses porque Fernando Pessoa trazia tristeza, coisa assim muito triste, enfim, algo assim foi o comentário, e pensei na época que, talvez seja necessária sempre uma releitura, uma eterna reciclagem, a poesia talvez exija
issoDepois, talvez por essa época, dias depois, como conseqüência imperceptível daquele comentário por mim ouvido, lembrei de uma cena na Penha, eu, bem menino, e Bienvenido Granda, cantor com bigode repleto de boleros. Fez uma multidão nas ladeiras da Penha.Tanta gente, tantas mulheres, toda a gente sofrida estava lá naquele dia na
Penha, as mulheres dos varais, os motorneiros, todos para ver e ouvir Bienvenido Granda cantar a canção
que pedia para o garçom um copo para esquecer, a multidão levada pelo rádio para as ladeiras da Penha, e só agora eu compreendo que era a mesma multidão que estava no enterro de Francisco Alves e um dia também numa apresentação Celestina e no dia vinte e cinco de janeiro de 2001 no Parque do Ibirapuera para ver, sentir e ouvir o Roberto Carlos.
É a mesma multidão para quem cantou, o Agnaldo Timóteo, o Cauby Peixoto, a Angela Maria, multidão do tempo em que o rádio “era diferente”.
Mas vou e volto, não sei o que acontece, agora me invade O Almoço dos
Remadores, um quadro se não me falha a memória, de 1881, um domingo às margens do Sena, uma obra prima de Renoir (não compreendo porque ele insiste hoje nessa manhã friorenta de chuva), executada no terraço de um restaurante, nome francês, num lugar de nome francês, e agora a memória não auxilia mesmo, bem, os modelos, todos amigos de
Renoir, um sol, um verão, luz e calor, e aquele que pintou a alegria contagiante de viver, coloca em seu quadro os rostos alegres dos amigos num encontro que só por ter existido valeu a pena ter nascido cada um deles, parafraseando Fernando Pessoa.
Que vida! Que alegria! Que felicidade!
Se alguém reclama do frio ou da chuva hoje, que pena! Se alguém que esteja como eu abrigado em sua casa, é isso que eu quero dizer, alguém que no seu conforto reclama do frio ou da chuva, que tolice, que desperdício, que
insensatez. Só tem o direito de reclamar aquele que vivendo entre papelão e tábuas embaixo de viadutos, sem lã, sem algodão, está impedido de ver a poesia, está muito distante dela, mas se oferece para a literatura e para as
artes, que não permaneçam cegos os poetas, pois a cegueira é coisa de políticos, dos administradores, dos responsáveis por isso, por essa dor, esse sofrimento e esse
desamparo. O poeta é o responsável pela transformação dessa realidade em arte, o artista, o escritor...
Recolhendo a sua literatura, a sua poesia, o artista, o poeta, assume a sua forma de lutar e registra assim esse lado, essa realidade dura, essa dor inflexível, que devia envergonhar os doutores, os políticos, mas, não envergonha, e quando, se um dia isso acontece, um político lê um poema falando do frio que corta os ossos, que mata crianças, da fome insensata, da dor que enfeia a cidade, ele, o político, fingirá que não é com ele, que o poema não o acusa.
Renoir pintou a alegria contagiante e é necessário se proteger a vista, e ficar horas olhando ou pelo menos olhar, tentar, mesmo que mentalmente, olhar a alegria de viver de Renoir, é uma forma de proteção, pois a vista precisa se proteger, ser protegida, e sei para aonde estou caminhando, para um texto chamado VISTA
CANSADA, de Otto Lara Resende, um texto antigo, publicado certa vez na Folha,ou seja, eu li na Folha, e depois, muito tempo depois, recentemente, li em
Brasília. O texto suave fala de um certo modo de ver, o hábito suja a vista, o que nos é familiar já não desperta
curiosidade. Que texto lindo!
Ter os olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo, isso eu lembro do texto, acho que esse texto me influenciou
bastante, com certeza foi o início de alguma coisa, um certo modo de pensar, o poeta e o seu olhar, o olhar do poeta, igual ao olhar da criança, o poeta vê como a criança, por isso que o poeta intraduzível perdeu, o poeta indecifrável perdeu, pode ter ganhado num certo círculo
intelectual, bem, mas perdeu. O poeta que não falou ao leigo, ao homem simples, o poeta que não falou com os olhos de criança perdeu.
O poeta é isso, um modo de ver, ele vê onde outros nem se atrevem, ele vê onde outros não
conseguem. O poeta, um modo de ver, isso é Eugénio de Andrade, isso é Otto Lara Resende, isso somos nós, isso é o passeio poético, o correspondente ao passeio mágico.
A leitura na tela. Meus olhos sentem dificuldades, ou seja, ainda não foram transferidos, ainda não se habituaram. A leitura ainda não foi forjada, estou atrasado.
A leitura na tela, como é um pouco incômoda para mim, como é difícil esta travessia!
Também, quem um dia carregou segurando firme em suas mãos o primeiro gibi comprado na feira e no interminável caminho da feira a casa, aguardou cada instante, em cada passo, o momento de estar sentado no chão num canto da casa ou no quintal para ler o primeiro gibi, passar os olhos no papel, descobrir o mundo maravilhoso impresso no papel, e era o REIZINHO, o primeiro gibi, e nesse tempo terá surgido o costume e o gosto por sentar no chão e a Daniela, quando vou visitá-la, já sabe da felicidade e da alegria que eu sinto por estar sentado no chão da sala assistindo a um filme ou ouvindo música ou conversando e, se dependesse de mim, já pensei, os fabricantes de sofá iriam a falência, ou o sofá passaria a ser um enfeite bonito na
sala. Mas, quem ficava sentado horas no chão, lendo gibi aos seis anos de idade, como é possível que habitue rapidamente os olhos na tela? Como é possível que os olhos adquiram a mesma agilidade que têm no papel? Tenho uma falta de agilidade tremenda diante da tela para descobrir os erros, por menores que sejam, na tela (na escrita não há erros menores), uma virgula, uma palavra que a gente lê sem que ela esteja escrita, e o erro passa despercebido.
Outra coisa que surgiu agora nessa reescrita, pois quero que saibam que estou reescrevendo esse trecho que começou no parágrafo que fala da influência do texto VISTA CANSADA sobre mim e isso que surge agora penso ser oportuno: quando faltava a luz eu não perdia o gibi, eu segurava firme em minhas pequenas mãos o papel, e depois, mesmo que adormecesse no escuro, quando acordava, o gibi estava lá, comigo, firme, agarrado, protegido, intacto, amassado, mas
inteiro. E agora há pouco faltou luz por uns segundos, e eu que às vezes tenho mania de não ouvir, nunca segui adequadamente os conselhos da Daniela e não aprendi a salvar cada parágrafo, cada frase do texto, e segundo ela, cada linha. Não adquiri esse hábito de salvar instantaneamente, e quanto à falta repentina de luz, perdi um bom trecho do que já havia escrito e fui obrigado a reescrever e não saiu igual ao original, pois agora é outro momento e nos milhões de instantes que acontecem a cada momento, enquanto luzes quedam e estrelas desaparecem, libélulas flutuam e peixes prateados desenham riscos aquáticos no ar, no exato momento de milhões de instantes, não somos mais os mesmos, mudamos, a mudança não interfere no que somos essencialmente, mas sentimos diferente, com certeza, sentimos melhor, sentimos aperfeiçoadamente, mas não somos os mesmos, por isso, para o leitor não, mas para mim foi uma perda imensa a falta momentânea da luz.
Na tela, para encerrar esse momento, que está fortemente ligado ao fato de um texto meu ter sido recentemente corrigido por uma amiga que reparou com a sua leitura atenta alguns erros no meu texto, afirmo que o hábito forja a leitura, e os olhos
escorrem, passam várias vezes, deslizam e não percebem o erro, porque o hábito ainda não teve tempo.
Num encontro de professores, no qual tenho uma amiga e também um amigo, alguém comentou que é bobagem minha essa insistência no papel, pois o mundo é da tela.
A distância é um modo de ser. Nem isso. A distância é um modo de dizer. Mas a distância é fundamental, como regeneradora, como renovadora, a distância ajuda a clarear a mente, fortalece as coisas do coração, limpa a
alma, amo a distância. Seja um modo de ser ou de dizer - dizer fisicamente ou não, uma das melhores coisas da vida é a distância, ela é extremamente benéfica. A distância deixa o olhar limpo, transparente, quem a desconhece perde a oportunidade rara de fortalecer a sua compreensão da vida.
Rita Caetano, amiga na década de 80, idéias complexas sobre os mistérios da
vida. Hoje, lamentavelmente, diante do computador faz leitura de cartas, tarô, como a poetiza que escrevia poemas audaciosos em Caxias do
Sul, e hoje encontrou esse caminho, e Rita disse-me certa vez que deveríamos tratar os que convivem diariamente conosco, os nossos familiares, as pessoas que vivem em nossa casa, como se fossem visitas, deveríamos tratar os nossos familiares caseiros como visitas, como pessoas distantes. Deveríamos, acrescento agora, tratar as coisas e pessoas que estão perto, como se estivessem distantes, pois afinal o que está distante é sempre melhor!
Azul além do luxo, doze rosas, doze botões, o conto é sempre um botão de rosa. A semente na vida, no cotidiano, o conto é germinação, flor que nunca desabrocha, é botão, o eterno botão de rosa, como os botões da capa do livro de Gabriel García Márquez, da Record.
O almoço dos remadores, a paisagem diária, como a capa azul do livro de
García - a capa sobre a capa, podiam ser o papel de parede da tela do meu computador, nunca pensei nisso, mas a travessia vai lentamente tomando forma.
Um eterno botão de rosa e a floresta.Tenho uma fascinação GRIMM por
florestas. Todos nós, que gostamos de literatura infantil, temos essa fascinação por florestas, essa fascinação que eu chamo de fascinação GRIMM por florestas. Somos seres florestais por excelência, e a floresta eterniza, nos resgata, nos restitui, nos devolve a essência, descubro nessa manhã friorenta de quase agosto, que além de ser aquático sou também florestal, e como sou um ser do
ar, ou seja, algo etéreo em mim vive, sou evidentemente da literatura,
A floresta de perto é como as pessoas, fisicamente falando e também mentalmente, ou, se preferirem, espiritualmente.A proximidade é profundamente reveladora, e a distância é o resgate, a distância oferece a maravilha da descoberta, o estalo. Na distância surge a valoração, com ela se aprende a valorizar.
Pessoas que convivem juntas e não se descobrem, não se valorizam, deviam viver um tempo em distância, para então se
descobrirem. Na distância você descobre o outro.
Fiquei pensando como seria se eu me aproximasse da floresta, se eu entrasse nela.
Escorpiões, aranhas, besouro, cobras, lagartos, animais que vivem ocultos.
Animais pequenos que não aparecem na paisagem da floresta, na bela paisagem verdejante, na bela paisagem dourada, na bela paisagem azulada, animais que não aparecem na paisagem distante como as espinhas que não aparecem no rosto distante. E eles, os animais pequenos e alguns peçonhentos, também fazem parte da
floresta, ocupam o seu núcleo, eles também são a floresta, como as espinhas também fazem parte do rosto, elas também são o rosto, mas não fazem parte, não aparecem na paisagem distante do rosto.
A floresta se apresenta mais bela, quando está emoldurada, quando está distante, porque não oferece os animais rastejantes que metem medo e estão dentro da sua penetrabilidade, quanto mais longe, mais bela e melhor.
Fico às vezes pensando na fruta: o que é a fruta? É a protetora da semente.
Primeiro a casca, como um papel de embrulho, depois a polpa, uma espécie de caixa de proteção, e por último, no centro, a semente.
A casca que embrulha a fruta tem a mesma função da polpa, proteger a semente, proteger o mais importante, a
semente. Tudo foi constituído para a proteção da semente. Assim foi a fruta constituída, a semente forjou, construiu a fruta.
A semente não parece importante aos olhos desavisados, mas nela está o recomeço, a renovação, a continuidade da vida.
Compreender a semente, ou seja, atingir a semente, é viver com arte.
E penetrar na floresta após a vivência da distância, após a compreensão da importância da distância que mostra a bela paisagem, penetrar então na floresta é compreender que a mais frondosa árvore é igual em importância ao menor dos animais rastejantes, todos
são a floresta.
Da mesma forma, conviver com alguém após a distância é descobrir o quanto esse alguém é importante, e olhar para esse alguém é ver que os seus aparentes defeitos fazem parte do total que o alguém é.
Por isso acredito na distância como benfeitora do ser humano. Se ninguém quer a distância real, então é bom que se comece a tratar o que está perto como se estivesse distante.
E assim se aplica em todas as coisas da vida.
(agosto/2001)
Marciano Vasques,
escritor
e professor
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.com.br