No tempo em que gal rimava com legal eu vivia num estado de
encantamento. A travessia foi difícil. O ídolo estava por demais penetrado em minha
vida. Eu respirava pelo ídolo. Caetano, Gal, para citar apenas dois, interferiram bruscamente em minha formação cultural, já edificada por um
calhambeque.
Mas, havia algo além da cultura, havia uma necessidade de ter ídolos.
Minha mente foi condicionada pela narrativa do Fantasma, que me preparou para receber e acondicionar a cultura de
massa. Quando li as primeiras histórias do personagem de Lee Falk, eu estava sendo preparado para os meios de comunicação de massa, e então, veio a Jovem Guarda, e o Roberto Carlos simbolizando o
Fantasma, e depois Caetano, estabelecendo o dilema primordial na esfera musical do meu universo
cultural. A luta que se travou foi entre um trio, de um lado Caetano, do outro Chico e do outro Roberto.
A luta contra o Roberto Carlos foi a mais difícil, depois a luta contra o Caetano, algo impensável nos dias em que eu me dividia entre a luta contra uma ditadura militar de um lado e a adoração por
Caetano, ou seja, ao lado do combatente, estava o cambaleante, o que necessitava de ídolos, e a necessidade de ídolos era sintoma de alguma deformação da minha mente, ou do
espírito. Foi preciso varrer os porões da mente, tentar buscar os resíduos da infância, o primeiro olhar severo, o primeiro medo, a primeira palavra brusca, a primeira indecisão, a primeira incerteza, buscar nos esconderijos mais impenetráveis da minha existência, para desvendar o mistério da necessidade de
ídolos, e então, numa análise profunda, num vasculhamento intenso, arrancando com fórceps a compreensão, o entendimento, de que a necessidade, permanecia em cada ciclo, em cada nova fase da minha
vida, assim hegelianamente, e se um dia fora o Fantasma, e no outro o Roberto, depois o Henfil e assim por
diante, e então, em pasmo, perceber que Augusto Boal, e poetas, estavam todos no círculo repleto de cores da minha vida, como uma eterna permanência.
Foi preciso a interferência de algumas pessoas com suas frases ditas ao vento, para que eu definitivamente me libertasse do ídolo, como um dia ter ouvido alguém pronunciar as palavras que diziam que o
culto exagerado, o apego desmedido, a necessidade de ídolos representa algum problema sério, algo que se deriva das profundezas da alma, um desvio, algo oculto em nossa personalidade, algo que ninguém gostaria que fosse revelado, porque é melhor viver com os fantasmas, eles nos trazem segurança, é aparentemente mais seguro não voar.
E nessa compreensão veio a revelação tardia de que o apego excessivo aos ídolos está profundamente vinculado à necessidade de tornar-me prisioneiro de paixões, e então eu, fraco o suficiente para ter autonomia sobre paixões, já portador de um discurso que encantava as pessoas, e ouvindo pela primeira vez a palavra Carisma, quando o amigo que hoje é professor da Universidade Federal de Recife, disse-me que eu tinha carisma e me tornava uma pessoa especial, tal como Hitler ou Jesus Cristo, e poderia se quisesse arrastar multidões, e então, refletindo sobre a minha tendência natural para liderar que se manifestava em mim desde a
infância, e também pautado no comentário de Madalena, uma amiga que dissera que eu despertava paixões nas mulheres e nos homens, e isso embora se apresentasse enigmaticamente para mim, assinalava a reviravolta imensa que se esboçava em minha vida.
Ainda era o homem que precisava ler Espinosa, e enquanto num esforço medonho,
- fruto da minha inabalável força de vontade, tentei, incompreensivelmente canalizar para a arte o tal potencial, o carisma com o qual nasci, e afastar cuidadosamente a atividade política de minha vida, para não viver o horror desviante de me tornar um líder político, capaz de tranqüilamente arrastar multidões.
Homem sem Espinosa, lá estava eu, confusamente buscando o meu destino, ou seja, fazendo-o, fazedor de caminhos que eu sempre fui, por isso sobrevivi, e aparentemente inconstante para a legião urbana que sempre gravitacionou ao meu redor, a imensa legião de pessoas que não pensam, tornei-me o mais constante, o mais sólido de todos, embora recentemente tenha cometido um erro terrível que me trouxe sofrimento, que é ainda um resíduo da falta de zelo e de cuidado com o meu caminho, e a abertura estúpida que eu sempre ofereci para que os desvios tomassem fôlego.
Mas em 1985, um ano significativo em minha vida, pela descoberta do meu caminho, que se anunciou em dezembro de 1984, quando lancei o livro ESTRELAS LOCAIS, eu ainda totalmente desamparado pela falta daquilo que me é hoje mais precioso, a minha consciência, não me punha no mastro de Ulisses, e, ao contrario, buscava os desvios, traindo assim a confiança do belo caminho que me chamava desde criança, quando a poesia, as palavras se insinuavam.
Vivia no estado de encantamento passional, e foi preciso a experiência amarga e o desastre interior que uma “doença espiritual” me causou, para que a aprendizagem parcialmente se consolidasse e então, ao ouvir numa noite de ventania aquela mulher dizendo que eu era como eu escrevia, que eu era um homem igual ao que escrevia, ou seja, “Você é igual ao que você escreve!”, e então, ao ouvir isso, e ter compreendido naquele exato momento que nunca fui preparado para participar de jogo nenhum, talvez, percebo agora nesse instante, por isso os jogos não me
atraíam. E como a mudança nunca pode ser incompleta, pois se for assim não será radical e então não será efetivamente mudança, o fato de me libertar das paixões, no sentido espinosista,
(é preciso ficar claro aqui. Paixões negativas, doenças da alma, etc) por intermédio de um duro aprendizado que significou muita dor e sofrimento, está vinculado extremamente à libertação dos ídolos, pois só quem se liberta dos
ídolos, tanto dos ídolos do intelecto, como dos ídolos contemporâneos, os fabricados pela indústria de uma sociedade edificada sobre a manutenção da impotência do individuo, só quem se liberta dos ídolos,que são semelhantes às paixões (as prejudiciais) pode abrir, promover abertura em seu caminho e seguir sem o temor do vôo.
E então, na etapa final ser recebido pela compreensão de que a beleza, a arte, a poesia, são as manifestações artísticas humanas que não nasceram para ser adoradas, mas sentidas, estão no plano (podemos dizer assim?) sensorial, e onde tudo começa, o plano
sensorial, se planeja a vida como sinônimo de felicidade, e então, se estabelece a teimosia de que a poesia descerá sobre a terra, e isso significará felicidade, alegria intensa, e essa felicidade será comparada ao natal que nunca veio, aquele que jamais nos abandona.
Tenho uma dificuldade extraordinária de conviver com opiniões, melhor dizendo, o reino das opiniões não me desperta interesse, e, aliás, me incomoda, o reino da doxa, quero dizer, as pessoas geralmente transformam tudo em opiniões, a falta de leitura, mais que isso, a falta de esforço mental, a dificuldade de pensar, que é um habito instalado, melhor, sedimentado durante a vida de uma
pessoa, impede a reflexão e a discussão sadia, que significa o estabelecimento da visão do mundo, da
vida. Uma pessoa que tem uma visão do mundo, uma visão da vida, certamente não tem
opiniões. São coisas antagônicas, distintas. Então esse alguém deixa as opiniões para o futebol, para as coisas televisivas, e assim e assim, ou seja, a opinião está no seu reino.
Diante de uma mesa, diante de um grupo de pessoas, estou diante da minha origem popular, e não consigo, por imensa falta de habilidade, evitar temas e assuntos que seriam apropriados para uma conversa, que é diferente de um encontro casual com o reino da opinião, e toco em assuntos, os procuro, como se acreditasse utopicamente, como um resíduo idealista, remanescente dos meus dias de sonhador, que poderia provocar uma discussão saudável, sem que as pessoas participantes caíssem no liquidificador ou rodamoinho do reino da opinião.
E saio perdendo com isso, pois nunca tenho argumento para enfrentar opiniões, e só então, sempre tardiamente percebo o meu grave erro de jogar num encontro social, numa confraternização, num simples encontro entre amigos, temas e
assuntos, que só podem surgir numa conversa entre pessoas que tenham o pressuposto, o histórico da leitura, pois o que nasce da leitura não pode ser jogado no reino da opinião, e a falta de leitura é o ingrediente, o fator que cria a separação, a
distinção. O que não é fruto da leitura, da pesquisa e da reflexão, cai atordoado com facilidade absoluta no reino da opinião, o que é extremamente
prejudicial, pois nesse reino as coisas se misturam e se dissolvem na convivência, como, por exemplo, num noticiário de televisão, que, além de ser regado pelos intervalos comerciais, cria o antigo dueto, tipo a guerra num país, a tragédia, e o nascimento da girafa no zoológico.
Enfim, não é aconselhável, ao contrário, é prejudicial se levar ao reino da opinião assuntos que exijam dos participantes uma nova postura, a postura da curiosidade, a postura do esforço.
E o esforço sempre é necessário, a tomada de decisão, a atitude. A atitude é como a pergunta fatal:
O que vamos fazer?
- Quando você pergunta isso, você causa um reboliço interno, um terremoto.
É preciso uma adaptação das pessoas, é preciso que as circunstâncias sejam interpretadas como manifestações da
sabedoria, as circunstâncias são as oportunidades para que o movimento continue existindo, pois o movimento é o sentido das coisas.
As mudanças pessoais devem encontrar os seus correspondentes na vida social, cultural de um país, de uma época. Vejam, em exemplos canhestros, o reino da Coca Cola terminou em São Paulo na mesma medida em que terminou o reino da Secretaria de
Transporte, pois todos os reinos terminam se não forem justos. No primeiro caso, a população decidiu comprar o refrigerante mais barato, no segundo, a população aceita os perueiros, e então, que a Secretaria melhore significativamente a qualidade do transporte coletivo e a Coca Cola abaixe o preço dos seus produtos.
Todos os reinos seguem a tendência natural de serem substituídos caso a permanência não seja
justificada, e assim, também escritores costumam se proteger em grupos para impedir que novos talentos surjam, como se fosse possível se evitar que outros escritores apareçam para contribuírem com a renovação do quadro literário de um país.
Finalizando, o reino da opinião é extenso, e o seu território é praticamente
intocável. É o maior latifúndio mental em vigor em nosso tempo.
No tempo em que gal rimava com legal as coisas eram diferentes. Depois a neblina vai desaparecendo e o sol se impondo com todas as suas metáforas, toda a sua luz. E hoje, tudo tende a se nivelar. Nós, que vivemos o
sufoco exemplar, uma outra espécie de sufoco, nós que vivemos noutra espécie de noite, diferente daquela antiga noite do Tarancón, quando no teatro da Fundação Getúlio Vargas, a canção foi interrompida para o anúncio da morte do jornalista pelo exército nas dependências do DOI-CODI, e então o silêncio se fez e flutuou sobre o teatro, manchando com sangue e asco os acordes da canção amputada e percorreu os corredores até atingir a calçada onde um jovem vendia o primeiro número do jornal VERSUS, em cujas páginas estava o interessante artigo A INSTÂNCIA TIRÂNICA, e seguiu pela avenida Nove de Julho e a noite de São Paulo, que ainda não era Sampa, penetrou nos nervos e ossos de quem chorava e misturava em seu peito as vidas possíveis, como a do jornalista assassinado, e a da criança esfomeada que estendia a mão sob um logotipo da Coca Cola.
A fome sob o logotipo da Coca Cola e o rosto daquela criança traduzido no néon frio da noite da morte do jornalista que interrompeu a canção, são lembranças de um Brasil que nunca nos
abandonou. Hoje, há outras dores, outra espécie de sufoco, e nesse sufoco vemos a cantora Gal dizendo ao seu amigo que “Político é político e artista é artista” e que, portanto, o mundo é estático, nele não há movimento, ele, o mundo, -a vida-, é
estático. Não há harmonia musical, não há musicalidade na vida, cada um no seu lugar, cada coisa no seu devido lugar, “um copo vazio está cheio de ar”, mas canções talvez sejam apenas canções, mesmo quando bruscamente interrompidas. Talvez hoje a vida seja mesmo imóvel, sem movimentos reais, espontâneos, naturais, assim, numa aproximação bem grotesca, aristotelicamente.
E disse ao seu amigo que a poesia, o artista jamais será político, pois político é político e artista é artista. E tudo queda assim, imóvel.
O disco precisa vender, e apoio moral é diferente de apoio ético.
Apoio ético é direcionado ao povo, à humanidade (conceito abstrato), ao ser humano, aos animais em extinção, aos flagelados, aos pobres, os indefesos, dignidades em extinção, gente sem nada, sobrevivendo agarrada no vazio, como se fossem os trilhos abandonados ao sol e à ferrugem, nas ferrovias que morreram em nosso
país. As crianças, os migrantes, os operários, todos precisam do apoio ético, mas é o apoio difícil, porque a ética é difícil em nossos dias, em nossa época. A ilusão do acrílico, dos objetos translúcidos, do conforto e da prisão dos shoppings dificulta a abertura da cortina da
vista.
Não há critérios, não há ética, é um tempo de sombras, de fantoches, de desmoronamentos, é um tempo de moral, de apoios morais, o luxo distancia o apego, o afeto se vai, como acordes de uma canção desfeita no ar.
O importante é vender o CD, como vender o livro, o sabão, o refrigerante, a revista, vender é sinônimo de
poder. Quem vende tem poder, por isso o vendedor é poderoso. O empresário com tendências monopolistas tem poder, e implanta a sua rede de hipermercados no litoral e o litoral perde a sua beleza guardada na memória afetiva, e é amigo do
Rei, como o artista é amigo do coronel, do cacique. Ele pode se dar esse luxo, ser amigo dos poderosos, isso é um
privilégio. Um privilégio a disposição do artista, muito embora muitos artistas em suas caravanas poéticas, em seus comboios amorosos, optaram por serem amigos da vida e se apaixonam docemente pela dor que escorre em fiapos nos mocambos, mangues, favelas, vilas e fábricas, e ejaculam estrelas dissolvidas sobre a noite, legando ao riso e ao choro da gente linda que dança, canta e sofre nos cantos da terra, suas canções, seus poemas e suas peças de teatro.
Se artista amigo do Rei não vende, não tem poder. A indústria que inventa tudo jamais inventaria a pílula da ética, porque se a ética pudesse ser concentrada em pílulas por algum laboratório, talvez do “UTOPIA
IND. BRASILEIRA”, seria um fracasso de vendas, porque seria boicotado, e, por causa dos que impedem a difusão da ética, não despertaria interesse.
Mas, artista (poeta, escritor, compositor) é como professor, tem o dever de sinalizar com a ética, oferecê-la ao mundo, colocá-la acima dos interesses do vendedor.
O fato de que olho com desconfiança aquele que segura o chicote está ligado à minha defesa intransigente do cavalo, e isso às vezes me preocupa, pois temo o destino de Nietzsche, mas sigo em frente, denunciando sempre que é possível a hipocrisia do livro didático que sempre mostra o cavalo azul, cor de rosa, o cavalinho, mas esconde o chicote, e na realidade nada diz sobre o cavalo. O livro
didático, de um modo geral esconde o cavalo, por isso disse minha amiga Márcia, psicóloga e professora: os alunos que abandonam o livro didático começam a
pensar. Essa história do cavalo no livro didático faz-me lembrar do poema de MOÇAMBIQUE.
Mas, voltando, quando em 1987 na Praça do Morumbi, na Vila Jacuí, em São Miguel Paulista no extremo leste da periferia do município de São Paulo, o cantor Roberto Carlos, apoiando a campanha de Antonio Ermírio de Morais, para a presidência, subiu ao
palco, uma multidão o esperava e Roberto cantou o seu apoio político e então me pus a pensar, bem depois, sobre a importância da amizade na constituição dos rumos da sociedade brasileira e na vida das
pessoas. Mais adiante pude observar com nitidez como é ampla a influência da amizade nos destinos políticos do país, e não tardou para compreender essa influência no mundo literário e artístico, e o que me interessa mais de perto, o mundo literário, passou a ser motivo de reflexão principalmente quando percebi que não importava ter talento ou uma poética de superior qualidade se você não fizesse parte de um determinado grupo, e o fato da necessidade de grupos específicos para que a sua poética pudesse fluir e penetrar em periódicos, etc, foi me afastando cada vez mais desse tal
mundo. Mantido em distância pude ampliar a minha compreensão e cultivar sem remorsos os verdadeiros amigos.
A amizade, ela deve ser evitada em setores da vida, setores decisórios para a vida política do país, por exemplo, ou seja, a amizade precisa ser recolhida, ser protegida e preservada, longe dos refletores da coisa pública, pois ela interfere quase sempre inadequadamente, por isso o provérbio popular tem a sua sabedoria, “amizade é amizade, negócios à parte”, qualquer coisa assim. E assim, amizade é amizade, política é política, e quando a amizade é manifestada, quando ela
inocentemente se transforma em política, a coisa desvia e causa estragos.
Que importa que o artista coma acarajé com ACM? Isso tem que ser preservado, é coisa
íntima, o importante é que ele, o artista faça isso na sua vida privativa, em privacidade, sem exposições, porque se você expõe você transforma em política, e em determinadas circunstâncias, mesmo que você
negue, por causa da sua necessidade de vender o seu produto, o seu disco, etc, em certas circunstâncias, você age propositadamente.
Não interessa para ninguém que o artista seja amigo do político. É, no entanto, um direito dele ter as suas amizades. Se quer revelar a amizade que o faça apenas, mas apoio moral público no palco da admiração nacional causa estranheza, estilhaços, enormes estragos, fraturas, profundas seqüelas, hematomas irremediáveis.
Gal, a palavra gal, não rima com legal, digo isso com profunda tristeza no coração, mas, veja, o artista é político, toda arte é política, é diferente de ser político
partidário, a política partidária acaba com o artista, isso é outra coisa, mas negar o artista como ser político é algo estranhamente
confuso. Fico a pensar que todos os que moram em mansões tinham que ter sensibilidade para a dor e o sofrimento da população.Talvez então quem sabe aproveitassem o momento atual para pensar no
tijolo. Você pode morar numa mansão, mas não pode se esquecer do tijolo, não pode perder a consciência do
tijolo. E tijolo em nosso país tem um nome: Paulo Freire. Quem é afinal Paulo Freire? Paulo Freire é tijolo, o tijolo que incomoda as
consciências, o tijolo que denuncia a sua própria existência; a mansão foi erguida, mas o tijolo está lá, o tijolo que atravessou varais, morros, periferias, favelas, campos, igrejas, escolas, fábricas, o nosso tijolo.
Paulo Freire, o nosso belo e comovente tijolo, estaria hoje com 80
anos, e surgiu no cenário educacional brasileiro com a sua pedagogia do oprimido na década de 60 causando um susto imenso nos militares e uma admiração profunda entre os
educadores Eu, que sou filho de Paulo Freire, fui imediatamente catalisado, melhor, tornei-me estado de encantamento, com o cheiro do tijolo e estive nas olarias durante anos, e vi com lágrimas e risos o seu tijolo se ramificar por este país de
verdes e amarelos maltratados e
então, a sua perseguição política e o seu exílio do Brasil. Isso mesmo, jovens da era atual, aconteceu com Paulo Freire o mesmo que aconteceu com Monteiro Lobato, perseguição, como sempre foi assim na historia humana, tente saber algo sobre Giordano Bruno e, mais longe ainda, sobre Sócrates.
Com o coração sangrando, de saudades da sua terra, Paulo Freire, aproveitou no exterior o tempo de dor e de exílio para torná-lo produtivo e espalhou a sua teoria em todos os lugares por onde passou e a sua palavra chave iluminou corações e abriu mentes em vários idiomas.
Conheci Paulo Freire pessoalmente em 1990, quando ele estava de novo entre nós, como secretario de Educação Municipal no governo de Luisa Erundina, e esse encontro se deu na
Penha, no teatro da biblioteca conhecida como Martins Pena, porém cujo nome verdadeiro é Guilherme de Almeida, e que fica no mesmo prédio da BIJ Senhora Leandro Dupré.
Setembro está chegando e com a primavera o seu aniversário. Como ela está vivo na memória afetiva de muitos professores e pessoas que foram seus
alunos, gente que vivenciou o momento maravilhoso da sua pedagogia, no exterior, em várias regiões, eventos são preparadas para comemorar, para festejar o octogésimo aniversario desse imenso amigo que se fez tijolo.
Gerald Thomas, o amigo da Gal, muito respeitosamente, precisa ouvir que um copo vazio está cheio de ar (Gil) e compreender o que é
política, pois a sua visão infelizmente é muito curta nesse aspecto, e ele a manifesta ao dizer que política é
nojenta. Sim, a política que é nojenta é a política partidária (E como o meu pensamento é quase sempre imperfeito, virão outros para comprovar argumentativamente que nem toda política partidária é nojenta).
A política que é nojenta é a política partidária, isso é outra
coisa. Política é algo além, um gesto é político, respirar é um ato político, um abraço é político, a vida é política. Viver é um ato
político. Um copo vazio cheio de ar é política. Quando o poeta Eugénio de Andrade envia um cartão postal para o seu amigo, esse gesto do poeta é um gesto
político. Quando o poeta coloca em seu cartão postal as seguintes palavras: “Querido
Poeta: Quero que o próprio ar saiba o quanto amo a sua poesia. Escrevo-lhe por isso um postal. Não carta
fechada. Não ao ouvido”.
Esse gesto do poeta é um gesto político, porque a política está em tudo, até no copo vazio que está cheio de
ar. Ah, Gal...
(agosto/2001)
Marciano Vasques,
escritor
e professor
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.com.br