Marciano Vasques
  

CALEIDOSCÓPIO DA ALMA

Pus-me a pensar que se conta a história do povo brasileiro através da poética presente em nossa canção. Pode-se, num recital poético, numa encenação, contar essa história. Isso não é novidade e há grupos espalhados nas periferias do país que fazem isso, às vezes pincelando o empreendimento com as cores de um cristianismo humanizado, colocando-se o cristo na história, geralmente são grupos que montam suas encenações para apresentações em creches e em entidades populares. Alguns artistas do povo contentam-se em cantar nas manifestações populares e apareceram na tv Globo em cenas de reportagens, como o caso do casal Justino e Magnólia, que nunca compreenderam a necessidade de uma aproximação com a profissionalização de seu próprio canto, e quando os levei à TV cultura, na gravação do Programa da Inezita Barroso, nem se deram conta de como o caminho deles está traçado sobre uma ilusão, e de como poderiam ter levado o seu canto para o palco das luzes, além do palco da luta política.

Com um pouco de audácia, é possível a suspensão do cotidiano culturalmente padronizado, onde a cultura autêntica do povo está pulverizada, e as necessidades midiáticas regidas pela “força da grana” impõem um sabor insosso e uma coisa sem graça como “aquilo que o povo gosta!”.

Com esta suspensão, encontra-se a história do povo brasileiro nos versos da nossa canção; Patativa do Assaré, Celestino, nossos compositores, e suas letras poéticas: lata dágua na cabeça, Ave-Maria no morro, camisa listrada, a triste partida, súplica cearense, e seguimos em frente até o porto do requinte, a linguagem poeticamente burilada, o artesanato, a nata da arte, de Caetano, Gil -orgulho do Brasil, Chico Buarque, e outros...

Nossa canção significa o romance brasileiro, a história do povo é cantada através dela, o Brasil do sul, o Brasil do nordeste...

A nossa riqueza cultural é imensa, musicalmente imensa, poeticamente imensa, dos doces de Cora Coralina à ciranda que mora na ilha de Itamaracá. 

Uma autora ia se apresentar em 1999 numa cidade do sudeste, sem que a cidade tivesse um gasto sequer, pois ela ia pelo programa O ESCRITOR NA CIDADE, da Secretaria de Estado da Educação, porém o prefeito da cidade, no último momento preferiu levar um outro escritor, famoso, que cobrou quatro mil reais por uma palestra, mas que traria status para a cidade. A lógica do prefeito está certa e o escritor famoso também, em cobrar caro, porém é razoavelmente compreensível que com o dinheiro público gasto para se levar um autor prestigiado, poderia ter se levado para a cidade, pelo menos, dez escritores.

Muita gente de talento, muitos sanfoneiros, muitos poetas nas periferias...

A nossa herança é múltipla, herdamos o sentir lusitano, mas fomos abençoados pela África, a grande dama de leite da Europa, sem contar a mescla de gentes que fazem do nosso país um imenso caleidoscópio humano, múltiplas formas e cores, que transformam a nossa canção no imenso palco, no qual canta-se a história do povo brasileiro .

Mas a Magnólia não consegue compreender os mecanismos, as teias da vida que nos enredam, e assim, como a me lembrar de outra Magnólia, talvez a mais bonita voz que eu tenha ouvido em minhas andanças, com seu espetacular canto, nega-se ao espetáculo para o qual foi nascida, pois torna-se a cantora de sua igreja, e derrama seus hinos evangélicos; e tanto brilho nos seus olhos ...

E a Magnólia do Justino me convidando para uma festa na sua comunidade em homenagem às crianças, um bolo enorme, de 10 metros será doado, como em todos os anos, para a criançada, que terá brincadeiras, brinquedos e muita alegria, o bolo doado pelo jovem que cumpriu uma promessa feita para Nossa Senhora Aparecida, de que se ele parasse de consumir drogas, daria esse presente em cada outubro para os pequenos. E ele abandonou o consumo das drogas, tornando-se apenas um traficante. Tornou-se um rapaz querido por todos. Quem vê o brilho nos olhos das crianças compreende o amor e a bondade que há no coração do jovem do bolo, Magnólia não compreende que essas crianças irão crescer...

Nada mais comovente que o jovem cantando “Nossa Senhora” (Roberto Carlos) em roda com os moradores, uma cena que de longe lembra os professores encerrando um encontro no pátio de um colégio da zona leste, cantando a mesma canção .

Magnólia e Justino simbolizam nossos artistas da periferia, tantos que daria para abraçar o país numa enorme ciranda, mas como é possível que essa gente tenha se tornado apenas consumidores passivos, passageiros do trem da Central do Brasil ( Uma homenagem aos velhos trilhos...)?

Um jovem me questiona sobre a existência do tempo: o que afinal queria dizer o Espinosa? Ponho-me em situação difícil, pela dificuldade natural em se explicar ou entender certos conceitos e certas idéias, que exigem uma leitura rigorosa, e em nossa conversa chegamos finalmente à dúvida:o tempo existe ou não, afinal?

Penso num conto que escreverei sobre uma tal de Gorda de Mussarela: quando ela chegou, com beijos prontos, ele a tomou em seus braços e uma felicidade valsou entre os seus ossos, a chuva do porto ainda salpicava em seu corpo, e fragmentos da úmida cidade escorriam em seus cabelos artificialmente castanhos... Gosto de escrever contos, mas a Gorda de Mussarela me fez pensar em coisas, estou com cheque devolvido, plena correria, a correria transborda em minha vida, isso me faz lembrar que a minha vida está descontrolada, a vida financeira, mas também sinto que preciso ter um princípio de ataque cardíaco para organizar a minha alimentação e compreender que não tem mais cabimento essa correria, como compreendi recentemente que nada se compara com o encontro com gente, lembro da Daniela me falando um dia que a melhor coisa do mundo é gente. Falando em gente, eis que me chega um e-mail de Célia, de Itapecerica, MG, a amiga de anos de papel, agora chega na tela; parece que transformo o que seria um texto de reflexão em uma espécie de diário!

A cultura autêntica do povo não é de toda reacionária, embora, seja geralmente conservadora, tomando-se aqui o sentido estrito da palavra, o verbo em si, conservar. Não é verdade, obviamente, que a cultura do povo seja a música empobrecida que se toca na rádio, as moças que rebolam mostrando a bunda, as infelizes moças, com seus seguidores, milhares de sobrinhos. Infelizes, mas com um bom talão de cheques, dirão alguns. Sim, mas serão eternamente infelizes e tristes, porque incapazes de viver uma vida autêntica, e por esbofetearem a consciência com seus deleites insensatos. Incapazes de uma graciosidade autêntica, seguem mostrando a bunda e rebolando com suas músicas idiotas, distantes da vida cheia de vida do povo, e acreditando que estão vencendo na vida artística, sem compreender que a memória do futuro passará por elas indiferente.

O nosso povo não merecia isso, mas os ditames da razão não se impõem diante do poder econômico, no entanto, um dia, rebola&bola vai passar, não é, compadre? E os olhos aleijados, que se habituaram a ver beleza onde há equívoco, finalmente estarão livres e límpidos.

O que herdamos do sangue lusitano, o que herdamos do sangue africano, a sensualidade, a graciosidade, o lirismo, o colorido, essa mescla de sentimentos, essa efusão de ser, essa vontade de canto, essa fibra, essa febre, essa ganância do coração por saudades, adeuses, partidas e chegadas, esse modo de ser, que pode estar pulverizado no abandono, mas que jamais será totalmente dissolvido, pois sempre restará nalgum canto a possibilidade do renascer,tudo isso não há de ser em vão, e as moças ridículas e sem graciosidade, das bundas, elas com certeza terão um encontro com a consciência .

A patativa do norte, a canção celestina, Luiz do baião, o romance do povo brasileiro escrito nas letras da nossa canção, nada será em vão, e após a passagem do vendaval da vulgaridade, da pobreza musical, do descaso atual, o marasmo, a idiotice que se apossou da música, transformando-na no mais infeliz dos acontecimentos comerciais de nosso tempo. Nada será em vão e certamente a poesia descerá sobre a terra, como o Natal que um dia outros poetas clamaram.

A poesia descerá sobre a terra, o que significa dizer, ela estará definitivamente no coração humano, e retomará a sua condição de contadora de histórias, e registrará em nossa canção a história do povo, e a linda pequena, cantará a canção saudável e haverá festas de bailados, e coloridos de quermesses e parques, e alegrias sem remorsos, e uma felicidade valsará em cada coração .

O que herdamos é essa gentileza poética, esse caleidoscópio que é a nossa alma, nela se refletem cores e áfricas.

Nossa alma tem em sua natureza um caleidoscópio e é sobre isso que divagam os poetas, os que vagam em lumes, os que extravasam, os que extrapolam, os que sinceramente se recolhem para proteger contra o vendaval, os seus afazeres poéticos.

 
(outubro/2001)


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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