Marciano Vasques
  

ALMAS MACHUCADAS

“A alma machucada pelo esforço da busca”.  Assim diz Eduardo Galeano. No entanto, há outros machucados, causados pela falta da busca. Entretanto, quaisquer que sejam as origens dos machucados, a cicatrização é sempre dolorida e quase nunca eficaz.

Os primeiros machucados são imperceptíveis, por causa da falta de malícia. Depois, por causa do hábito, assim continuam.

Falta de malícia que significa desconhecimento do mundo. Hábito que significa falta de atenção, que é sinônimo do descuido que nos penetra como fiapos de ácido corrosivo por entre as fendas do cotidiano.

Desconhecimento do mundo que revela o distanciamento do ser: a condição de intocável que cresce como uma crosta de indiferenças mesclada ao desapego.

O desapego é um mal de proporções infindáveis que surge a cada desprezo. Os desprezos são aparentemente imperceptíveis. O desapego revela o despreparo do ser.

As fendas do cotidiano representam o oferecimento da possibilidade da poesia, dissolvido pela insensatez.

Indiferenças mescladas ao despreparo do ser significa o abandono do ser. O ácido corrosivo pode ser a própria insensatez.

A possibilidade da poesia quer dizer o gesto da simplicidade que escoa diariamente em cada vida.

A crosta que se forma é a tola insistência do ser em se manter distante.

A distância toma forma em cada grito, em cada gesto e em cada rispidez. A vida é brusca e contracena com a distância. A distância tende para o hábito.O hábito se alimenta gerando novas distâncias.

O ser modelado em distâncias resvala para o abandono.

O seu abandono representa o abismo profundo em que caíram os organizadores das sociedades humanas ao privilegiarem bens efêmeros.

O abismo é disfarçado, camuflado com o conforto.

O conforto atua como analgésico. Seu efeito anestesiante colabora com o distanciamento do ser. O distanciamento do ser atua sobre ele, enfraquecendo-o. O enfraquecimento do ser favorece o desenvolvimento da tristeza. A tristeza não diz respeito à vida. A tristeza tem o poder de prisão. O ser entristecido não ama a vida verdadeiramente. A vida não amada não merece ser vivida.

A prisão também é imperceptível.

Bens efêmeros estão nos gestos, nas palavras e nas intenções ocultas.

As palavras que desperdiçam o tempo e falam de ilusões, as intenções inconfessáveis e os gestos sem firmeza compõem a efemeridade dos bens.

Também a posse de objetos substitui a vida autêntica, quando os objetos ocupam no centro do coração humano o espaço dedicado aos sentimentos grandiosos.

A insensatez é encenada em gestos bruscos e brutos, na indiferença, nas palavras ásperas e na ausência de diálogo.

Embora imperceptível, a prisão é sentida em forma de labirinto. O ser dentro do labirinto vai estreitando o seu caminho. O caminho estreitado se manifesta na vontade dilacerada. A vontade dilacerada está presente nos gestos sem autonomia. O labirinto é tecido pelo próprio ser. O material da construção do labirinto é composto pela vontade dilacerada e pela aceitação da opressão.

A autonomia é caracterizada pela recusa de tudo que oprime o ser. As formas de opressão se manifestam na vida artificial.

A vida artificial substitui a leveza do olhar voltado para a simplicidade. O olhar voltado para a simplicidade é contagiado e preenchido pelo amor.

O amor que preenche o olhar voltado para a simplicidade é produtivo. A sua produtividade se manifesta na vida vivida com alegria.

A ausência de produtividade reduz o ser. O ser é reduzido na sua capacidade de amar.Tal redução interfere na sua alegria. A alegria está sempre relacionada com a vida. O ser alegre rejeita a idéia da morte, que está vinculada à tristeza. O ser reduzido em sua capacidade de amar produz a sua própria negação. Tal negação é o seu envolvimento com o labirinto.

A tristeza é a ausência de produtividade. A produtividade fortalece o talento. O talento revela a potência do ser. O ser potente preenche o coração com a alegria.

O coração sem alegria murcha o ser.O ser murcho revela-se impotente.A impotência consome o ser, que passa a viver em função de alimentá-la.A necessidade de alimentar a impotência escraviza o ser. O ser escravizado retorna freqüentemente ao labirinto.

O gesto da simplicidade traduz a essência poética do ser. O ácido corrosivo é a reação do ser que se apresenta em forma de desatenção, que é o descuido que esmaga a fonte generosa da poesia.

A reação significa tristeza.Toda desatenção é triste. Toda indiferença é triste.

Os bens efêmeros representam a ilusão do encontro com a felicidade, o que significa a consolidação da falta de autenticidade na vida.

A vida sem autenticidade impõe o tempo como valor monetário,e os objetos como substituto do afeto verdadeiro, o que requer uma expansão inadequada do ser: Objetos perdem a sua característica e parecem dotados de vida. Isso faz com que ocorra a transformação absurda que leva o ser à coisificação. O ser coisificado é confundido com o objeto e passa a ser valorizado pela existência do próprio. A sua estranha valorização o leva a uma crescente necessidade de posse. O ser se afirma pelos objetos que possui. Incapaz de amar verdadeiramente os seres da natureza, demonstra o seu amor exagerado pelos objetos.

A vida como fonte generosa da poesia passa despercebida e a alma é mutilada.

A mutilação da alma se dá pelo acúmulo de resíduos deixados pelos machucados imperceptíveis.

A ausência do afeto verdadeiro representa a grande perda do ser. A grande perda é fonte inesgotável de tristeza.

O ser invadido pela tristeza da grande perda, busca , desesperado, a compensação na posse dos objetos. A posse das coisas transmite a sensação de segurança que é confundida com a felicidade.

Incapaz de se voltar ao outro e experimentar o gozo do afeto verdadeiro a cegueira se instala.

O ser invadido pela cegueira não reconhece na vida a fonte generosa da poesia.

O afeto verdadeiro não é egoísta e tem a natureza da expansão benéfica do ser.

Com a instalação da cegueira, a alma machucada anula a alegria do esforço da busca.

O desenvolvimento da consciência significa a abertura do ser para a fonte inesgotável da poesia.

Tal abertura é simbolizada pelo olhar voltado para o poético.Tal olhar é produtivo e preenchido pelo amor voltado para a simplicidade.

O olhar assim preenchido torna-se apanhador da generosidade da vida.

A generosidade da vida será sempre poética.

O poético reside na simplicidade. A simplicidade capacita o ser para a poesia.

Com o ser pleno de capacidade poética, a alma machucada pelo esforço da busca, mesmo ferida, transborda de luzes e é feliz.

A felicidade de tal alma traz o contentamento e a alegria inabalável.

Com a recusa da simplicidade, portanto do poético, a alma machucada se torna prisioneira permanente da tristeza.

O ser prisioneiro da tristeza, morre.

Seus resíduos são recolhidos no labirinto.


(março/2002)


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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