Estou numa estação Metrô. Vamos descer a rolante. O policial grotesco mete o cotovelo sobre minhas costas, me empurra e segue em
frente .Está apressado. Descemos a escada. Atrás, um peão, um sujeito desses que chegam em São Paulo e ainda não adquiriram a malícia da sobrevivência, comenta: -
“Viu a educação do sujeito?”. Tento me expressar com os olhos. Ele ainda não desenvolveu a covardia necessária que nos garante sobreviver na cidade de pedras cosmopolitas. O policial nos olha. O olhar revela o que poderia nos
acontecer. Tento neutralizar falando alto para a Daniela, que está degraus abaixo: -“Dan. A
Melissa está quase dormindo”. Seguimos em frente e o moço continua o comentário sobre a educação do policial, sem obter uma resposta minha. Deixando de lado esse fragmento do sábado, volto a pensar que algumas questões não podem ser
adiadas. Uma delas é a da tortura.
Antes, quero citar o comentário que ouvi numa de minhas aulas, sobre o fato de que o tal monstro da indiferença começa a se instalar primeiramente em casa, na forma como tratamos os nossos familiares.
Tem um sujeito que vai participar agora do meu texto. Citações são
fundamentais. Trata-se de Roberto Edmar Urias, um escritor brasileiro consagrado no exterior, na Polônia e em outros paises, grande conferencista em universidades européias e americanas. Roberto é praticamente desconhecido no
Brasil. Não por sua obra literária, que afinal não existe e ele não é nenhum
escritor. É na verdade, um pedreiro. Afinal, por que um pedreiro deveria ser conhecido do grande público?
Por que deveria se tornar uma pessoa destacada? Um pedreiro é apenas um pedreiro, dirão alguns. Sim, um pedreiro é apenas um pedreiro, da mesma forma que um professor é apenas um professor ou um artista é apenas um artista e assim por diante.
Roberto Edmar Urias está preso numa cadeia pública, acusado de estupro e da morte de uma mulher, em julho de 1999. Foi condenado a 21 anos por estupro e homicídio. Confessou sob tortura praticada por policiais civis há dois anos e 4
meses. O teste de DNA inocentou o rapaz, que continua preso. Pedreiro, pedras cosmopolitas, pedras.
Podres atos que ainda sobrevivem em nosso país. Tortura. Isso tinha que ser extirpado imediatamente, varrido por um vendaval democrático, desses avassaladores, que colocam o povo na linha de
frente. No país pedreiros são torturados em delegacias e confessam qualquer
coisa. Pedreiros, e um rapaz da favela do Parque Guarani, têm a mesma importância intelectual que presos políticos?
Para onde foi o Brasil, afinal? Está na capa da revista americana, nas fotos da modelo nua? Não, isso não é o Brasil, a mocinha que tirou a roupa para uma revista é uma anomalia do país, é uma deformação. Onde está o Brasil? Nas letras rasas dos pagodes? Na falta de poesia da canção imposta pelos interesses mercadológicos? Onde está o Brasil? Nos domingos perdidos legalmente em frente da televisão?
Onde está? Na bunda que rebola diante da criança, grupos regidos pelo maestro Cifrão,com suas músicas de letras imbecis e poeticamente empobrecidas? Nos jogadores que oferecem um espetáculo pobre e nada convincente, ajudando a matar diariamente a alegria natural do povo que começou a vigorar tempos idos nos campos das várzeas, e se refletiu nas pernas tortas e no rapazinho negro que empolgava os santistas, e logo o país inteiro, em branco e preto e nos imensos rádios de madeira que ocupavam um canto privilegiado de qualquer sala, enquanto nas cozinhas pessoas animadas e felizes conversavam e tomavam suco de frutas tropicais naturais?
Onde está o Brasil? Estará no menino amputado da carvoaria? Estará no pedreiro Edmar? Nas meninas prostituídas em campos e fazendas? Nos sonhadores que chegam a São Paulo, vindo do nordeste real de Patativa de Assaré? Onde estará o Brasil?
Estará nos seus ídolos milionários, que atendem o luxo exigente das grandes gravadoras e esquecem da função básica de servir ao povo, o que significaria viver em pleno repertório da nossa gente.
Repertório de canções que falam a alma do povo, o que quer dizer, o artista, assim como, o escritor e o poeta, têm que pensar na felicidade do povo, ele é como o zelador das estrelas, que varre o céu, retirando nuvens pesadas, o que significa, retratando a alma e a vida do povo através das canções e de uma postura ética, o artista cumprirá o seu papel.Postura ética é algo precioso hoje em dia.
Vamos tentar organizar um pouco a coisa:inevitável que a arte seja mercadoria. Mercadoria que merece tratamento específico!, assim como qualquer outra, o vinho, uma peça de roupa, enfim.Ela é mercadoria porque resulta um produto do sistema capitalista, isso não pode ser impedido.Mas precisa ser uma mercadoria ética. Esse assunto poderá ser tratado posteriormente, por enquanto nos interessa o artista.
Ele não pode ser uma mercadoria, pois afinal ele é o guardião da ética da sua arte!
A mídia, a indústria da arte e do lazer, a indústria cultural, a mídia enfim, não é um monstro invencível e aterrorizante, ao contrário, tem que ser um aliado, um amigo, mais que isso, a mídia tem que ser uma servidora da arte!
O artista tem que se valer da mídia para difundir, divulgar eticamente a sua arte, se preservando a qualquer custo, a qualquer preço.
Isso não significa encastelamento, silêncio, distanciamento, mas sim, ao contrário, o artista tem o dever ético de se manifestar como cidadão que é, sobre as aflições da sua gente. Ele tem uma ligação profunda com o cidadão anônimo que entra numa livraria e compra o seu livro, ou numa loja e compra o seu disco, ou paga o ingresso e está na platéia assistindo ao espetáculo ou no escuro do cinema assistindo o resultado do seu trabalho.
Manifestar-se sobre o pedreiro torturado, sobre o menino da carvoaria, sobre o Carlos Gomes da favela, sobre as pessoas agredidas moralmente dentro das inúmeras periferias do país e também se manifestar sobre as dores do mundo, sentir tragicamente, os ataques aos povos indefesos e inocentes, às matanças dos animais, preocupar-se com as fontes esgotáveis de recursos naturais, com a depredação da natureza, com as mulheres mutiladas por tradições religiosas incompatíveis com a vida humana, enfim, o artista como um cidadão, e também como ser humano, não pode esquecer da sua tríplice condição.
A tríplice condição é a exigência ética que deve supervisionar diariamente o artista, seja o escritor, o poeta, o pintor, o artista plástico, o cantor, o compositor, o jogador de futebol, que é uma espécie de artista, qualquer dúvida pergunte à Garrincha, ao Pelé, ao Coutinho, ao Pepe, enfim.
Tríplice condição, cidadão, ser humano, artista. Cidadão significa cidadania, está vinculado à vida da cidade, da Polis, uma espécie de patriota, no bom sentido. Ser humano, está vinculado ao planeta, ao bem estar de todos os seres vivos, e artista está vinculado ao palco, todo artista está num eterno palco, um escritor está num palco, um artista plástico...
Deve se dar no campo da sua produção artística o relacionamento do artista com a mídia. Parece complicado e de difícil assimilação essa idéia, mas talvez possa ser um pouco esclarecida agora.
A mídia pode de fato ser benéfica ao artista, ao produtor cultural, mas também extremamente perniciosa, maléfica. Vejamos o que isso significa: A mídia, como servidora do artista divulgará a sua arte. Mas o artista não pode permitir essa confusão atual quando se mesclam as suas três condições. O cidadão, o artista e o ser humano, entrelaçam- se na mídia e o resultado é essa deformação.
Quando o artista, para faturar e enriquecer mais e atendendo aos ditames da indústria da cultura aparece em comerciais televisivos vendendo a sua imagem em propaganda de cigarros, bebidas, consórcios de carros, bancos e extrato de tomate ou temperos, quem está sendo prejudicado, o cidadão, o ser humano ou os três?
Seria essa a consciência artística de que finalmente o público é apenas um consumidor? O grande consumidor, sem voz e sem vez, apenas com mãos para aplaudir e dinheiro para consumir? Então, que diferença faz uma canção de amor, uma cena romântica num filme ou um anúncio de extrato de tomate ou de titulo de capitalização? Que diferença faz uma canção deixar alguém feliz e depois reaparecer num comercial de tempero ou num título de capitalização? Mas, poderiam argumentar, se é que deuses argumentam, que o artista precisa ganhar dinheiro, sim, claro, inclusive alguns têm mansões no Brasil e no exterior tão ricas que me sinto até humilhado de entrar numa loja e comprar um simples cd,acho que o artista nem vai pensar em mim, um simples alguém entrando numa loja e comprando um simples cd que injustamente custa $25,00, preço que não é culpa do artista, que afinal usa do seu poder hipnótico de imagem para denunciar essa exorbitância e exigir que a “indústria” e o comércio sejam razoáveis e assim o seu povo, a sua gente, possa ser feliz e ter o direito de presentear alguém, sem medo. Artista ajuda a vender extrato de tomate, títulos de capitalização, carros, botas, companhia aérea? Sim, ajuda, e muito.
Quando uma artista televisiva apareceu no palco da campanha das diretas e na mesma noite na tela vendendo um produto de capitalização, o que isso significou na mente popular? Qual a saída para isso? Uma advertência como nas propagandas de cigarros? Assim, tipo, ESSA PROPAGANDA É FEITA EXCLUSIVAMENTE PELA IMAGEM DO ARTISTA, E NÃO PELO CIDADÃO FULANO DE
TAL.I sso seria uma saída enganosa, um paliativo que não resolveria o problema, uma solução ilusória, que favoreceria o engodo e facilitaria a acomodação das consciências.
Bem, esse é apenas um aspecto da questão da ética no universo artístico. O urgente aqui é que o artista tome consciência imediatamente da sua tríplice condição, principalmente o escritor e o poeta e os artistas que não estão enlaçados na imensa teia da mídia.
Quando houver a junção das três condições do artista, então atingiremos o ponto ético, o grau da ética. E o artista deixará de ser uma coisa alienante que faz do público o seu brinquedinho.
A pergunta insiste: Onde está o Brasil? Vozes tentam responder faz tempo, Celso Martinez, Augusto Boal, Paulo Freire, Henfil, Marilene Felinto, Chico Buarque...
É preciso então que o Brasil seja descoberto, que todas as gentes saibam onde está o Brasil, que a maioria dos políticos descubra o Brasil, o Brasil que precisa ser urgentemente encontrado, pois o pedreiro torturado nele está, e o menino da carvoaria também.
(novembro/2001)
Marciano Vasques,
escritor
e professor
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.com.br