Marciano Vasques


NA NOITE EM QUE MORREU JORGE AMADO

 

Na noite em que morreu Jorge Amado, perguntava para um grupo de cinqüenta pessoas adultas, alunos do oitavo termo de suplência, se alguém sabia quem foi Paulo Freire. Ninguém sabia.

É coisa nossa. Nordestino, brasileiro. Considerado um dos maiores educadores do mundo, aplicou seu método educativo, sua teoria pedagógica do oprimido embaixo de árvores, ao ar livre em regiões distantes, na África, em paises de fala espanhola. Homem para ser festejado em vida, para estar orgulhosamente impresso nos rostos dos jovens, e na serenidade dos idosos. Ninguém sabia.

Fui imprudente. Talvez até indelicado. Às vezes a suposta indelicadeza é necessária, tem a função de sacudir, de sacolejar. Comentei, asperamente (confesso, um pouco arrogante, como acabamos sendo em certas circunstâncias, por não suportar tanto descaso e tanto sucateamento mental, como se já não bastasse o sucateamento da vida, exposto nas crianças que vivem em extrema miséria, chão batido, cru, sem nada, com fome, no país do luxo), que Adriane Galisteu, e artistas televisivos todo mundo conhece. Aquilo que geralmente é edificado sobre o nada, todos conhecem.

O Brasil é amado por seus escritores e educadores e amado foi por Paulo Freire, mas o Brasil ainda não aprendeu a amar. É um aprendizado que exige paciência, 500 anos é um tempo muito curto.

Na noite em que morreu Jorge Amado, o Brasil não teve tempo para refletir a sua falta de cuidado com os seus escritores, e um país que não ama os seus escritores, é um país torto. Não precisa ser uma Dinamarca, mas é preciso amar em vida, prestar todas as homenagens em vida. Acariciar o escritor, o escritor é o sujeito que entra dentro da sala de aula em forma de livro, é o sujeito que reflete como lago transparente, como espelho, a vida e a alma do país. E falando em lago transparente, esse país precisa parar de ser Narciso, em vez de ficar se admirando, idiotizando as pessoas com suas idéias errôneas sobre o que é ser um país, como por exemplo, pregar que o país é verde e amarelo, carnaval e futebol e bunda, enfim, e abandonar o seu espírito de Narciso, sinônimo de sucateamento mental, e mostrar-se gigante pela própria natureza, país que tem favelas e desdentados e que sente orgulho dos seus escritores, das suas mulheres e dos seus homens que o escrevem.

Jorge Amado é uma prosa diferente de Graciliano Ramos, diferente de Guimarães Rosa. A sua importância está no seu amor pelas coisas da terra, no seu jeito de mostrar a Bahia e ele se encerra nessa cortesia, mostrou o corpo suado do baiano, o vigor do negro, a beleza da mulher, o candomblé, enfim, isso é amado por todos que o leram com o coração aberto. Seus capitães de areia não concorrem com os meninos abandonados em São Paulo, ou seja, a vida real que se apresenta atualmente é mais forte ainda dos que suas páginas, mas, a maioria não aprendeu, como queria Paulo Freire, a ler o mundo, a ler a vida, e pode tranqüilamente dizer que Capitães de Areia é uma historia de um livro escrito por um escritor baiano, sem verificar que a história continua...

Jorge Amado, Paulo Freire, é um Brasil que está indo embora. O MOBRAL copiou o método Paulo Freire. Colocou em suas cartilhas o seu método assim, deformado, extraiu a idéia da palavra chave (tijolo, comida...) e retirou a essência. Não contava é claro o governo militar que muitos alfabetizadores que entraram no Mobral jamais abandonariam o mestre Paulo Freire e essa gente recebendo verba de terceiro, penetrou com alegria no coração, nas favelas e abriram classes nas igrejas, nas sociedades amigos e levaram a essência do método Paulo Freire para as comunidades e alfabetizaram os heróis da noite, utilizando o material do MOBRAL federal, enquanto a música brasileira dizia: você me prende vivo eu escapo morto, você ergue o muro eu construo a ponte.

E esses alfabetizadores foram recebidos pelos braços abertos da igreja católica e pelos dirigentes comunitários e entidades onde estavam as pessoas que resistiam com o coração em febre pela vontade incontrolável de ver o povo feliz. E cada vez que o nome Paulo Freire era mencionado quase num sussurro, causava em cada um uma emoção e um orgulho que escorria pela face e todos se sentiam como um mocinho e uma mocinha com a cabeça cheia de sonhos e vontades de mudar o mundo para melhor. Paulo Freire era a palavra linda, o nome que não se podia mencionar, mas estava presente em cada reunião, em cada coração dentro de cada peito sujo de giz e de poesia. E cada vez que um alfabetizador entrava na sala de aula trazia apertado entre as mãos o coração pleno de certeza de que o povo seria feliz.

Mas, na noite em que morreu Jorge Amado o Brasil já estava mudado, já havia se transformado, as conquistas fundamentais da dignidade humana, conseguida com luta e sangue de tantas pessoas já se dissolviam entre os dedos habilidosos do controle remoto. O país passou a ser movimentado pelo controle remoto e tudo ficou paralisadamente xúxico, tudo precisou retornar urgentemente, mas a comodidade é algo que interfere no caráter político, digo, de essência coletivista do homem e também no seu caráter de individuo, preciosidade insubstituível. Não foi apenas Jorge Amado, que morreu, algo com ele também se vai, algo que já estava partindo, no verde semelhante ao vômito do palavreado estéril, da divagação sem rumo, da intelectualidade infrutífera, um amarelo amarelecido, como jornais abandonados.

Na noite em que morreu Jorge Amado eu nem esperava uma lágrima de surpresa, e realmente me surpreendi, tive que rever toda a minha vida nos últimos anos, perceber com firmeza a sua autenticidade, e ver no emaranhado diário das coisas, o que se perde, o que desfalece, o que nos abandona, o que se dissolve, tentei verificar até onde o novo Brasil penetrou dentro de mim, até onde, em que parte, em que localidade da minha alma o abandono se cristalizou, até onde eu aceitei que o risco do esquecimento apagasse o brilho sincero da minha alma riscada pelo fósforo indelével daqueles que nos transmitem esperanças e felicidade com seus livros, suas canções e suas artes. 

Tentei recuperar os tentáculos, os feixes incandescentes das noites de um outro Brasil, as ramificações luminosas que me trariam de volta as mãos de Victor Jarra e tudo o que se traduziu em Paulo Freire, como o rosto da mulher castanheira, o rosto do pescador, do pedreiro, da mulher favelanda que jorrava o leite branco sobre o azul de um entardecer de crianças correndo com os pés descalços na poeira de uma vila da periferia.Paulo Freire! Paulo Freire...

Bem depois ele esteve como secretário de educação do município de São Paulo e já era um símbolo, uma lenda viva, comparecia nas reuniões, nos círculos operários cristãos, e era apresentado pelas mulheres de rosto de cera e olhos cheios de brilho, que decidiam os rumos da educação municipal em São Paulo e por causa do momento raro vivido saíam da PUC rumo à vida que tentava recuperar o passado sem compreender que a maioria dos novos educadores havia sido picada pela serpente do sistema e muitos estavam na carreira do magistério apenas para garantir um hollerite, um sustento financeiro, e o amor já era diferente e as contradições começaram a ser percebidas por uns a partir de alguns detalhes,.

Enquanto circulavam rumores de que a Educação de Adultos era a menina dos olhos de Paulo Freire, classes de suplência fechavam nas escolas municipais, pois por essa época os monitores de Mobral passaram para a Secretaria de Educação e trocavam a liberdade que haviam conquistado durante anos no trabalho de educação de adultos nas entidades das comunidades, pela segurança da estrutura da Secretaria de Educação, que fornecia, além dos prédios das escolas para os alunos, todo o aparato administrativo e de legislação para os professores, colocando –os na rede, mas como quem cai na rede é peixe, muitos se sentiram peixe fora da água e tiveram uma dificuldade imensa para se adaptar ao novo universo, no qual classes de Educação de adultos fechavam pela vontade que não representava a do Professor Paulo Freire.

Viver em sintonia com Jorge Amado, saber que você vive simultaneamente com um escritor mesmo que em regiões distantes, é algo maior, que jamais precisa ser abandonado. Você acorda, toma o café, vai ao trabalho, mas está vivendo simultaneamente com os escritores, com os jornalistas que registram o dia, com os atores e produtores lambuzados de sonhos que erguem suas peças de teatro para fazer você rir e chorar enquanto, ao misturar como em massa de bolo o riso e o pranto, o pasmo e a alegria, vai aperfeiçoando a sua consciência, e se tornando sujeito da história.

“Mas, todo mundo vai ao circo, menos eu, eu não tenho dinheiro para comprar livros, muito menos para ir ao teatro”. Isso tem um culpado, mas não é o escritor, menos o produtor de teatro.

Na noite em que morreu Jorge Amado ainda tamborilava em minha mente a leitura de um livro da nova coleção da Turma do Pererê, do Ziraldo, que eu fizera no final da tarde. NÓS VERSUS NÓS, é o nome do livro.

Pus-me em atitude de pensar, de refletir e vi como as coisas refletem com clareza se você se arrisca, se você se dispõe, se você se oferece.

Se a gente não mete a colher a mulher pode levar uma facada! É claro que há essa possibilidade, essa probabilidade, é até uma questão matemática, estatística. Há pesquisas confirmando que mulheres são espancadas, maltratadas, e até assassinadas pela fúria de maridos descontrolados por causa da omissão dos vizinhos. 

Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher. Mete sim! É claro que é diferente de dar um palpite sem ser chamado. Ninguém deve dar palpite, mas também ninguém deve ser omisso diante de um pedido de socorro. Ninguém deve, ao ouvir gritos, covardemente dizer: Eles que se entendam!

Se há gritos, não há entendimento.

Muitos ditados populares, muitos provérbios precisam ser revistos, revisitados, questionados, e o da colher é um deles.

Ditado de fundação patriarcal, criado pelo machismo, não pode passar para a nova geração sem um questionamento. Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher.

A partir da conclusão dos personagens ziraldianos, pus-me a pensar nessa questão da gravidade imperceptível do ditado popular e, é claro, a sua validação pelo consenso, que ofusca até o olhar do educador que precisa estar sempre límpido, e renovado a cada dia.

A partir da pequena conversa do autor com os educadores, resolvi atender ao chamado e estou colocando em discussão o velho ditado patriarcal de que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher.

O ditado na realidade é um pretexto, é usado como um pretexto pela surda covardia da omissão que se instalou no indiferente coração contemporâneo. Um pretexto, um pré-texto, algo que se antecipa à decisão de omissão das pessoas diante do individualismo que se alastra a cada dia numa época em que a mamãe leva o filho no Shopping, no Mcdonald, e nem entra numa livraria e depois reclama que a criança não se interessa por leitura. As pessoas usam covardemente um ditado para justificar a omissão, e não metem a colher na briga do marido com a mulher e continuarão omissos até mesmo após a entrada da mulher no pronto socorro.

Todas as crianças do país, nas salas de aula deviam discutir esse ditado, colocar em rodas de discussão a validade da conclusão da Turma da mata do fundão. 

Será mesmo que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher?
Dar palpite ninguém deve, mas, interferir, todos devem, para que nenhum dos dois saia ferido, e estatisticamente já está provado que a crianças e a mulheres são as maiores vítimas dentro do polígono solitário de um lar.

Omissão não combina com consciência e o ditado é utilizado pela maioria para dar suporte para a covardia. Um homem foi esfaqueado na calçada da passarela de Itaquera, ninguém se meteu nem socorreu o homem. Um cachorro é atropelado, alguém retira o cachorro da estrada apenas para os carros poderem passar, e o abandona na calçada, como abandona a mulher que grita, como o professor que teve a sua casa assaltada em pleno dia e levaram tudo e os vizinhos disseram que pensaram que fosse uma mudança.

Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher. Confesso que senti um arrepio, talvez eu seja muito exigente.

Claro, preciso ser repetitivo, como deve ser um educador, e reafirmar que as pessoas usam o ditado como um pretexto para justificar a sua omissão geral, que se ramifica, que se expande, sai do âmbito da briga da mulher e do marido e se estende na criança que é espancada, nos cães abandonados, no cavalo chicoteado, nas crianças abandonadas nas praças, nos presos assassinados, enfim, a omissão se alastrou e, se não é um fantasma, é seguramente, a ponta visível do iceberg (gelado) do monstro da indiferença sobre o qual falava Otto Lara Resende.

O ditado é a desculpa. “Mas ele a esbofeteou.”, “Sim, mas em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, “É conversando que a gente se entende!”, “Mas, se há gritos não esta havendo conversa”, “Mas entre tapas e beijos também se ama”, “Sim, mas viveremos eternamente no país de Leonardo?”

É claro que merece uma discussão esse ditado. Se algum educador discordar, por favor pode argumentar, pois eu não sou o dono da verdade, a verdade ainda não tem dono, mas com certeza um dia será vendida nos grandes hipermercados e só quem tiver muito dinheiro poderá ser o seu dono, (ironicamente, poderíamos argumentar que isso já acontece, ou seja, quem tem dinheiro, ou seja, poder, geralmente é o dono ou se julga o dono da verdade neste nosso país) e eu sou um sujeito que comete falhas, todos podem falhar, até mesmo os habitantes da Mata do fundão. Então, aceito tranqüilamente o argumento que mostre definitivamente que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher e a omissão pode ser simbolizada pelo palpite que não se deve dar numa discussão caseira, e não pela prepotência que sempre causa vitimas, e as maiores vítimas estão no lar, esse ambiente fechado para o mundo, parece que às vezes a luz do sol não penetra dentro do lar e então, qualquer dúvida, há ONGS e entidades que levantam pesquisas, como a Rede Criança de Combate a Violência Doméstica contra a criança.

Finalizando, eu na minha ingenuidade intelectual, de educador pensante, caçador de detalhes, penso que, dependendo da gravidade do desentendimento, em briga de marido e mulher deve-se meter a colher, e desculpe os machistas de plantão, os patriarcas que fundaram esse ditado, e os que vergonhosamente se omitem ancorados em provérbios, diante dos indefesos.

O Veado e a Onça, li esse livro para ilustrar o meu pensamento de que os animais vivem em acordo com a natureza. Nunca dará certo uma convivência harmoniosa entre a onça e o veado. A onça sempre vai comer o veado. Tenho vinte e um gatos. O gato pode ser aveludado, ou seja, tratado com veludo, dormir no sofá, enfim, mas nunca abandonará a sua natureza, será sempre um carnívoro. Se eu colocar um passarinho diante do gato, ele vai comer o passarinho, se eu bater no gato, serei um ignorante, como o Juvenal ou o Ademar, - não me lembro bem o nome, mas qualquer um desses dois cabe na lembrança que eu tenho -, que matava os gatos após intensa tortura porque eles comiam os passarinhos.

Teria que ter 22 gatos, mas um foi envenenado, e como é costume a gente tirar fotos dos gatos, costumamos colocar em quadros as lindas gatas de olhar terno como o do tigre, que foram envenenadas por algum vizinho, para que a face do animal num quadro na parede nunca nos faça esquecer da dimensão da maldade humana.

Desconfio e temo uma pessoa que envenena um gato, da mesma forma que desconfio daquele que usa o chicote contra o cavalo ou do que não se sensibiliza com os cães abandonados nas ruas de são Paulo.

A literatura infantil esta aí para nos fazer compreender melhor o mundo, a natureza e a história humana. O VEADO E A ONÇA nos mostra isso, que vivem os animais de acordo com a natureza.Apenas o ser humano insiste em viver em desarmonia com a natureza.

Certa vez, diante do espelho, enquanto me barbeava, fiz pela primeira vez a pergunta: Por que eu tenho barba? Essa pergunta fincou o marco que surgiu em forma de vendaval, a partir daquele momento a pergunta passou a condição de necessária e irremovível. Todos os marcos me vieram assim como temporal desabando em minha alma distraída.

Por que os homens têm barba?

E saí para a rua com meu olhar ausente de eucaliptos e na caminhada fiz o que eu mais gosto enquanto caminho, olhar para a gente que passa, o que significa para mim, olhar para as mulheres.

Isso é uma distração agradável, gosto de observar as cores das roupas, o andar, a delicadeza, a organização do rosto (cosmos –ético), enfim, gosto de olhar o que mais me agrada na mulher, visualmente falando, os cabelos longos. É o que mais admiro nas mulheres. Creio que desde sempre sinto uma admiração especial pelos cabelos longos das mulheres, talvez isso esteja vinculado a alguma menininha com quem eu brincava no tempo de pular corda em ruas largas sem trânsito, no tempo de enormes cirandas, no tempo de meninos e meninas formando grandes rodas na rua, e onde estarão as pequenas mãos que eu segurava? Enquanto girava na roda da ciranda sob o azul da tarde, e passavam pelo meu olhar casas com jardins e dálias e rosas e flores brancas, e possivelmente algum anjo de cabelos longos segurava em minha mão.

Sei que as cantigas e as imensas rodas sobrevivem enjauladas nas escolas de muros altos, graças ao amor e a teimosia de educadores e educadoras, eternos encantados com a poesia, desculpe, pedagogia da ciranda.

Um dia talvez a roda volte para a rua (Já teria voltado se essa rua fosse minha, mas não é, e por causa disso um bosque que se chama, que se chama solidão sobrevive ferido de ausências em meu peito) e então, como vivemos num país de memória afetiva ativada, apresentaremos homenagens aos milhares de educadores anônimos que não permitiram que a criança morresse.

Então, um dia subitamente perguntei: Por que as mulheres têm os cabelos longos? E comecei a fazer outras tantas perguntas nessa direção, por que a pele macia da fêmea e o meu corpo com pêlos, por que a barba no rosto, e os cabelos longos nas mulheres, e então o vento que me auxilia, possivelmente terá feito a observação de que em certas regiões africanas as mulheres negras não têm os cabelos longos, e isso trouxe uma felicidade infindável pois proporcionou a continuidade das aberturas nos portões de ferro que fecham a mente, e me atrevi então a outras perguntas: Por que algumas mulheres em certas regiões não têm os cabelos longos? E como nunca me satisfaço com respostas incompletas e fáceis, pus-me a perseguir as respostas adequadas, e não aceitei a explicação de que os cabelos longos e cacheados e dourados são um modelo europeu, assim como os longos cabelos lisos são um modelo asiático, também presente na América, etc, a resposta permaneceu incompleta, porque a mulheres têm ou não cabelos longos e os homens têm barba?

Depois fui para as mãos e observei as unhas e a pergunta detonou a minha paz, por que as unhas nas pontas dos dedos? E as unhas me ofereceram o inicio da resposta que eu buscava, as unhas estão nas pontas dos dedos para proteger os dedos, o caminho se tornou mais fácil, o macho, o homem, foi programado pela natureza para enfrentar as intempéries da vida, o rosto do homem foi adaptado para agressão, a barba está no rosto para protegê-lo e ajudar o homem a enfrentar os vendavais, as pancadas, os choques, da mesma forma que os cabelos longos nas mulheres têm a sua função existencial, mas então, porque as mulheres de certas regiões africanas tem o cabelos crespos, por que em certas regiões homens não tem barbas? A resposta está nas regiões, mas creio que tudo isso já foi amplamente estudado, eu que tenho pouca leitura. Mas há o argumento de que as mulheres não nascem com os cabelos longos, elas apenas cultivam a longitude dos cabelos, que os homens também podem ter os cabelos tão longos como as mulheres, então é uma questão cultural e não de natureza.Isso invalida em partes a discussão para qual eu encaminhava. De qualquer forma, explicações sobre genes, sobre hormônios masculinos ou femininos não me satisfazem e nem interessam aqui, pois são respostas da ciência, e não é o caso no momento, pois a pergunta é, por que o homem tem barba, por que a mulher não tem barba, essencialmente não tem, pois se tiver será por conta de um desvio hormonal e poderá virar atração de circo.

Na noite em que morreu Jorge Amado, talvez pensando nas suas mulheres, as que são mais amadas pelo público, como Gabriela, e outras, pouco conhecidas, como Mariana, fiquei pensando no olhar da mulher.

Tenho o olhar direcionado para a alegria, para a felicidade, para o bem. A morte me é estranha, a vida é felicidade, talvez por isso eu me ponho nos momentos raros a ouvir os instrumentos musicais, os arranjos metálicos das músicas, mesmo sendo zero o meu conhecimento musical, mas eu sou direcionado para a felicidade, mesmo atravessando o momento mais difícil da minha vida que atravesso, o meu olhar está direcionado para a felicidade e busca girassóis.

O olhar direcionado para a alegria, para a felicidade, para o bem, é também o olhar direcionado para a mulher, para o colorido das roupas femininas, tão fundamentais para mim quantos os perfumes, e o gosto pelas flores que são coisas que devo a elas, as mulheres.

O olhar direcionado para as mulheres é o olhar natural. O olhar que se incomoda com a cor cinza, com a cor marrom, com cores que me afastam da idéia do feminino.

Viver de acordo com a natureza é o resumo da felicidade, por isso a inevitabilidade do olhar direcionado para a mulher, o olhar natural.

O olhar direcionado para a mulher não significa nada, não significa que eu seja um mulherengo ou algo assim, apenas que ele vive de acordo com a sua natureza.

O olhar da mulher talvez seja parcialmente direcionado para a mulher, olhar competitivo, séculos e séculos de opressão patriarcal&cristã, e a mulher não poderia ter o olhar livremente direcionado para o homem, ou seja, o olhar naturalmente direcionado, mas elas sempre contam com a sabedoria própria, a invejável sabedoria das fêmeas, e aprenderam a olhar sem demonstrar. É o olhar que não demonstra. Elas são especializadas em organizar, por isso organizam o rosto, (cosmos-organização-ético), e organizam a alma, e assim também organizam o olhar, que no caso fêmeo é o olhar da alma, e diferente do olhar masculino, -olhar difuso, espalhafatoso,s em cuidados, sem lapidação, desorganizado.

O olhar da mulher é o olhar organizado. Quando uma mulher me olha, geralmente sou o único que percebe esse olhar. Então me pus a pensar essas coisas na noite em que Jorge Amado morreu.

 
(agosto/2001)


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
marcianovasques@hotmail.com  

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