Marciano Vasques
  

CANSADO DE OFERECER TESOUROS

Estou cansado de oferecer tesouros. Minha colega Eunice, do Canadá, escreve dizendo que não suporta o silêncio da lista e fica com a impressão de que está falando sozinha, de que tudo é em vão.

Trata-se de uma lista de escritores. Respondo que atualmente não sofro com isso, que aprendi muito no meio literário sobre certos aspectos da natureza humana.

É verdade que nunca pertenci a grupo literário nenhum. Cada um sabe a dor e a delicia de ser o que é, para lembrar da nossa canção, e segui sozinho. Durante anos, desde o ano de 1985, mais precisamente, desde junho daquele ano, tentei penetrar em alguns grupos, mas logo compreendi a ilusão. Logo é força de expressão. 

Cansado de oferecer tesouros. alvez pelo fato de estar vinculado, digamos, a duas realidades, ou seja, tentando deixar claro o que pretendo dizer, o magistério-a educação, e os escritores-a literatura, a angústia seja ampla.

Na Argentina foi criada uma Associação de Escritores e a moçada organizou shows em diversas regiões, para arrecadar dinheiro e então foi comprado um ofsete para o uso de todos os escritores alternativos, os que estavam fora do sistema editorial na década de 80. Assim os livros e as revistas foram impressos.

A Educação, por causa da auto-suficiência do professor da rede pública (SP), que cria um mecanismo invisível de proteção individual, que favorece o impedimento de uma união efetiva e verdadeira e chuta-se tudo para o governo.

Não tiro um milímetro da culpa do governo nas mazelas da Educação, sabemos o quanto o descaso tem causado estragos na educação, que segue capengando, praticamente sem rumo ou com rumo desconexo e atordoado.Na administração Municipal atual a volta do Paulo Freire, pessoas sinceras que acreditam numa concepção dialética da educação, mas se esquecem do primordial, o serviço público, a escola, é feito de gente, e o material humano só é verdadeiramente reciclado, embora não seja a palavra adequada, que deve ser usada com relação ao lixo, o material humano só é verdadeiramente lapidado quando há a vontade interior, e a vontade interior está no plano individual, não no plano coletivo.

Não pode uma transformação verdadeira, efetiva e definitiva acontecer enquanto não se compreender a natureza humana. Há, pois, uma distância imensa, entre o que se planeja na PUC e a escola. A escola está tão longe!Se estivesse apenas na periferia, mas não atravessou os séculos, não atravessou o milênio.

O discurso político não viabiliza nada! Quando uma futura prefeita fez um discurso na abertura de um congresso de profissionais de educação, falou coisas se referindo a todos os professores, e falou da união e falou que admirava a capacidade de luta, e ainda mais, falou que todas as professoras eram responsáveis por tantos benefícios pedagógicos etc, enfim, falou para um bloco monolítico, uma única realidade, que só existia na cabeça dela, pois o seu discurso era político, e então a retórica é especifica, pois no grande auditório de cinco mil pessoas estavam também as professoras reacionárias, as conservadoras, e as que impedem que a escola se modernize.

A escola só será a escola do futuro quando o professor quiser. Ninguém implantará nada, não adianta projetos e boas intenções, pois sempre um grupo tentará promover as mudanças, mas o corpo geral do magistério não modificará, e então alguns sofrerão e outros cairão no isolamento, porque é mesmo assim, há homens que deitam ao lado da sua mulher pensando em traição, da mesma forma que um discurso não penetra dentro do pensamento do outro, e o coletivo só promove mudanças quando o individual for atingido.

O coletivo interessa aos partidos políticos, e a importância do partido político não pode ser menosprezada, mas atingir o âmago, a essência, o interior do individuo, é algo mais complexo.

A escola não é imutável, mas é feita de gente, de seres humanos, e seres humanos são indivíduos, visto que a humanidade é um conceito filosófico utópico.

É possível que se confunda o meu pensamento com descrença, mas não é exatamente isso, é apenas uma visão pautada em cima de elementos reais e visíveis, para quem se dispõe a oferecer a visão, visto que muitos escondem a visão, que é recolhida numa sombra de acomodamentos, numa zona de sombra insuportável para uns, mas balsâmica para outros.

O que há de comum entre a escola e o meio literário?

O meio literário também é formado por grupos de escritores auto-suficientes, alguns com a alma encardida, repleta de caetanices, outros aprenderam o oficio do oportunismo e a palavra gira como hélice em todas as direções que sejam benéficas.

Quando estive com dois escritores famosos, pelos quais sentia profunda admiração, senti uma espécie de pena, um sentimento assim que é melhor nem dizer, por ter ficado assim gosmento dentro de mim, depois calmamente refleti que talvez não conhecessem a realidade, mas, enfim, lá estavam falando flores e flores demagógicas sobre as professoras que participavam do evento, um discurso editorialmente planejado que a cada palavra endeusava as professoras, mas deixava transparecer (para um espírito como eu), que atendia à necessidade editorial, melhor dizendo, a professora é quem indica os livros que a escola compra, e por isso eram colocadas monoliticamente no céu e então o discurso retocado, amplamente demagógico, revelando-me que o artesão das palavras pode também usá-las em beneficio próprio.

Afinal o que faz um escritor? O que torna alguém um escritor?

O sujeito que vende milhares de livros é de fato um escritor? A habilidade na manipulação das palavras torna alguém um poeta? O que é um poeta afinal? E um professor (educador), o que faz com que alguém seja um professor? Um curso e um diploma de habilitação transforma alguém num professor? O tempo de magistério torna alguém um professor? O sujeito que trabalha há mais de duas décadas e está quase se aposentando é mais professor do que o que tem apenas alguns anos? Qual o parâmetro, o que pode dar a alguém o titulo de professor?

Fui questionado sobre essa minha preocupação excessiva com professores, escritores, poetas, mas, para mim são os pilares de qualquer sociedade saudável!

Três pilares, três colunas que precisariam ser firmes, ter um alicerce robusto, forte, seguro. O professor até concordamos, diriam alguns, mas, escritores, poetas...

O grau de saúde de uma sociedade para mim se revela no tratamento que se dá aos professores, aos escritores e aos poetas. E também o quanto tal sociedade é saudável se mostra na forma como o professor cuida de si, e também os escritores e os poetas.

Eles representam a própria ética da sociedade! Você confere o grau ético da sociedade pela desenvoltura dos professores e pela importância e modo de ser dos escritores e dos poetas.

O grau ético da sociedade revela o quanto ela está enferma ou saudável, e os poetas, escritores e professores jogam fundo nessa importância.

Enquanto escritores se espelharem em grupinhos e professores em seus holerites e poetas em suas vaidades ou na necessidade interiorizada de marginalização, a sociedade estará deformada.

Poeta tem que ler, estudar muito e ter um compromisso diário com o aperfeiçoamento humano de cada leitor, escritor tem que compreender que é o responsável pela implantação da felicidade no coração do leitor, mesmo quando escreve sobre tragédias, a sua escrita não abandona em hipótese alguma a idéia da felicidade, e professor tem que compreender definitivamente que a escola só mudará verdadeiramente quando o professor mudar, todos os professores, cada professor, e só assim, com a mudança do professor, da sua consciência, o governo estará acuado, qualquer governo, e a escola será o rosto da sociedade.

Talvez eu não esteja cansado de oferecer tesouros, talvez eu seja incansável, talvez os tesouros estejam sempre esperando por mim.

 
(novembro/2001)


Marciano Vasques, 
escritor, poeta e professor 
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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