Marciano Vasques
  

A OMISSÃO GERA SUCATA

Conheci hoje, 26 de novembro de 2001, a educadora Terezinha Bertin. Causou-me admiração a suavidade que ela utiliza naturalmente para expor o seu pensamento e a sua teoria. 

Professora universitária, especialista em comunicação, realiza um trabalho de palestras e oficinas, em escolas, editoras e oficinas pedagógicas. Fala de coisas profundas sempre com a tonalidade doce.

Compreendi o quanto tenho que aprender com ela.

A educação artística está sucateada. Educação Artística virou sucata. O aluno faz trabalho com sucata das primeiras séries até o ensino médio. É só isso: sucata! A provável causa do sucateamento da Educação Artística na escola pública é o fato incontestável de que a arte é transformadora, inquietante, revolucionária. A amplitude da arte é imensa, além de que a arte modifica internamente o sujeito e o transforma num questionador em potencial. Então: sucata! Para impedir que a arte cumpra o seu papel. Eis um fragmento do pensamento de Teresinha Bertin.

Senti imediatamente que o ideal acadêmico está expresso na suavidade da professora Terezinha Bertin. Suavidade e firmeza, convicção e coerência.

Educação é a atividade por excelência. Não dá pra entrar no meio por aventura. Quem entra pensando em holerite, dançou. Melhor buscar outra atividade.Trabalhar com alfabetização é ter o olhar multiplicador para as novidades do mundo. Não é fácil alfabetizar. Ensinar uma criança a ler, tornar alguém apto para ler um texto, é uma missão arriscada, porque alguém que consegue ler um texto está preparado para o mundo.

Alfabetizar uma criança de seis anos é um risco, os estragos podem ser permanentes. Uma criança de seis anos ainda não está preparada para ficar sentada. Ainda não chegou o tempo dela ficar sentada quatro horas. Ela está preparada para aprender brincando, essa é a vantagem da criança, ela aprende brincando. Se quiser idiotizar a criança ou soterrá-la como se fosse um vaso, então primeiro precisa domesticá-la, o que quer dizer, ensiná-la a ser passiva, obediente, ensiná-la a permanecer sentada e calada.

Assim que ela compreender que não pode abrir a boca para aprender a decodificar os símbolos, aprenderá a ler sem ler, estará apta para ser um adulto frustrado, vivendo permanentemente com a sensação de impotência.

A escola forma um bando de gente que se julga incompetente. O massacre do aluno é gritante. Durante anos ele teve que conviver com um ambiente de hostilidade, onde lhe ensinaram a odiar a leitura, onde ele não teve a oportunidade de aprender a ler um texto.

Toda pessoa é talentosa e toda pessoa é capaz. Não existe dom, no sentido estreito da palavra. O que é existe é mais exercício ou menos exercício.O aluno passou oito anos da vida dele e não aprendeu a se exercitar. Resultado, chega no ensino médio e não sabe ler um texto.

O chamado dom é coroado pela exercitação constante, pela persistência pedagógica, pelo afeto do professor.

O aluno não sabe o que é a poesia, talvez nem consiga sentir as imagens sinestésicas só pela palavra, e essa coisa estranhamente polissêmica, que é a poesia, parece distante dele.A professora que foi formada só no narrativo, tem medo do poético. Não conviveu com a poesia. Toda educação é essencialmente poética. Caso contrario, algo está fora da ordem.

Ludicamente poética é a educação, e a escola devia abandonar definitivamente o cinza e invadir a alegria da criança, a escola é emburrada, cheia de pessoas despreparadas, algo está errado, o concurso público não valida ninguém, ninguém pode ser chamado de educador por ter feito um magistério ou prestado um concurso público ou feito uma pedagogia. O que valida alguém vem antes, está na essência, e a essência se faz no querer, e o querer se faz no poético.

Um texto é naturalmente sedutor, já há muita gente escrevendo sobre isso, o texto sedutor chama pelo leitor, provoca o leitor, espera pelo leitor, faz o leitor, e o leitor tem que ser como a criança, tem que gostar de estar no texto, e isso é típico da criança, ela gosta de estar no texto, se leu por obrigação, não valeu. Ninguém forma leitores obrigando a ler um livro e aplicando uma prova. Isso é a coisa mais bestialmente antiga. Mandar ler um livro e fazer uma prova.Ora, o que prova a prova que não esteja conectada com o desejo? A prova não é nada, a prova só tem sentido se for sedutora, senão é um massacre inútil,se é que pode ser útil qualquer massacre.

A leitura do texto tem que ser a leitura do leitor e não a leitura do professor. Muitas vezes o aluno é um mecanismo de repetição, às vezes notável. E quando o professor dá visto sem ter lido o trabalho produzido pelo aluno? O aluno pode escrever o que quiser ali, pois o professor dará visto. Quando o aluno percebe que o professor não lê, que ele só dá visto, ele passa a ser cúmplice da mentira.

A maioria das pessoas que trabalham na escola publica não está preparada para isso. Há um descompasso entre as visões antagônicas, distantes, e não me refiro só ao professor, mas a todos os funcionários, pois o educador deveria começar no sujeito que abre o portão, passar pelas merendeiras, e chegar até as diretoras, que, a maioria, infelizmente, se julga apenas as donas do prédio, excessivamente legalistas, e por força do medo, impedem qualquer avanço da escola, pois são tecnicamente burocráticas, com uma montanha de papel sobre a mesa, um quilo de documentos para assinar, e não têm nem tempo nem vontade de apoiar qualquer iniciativa cultural que fuja aos padrões e ajude a escola a avançar. Como são severamente supervisionadas, e precisam responder pelo andamento da escola, tornam–se barreiras instransponíveis na escola, pois ainda é definitivo que quem manda é a diretora.

A educação tinha que ser humanista e poética, mas não é, isso é um drama verídico, é a historia do relâmpago puxado pelo carro de boi.

Professores que são diferentes, geralmente se isolam. E o isolamento é mais discreto que o racismo.

Aprender a ler um texto, descobrir e amar a poesia, libertar a arte da sucata, deixar o aluno crescer, escolher outra cor diferente do cinza, há tanto por ser feito!

Há também muitos discursos carregados de intenções. Há muita gente dizendo ser progressista, outros afirmando que são construtivistas, assim como alguns se dizem cristãos pelo fato de ler a Bíblia ou de seguir obrigações eclesiásticas, ou ainda marxista, talvez até por ter lido O Capital, sem porém conhecer o marxismo em sua profundidade filosófica, filosofia humanista, coisa que se perdeu faz tempo.

Estamos vivendo uma época de perdas e danos, um tempo contraditoriamente difícil, onde temos uma arrancada espetacular da ciência, que nos trouxe a Internet com seus mais ou menos dez por cento de utilidade, e ainda temos que lidar com o atraso de viver angustiado pela falta de consciência do professor.

Sempre lembrando que há grandes professores e resistentes humanistas na escola pública, não é possível ocultar para sempre uma verdade indissolúvel, a de que o professor é o maior responsável pela situação da escola pública no que se refere á educação. Seria tão bom se eu dissesse que o único culpado é o governo!

É claro que o governo também é tolo, além de esfarelar o professor com o pagamento injusto, está entupindo as escolas de São Paulo de computadores, como se isso pudesse transformar alguma coisa, seria o mesmo que dizer que a Internet mudou as pessoas. Não mudou! Quando a Internet começou a ser popularizada com a Gloria Perez, pensou-se que talvez a humanidade atingisse um novo degrau. Puro artifício. Ninguém muda por causa da informática, a maioria das salas de bate-papo demonstra o que estou tentando dizer, assim como na escola crianças em fila indiana, e sentadas diante da eterna lousa,fornecem o exemplo para ilustrar o que tento expressar.

Está certo que da forma como a escola está hoje, o modo de ser da educação, fica difícil grandes avanços, pois as disciplinas separadas formam um bando de especialistas que só contribuem para fragmentar mais a educação. O especialista em geografia, o especialista em história, o especialista nisso e o especialista naquilo, e tome nomes de rios, lagos, acidentes geográficos, gráficos, e tome e tome e tome, e tome visto, e tome notas, conceitos.

Todos deviam ser especialistas na educação poética, assim não ficaria um culpando o outro, caso isso realmente aconteça, assim, tipo, meu aluno não sabe ler um texto porque não aprendeu com o professor de português.

E depois há professor dizendo que uma hora é construtivista, que uma hora é tradicional, outra hora é tecno-burocrático, outra é liberalista, outra é dialético, etc. Ora, isso não existe! O que determina o que você de fato é, é a sua consciência, a sua essência, o que você é essencialmente no pensamento, não a forma que você usa para dar determinada atividade.

O professor precisa de vez assumir o seu papel de transformador, compreender finalmente que ele é o responsável pela sociedade, pois forma cidadãos, pois ensina pessoas a lerem um texto, pois forma leitores, e verdadeiros leitores não são enganados.

Cada adulto é também resultado dos professores que teve na infância.

Quem teve bons professores, verdadeiros mestres –os que aprendem enquanto ensinam, os que vivem eternamente para aprender-, quem teve professores assim é um cidadão sem medo, um autêntico leitor.

A escola pública precisa se modernizar, já passou da hora. E para isso, não basta dizer que precisa de recursos, pois recursos são importantes, mas não são determinantes. Não adianta recursos se não se muda o professor, se ele insiste em permanecer imutável, se ele não quer formar leitores, se ele não compreender que a única saída possível é uma educação humanística e poética. Se ele continuar auto-suficiente, achando que é o dono do saber, intocável, achando que está acima das criticas, se continuar se recusando a aceitar que a escola só anda com os passos do professor. 

Não adianta entupir a escola de computadores, se o professor continuar portador da recusa em ver que o sol penetrará na escola só com a permissão do professor.

O professor é aquele que forma o leitor, portanto é aquele que assegura uma sociedade saudável. A escola do futuro deverá abraçar a comunidade, seus braços serão longos e confiantes, e a comunidade estará preparada para o texto. Se a recusa continuar, ela significará omissão, e assim se ampliam os sinônimos. Talvez esteja a educação como um todo sucateada, e a sucata tem origem na omissão.

 
(dezembro/2001)


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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