Marciano Vasques


O BELO QUE O ALHEIO PRODUZ

 

As águas estéreis do Bósforo não causam no ser humano uma emoção capaz de sacudir as consciências. Há outros problemas, outras tragédias no mundo, há outros males causados pelo ser humano. Em todas as partes do planeta é possível observar a força destrutiva dos seres pensantes.

No Brasil o sucesso é ofensa pessoal, declarou Tom Jobim. E sobre o sucesso o melhor é que ele seja protegido, preferencialmente em silêncio.

Embora leia pouco, gosto de literatura, mas não do mundo literário, que para mim é indiferente, embora acompanhe de fora e de longe, e tenha registrado através de artigos alguns aspectos, como o movimento literário alternativo que resistiu até o final da década de 80, quando começou a ser esfarelado, embora haja quem pode afirmar o contrário e dizer que até hoje o movimento é atuante.

O meu arquivo do movimento literário, com suas publicações que abrangem o período de 1985 até o final da década, estou pensando em me desfazer dele, não destruí-lo, mas doando para alguma instituição, possivelmente alguma biblioteca. Já tentei fazer isso certa vez, mas uma biblioteca não se interessou.

Chegou um momento em que pensei em utilizá-lo em trabalho acadêmico, considerando a curiosidade que despertaria por mostrar um aspecto intensamente criativo que faz parte do folclore cultural do nosso Brasil.

É uma história bonita, mas que encontrou o seu desvio na natureza contemporânea que ilustra a alma brasileira, tal natureza destaca a amizade como alavanca para o florescimento e alastramento de grupos, o que dificulta o livre fluir literário, assim como a manutenção da qualidade literária. Qualquer pesquisador poderá constatar como há um decréscimo da qualidade, uma decadência gradativa,a partir do momento em que se privilegia a amizade, e claro, a mais nociva, a grupal. Não quero com isso dizer que não seja possível a existência de grupos qualitativos, há, ao contrario, exemplos notáveis de grupos que se preservam e apresentam um padrão de qualidade que destoa, é o caso da Revista Dimensão, de Uberaba, MG, desaparecida recentemente, de acordo com uma nota lida, nas páginas do jornal O CAPITAL, de Ilma Pontes. O Capital, jornal de resistência, editado em Aracaju, já ultrapassou os dez anos de existência. Pelo fato de não ser elitista tem mais chance de sobreviver, apesar das dificuldades monstruosas enfrentadas pela valente Ilma Pontes.

O movimento literário alternativo com as suas publicações, se não possibilitou uma visão apurada do extrato literário contemporâneo, por outro lado propiciou o mapeamento da sensibilidade brasileira, e expôs tranqüilamente o modo de ser e de sentir de cada região, com suas peculiaridades; um poeta, da região sul, do Paraná, é totalmente diferente no aspecto sensibilidade, de um poeta incendiário de Sergipe, o que parece querer demonstrar que há várias formas de sensibilidade, ou, há vários países dentro dessa terra, o que por outro lado vem assegurar a tese já antiga desencadeada em meio acadêmico de que a região influi na produção cultural do homem, o que parece óbvio, de tão visível, nas manifestações folclóricas. Basta dar uma olhada na produção nordestina e comparar com a de outras regiões, o colorido e a alegria se intensificam de acordo com a rusticidade da região, porém não parece tão óbvio ou tão visível no texto literário o que pode significar a necessidade de algum esforço, mas também nada tão descomunal, bastando apenas um pouco de leitura atenta, de garimpagem, para se verificar que um texto poético, tal como um texto filosófico, depende intrinsecamente, da região, e assim são os poetas tristes ou alegres, de acordo com a paisagem. Tal fato encontra o seu correspondente na alimentação. O tipo de alimento consumido influi na poética.

Naquilo que não se percebe como uma coisa forçada na obra de um poeta, sente-se toda a permanência da paisagem em sua obra, podendo se afirmar que uma região áspera introjetará no coração do poeta textos áridos, duros, sofridos, diferente de uma região de paisagem azul, de espumas do mar.

Por outro lado, a riqueza da produção artística e literária não esta vinculada diretamente à existência de uma ditadura, como erroneamente se pensou durante uns tempos recentes, a ponto de se ouvir afirmações doentias ou equivocadas de que um determinado compositor ou poeta não conseguia mais produzir porque estaríamos numa democracia, e a ditaduras tornam o artista mais criativo. Tolices. O que afirma ou não a produção literária é a crença no tempo, independente do regime político em vigor, se o tempo é de desmoronamento, de esfarelamento, de dissoluções, como o atual, é provável que a produção literária e artística seja modificada e hipoteticamente sofra uma espécie de revés.

O poeta, o artista está vinculado à crença no seu tempo. Se ele perde a crença, a sua produção se anula ou se vê reduzida. Ele não produz de acordo com a liberdade política, ele produz por causa da crença na sua sociedade, no seu tempo, ele produz por causa da sua crença no ser humano, o que pode ser traduzido por crença na humanidade, na falta de termo mais adequado.Aliado a isso, é notável que se reafirme o poeta como um ser universal, tal como sempre denunciaram os grandes mestres da literatura. Mestre é uma forma carinhosa de se dizer, se nomear, porque jamais eles se pronunciaram assim.

A condição de universal é inerente ao poeta, ao artista da palavra, e por isso ele não pode ser esmagado, estreitado, sectarizado, em grupos,mas deve permanecer livre e solto, o que não impede que se aproxime de grupos, mas sempre obrigatoriamente preservando a sua liberdade.

Isso que afirmo é diferente da união e do encontro entre produtores culturais diante de algum projeto maior de expansão da arte. O que afirmo está ligado ao fato das pessoas se encastelarem em grupos, isso é altamente pernicioso, porem reflete uma coisa básica, segundo o comentário de um aluno do curso de comunicação social da Unicsul: As pessoas sem talento, sem grandes criatividades, costumam unirem-se em grupos, costumam formar grupos, e não permitem a entrada da produção de quem está de fora. Assim, formando blocos, preservam a falta de talento, ao mesmo tempo em que criam uma espécie de corrente que se auto–alimenta, numa relação monóica, prejudicial ao panorama literário e artístico do país. 

Uma catalogação por mais simples que fosse, revelaria alguns grupos sólidos que formam suas insignificantes constelações, porém se apropriam do espaço existente, permanecendo num imóvel orgasmo reluzente, se lambuzando com o ilusório brilho.

Se o hábito de ajuntamento, de grupos, que podem ser chamados eventualmente de feudos literários, no caso da produção literária, interfere e barra um avanço qualitativo ou, se for o caso, sedimenta para o fluir literário a condição de amizade, também oferece e aponta, para os atenciosos, a solução mais corajosa, a de seguir sozinho, e seguir sozinho é sempre algo de extrema complexidade, e como é possível observar, costuma dar certo, o que desencadeia desprezo e silêncios e boicotes. O silêncio aparece num determinado estágio da consciência, como infame, noutro, como insignificante e desprezível.

Se inicialmente magoa, por causa da necessidade natural do ser humano de ser amado e reconhecido, depois, com o florescimento da consciência, se torna infrutífero, não merecendo sequer atenção.

A caminhada solitária é fatalmente benéfica pois através do tempo se apresenta límpida e forte, e instaurada a sua fortaleza, pouco importa o silêncio que o ressentimento causa, e geralmente o ressentimento é grupal, o que rima inicialmente com brutal, mas depois não passa de bobagem, tolice, coisa para ser ignorada.

O importante é aprender a se esquivar, preservar a todo custo a sua arte, o seu talento, a sua poética, buscar com cuidado e zelo os verdadeiros amigos, e aprender a silenciar, não sobre o outro que produz e também caminha solitariamente, mas silenciar sobre os malefícios ejaculados pelos grupos, e também sobre as suas ilusórias vitórias, como, em alguns casos, o dinheiro que é possível se ganhar com a boa fé do poeta sonhador, que querendo ver o seu texto em letras impressas, torna-se uma presa fácil como um inseto que cai nas teias da aranha.

O poeta, o produtor cultural que caminhar sozinho jamais se tornará um ser anti-social, porque a sua alma terá tempo suficiente para a felicidade que o encontro com o outro produz, e sem o compromisso com o grupo, com as artimanhas políticas do grupo, com o sectarismo próprio de agremiações, saberá abrir os braços para essa felicidade.

O que caminha solitário é sempre feliz, porque consegue ultrapassar com sofrimento, é claro, os ditames dos sentimentos desencadeados dos que são incapazes de seguir sozinhos,e não terão a oportunidade de descobrir o valor profundo e inigualável de uma amizade verdadeira porque terão sempre diante de si o impedimento causado naturalmente pela sombra projetada pelo grupo ao qual pertencem.

Estar ligado universalmente a um projeto maior que une pessoas, é diferente de se fechar em grupos de janelinhas pequenas demais para a entrada da poética.

Fechar-se em grupos, é tornar-se Narciso, é lamber eternamente a sua cria num processo irreversivelmente maléfico, é fechar o olhar, trancar o olhar, para o belo que se produz no alheio, o belo que o alheio produz.

Fechar-se em grupos é participar do aprendizado da convivência com as limitações impostas pela natureza grupal que dificilmente terá condições para observar, respeitar, e utopicamente, incentivar o desenvolvimento individual, sempre maior do que o desenvolvimento gregário baseado em grupos que privilegiam a amizade em detrimento do talento no favorecimento da divulgação poética.

Em artes, em literatura, o desenvolvimento gregário desenvolve o sentimento de falsa e ilusória fortaleza, falsa e ilusória por esconder o obvio, que a falta de talento e de criatividade pode ser maquiada pela existência, ou seja, pelo estatuto de grupo.

Entretanto é possível a existência e o fortalecimento de grupos que possam reverter essa realidade, basta que pessoas com o ideal verdadeiramente universal possam se encontrar e não oferecer resistência ao poder de atração que exercem entre si, e então unidas em grupos com alma de respeito e atenção para o belo que o alheio produz, possam inaugurar um novo tempo, e a pedra fundamental possa ser fincada na felicidade que produz o encontro entre corações e mentes que se abriram para o universal enquanto se edificaram corajosamente como girassóis solitários.

E será então possível se navegar em todos os rios, porque todos se tornarão um único rio, o rio da poesia –poderá ser assim chamado-, e não haverá necessidade de se temer o destino do Bósforo, o destino das águas do Bósforo. 
 
(setembro/2001)


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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