13/04/2002
Número - 254

 

Marciano Vasques
  

AVENTURA GREGA

  

Tudo flui; O ser é imóvel; É o inicio.

Na praça, o cidadão instaura o debate. A noção da coisa pública invade a mente humana. Os deuses se recolhem; A arte da retórica e o estatuto da verdade; A ironia e a maiêutica, o filósofo dá à luz as novas idéias, o logos do filósofo; O Sol, o filósofo instrutor dos homens retorna à caverna; A fusão do sensível com o inteligível, O pensamento filosófico teologizado; A metafísica grega influenciando o pensamento humano e atravessando séculos. É o nascedouro da aventura grega.

Com a pólis aparece o pensar filosófico e com ele o cidadão e o filósofo, aquele que ocupa o espaço da ágora: lugar de discussões sobre os problemas da cidade. A palavra toma o lugar do pensamento mágico. Os olhos da coruja estão abertos. O pensamento mítico não mais satisfaz nem responde aos anseios de compreensão das leis naturais. Cosmogonias e seus deuses não mais atendem os que de explicações necessitam. Afrodite não mais surgirá das espumas do mar e os deuses não mais verão malícia no sorriso puro de Pandora. A praça converteu-se num shopping de debates entre os homens.

Nas colônias gregas o inicio do rompimento. A arché significa conceito e a busca de fundamentações conceituais move o filósofo de Éfeso, assim como o de Eléia.

Porque todas as coisas mudam sem cessar, e nada do que foi será, Heráclito fala.

O seu rio é o rio da vida, as águas mudam, o homem que se banhou adquiriu uma nova experiência e quando retorna não é o mesmo. O rio também não.

O fogo e as águas do rio. O fogo, metáfora perfeita, símbolo da eterna agitação do devir. O fogo roubado por Prometeu, agora é o fogo da eterna chama, fogo que é vida, vida que é movimento, agitação, luta, paixões, dores, quereres. É o fogo que Heráclito elege.

A harmonia nasce da luta, dos conflitos, dos antagonismos. A multiplicidade do ser está evidenciada nas oposições.

O ser é imóvel, único, imutável e infinito. O movimento é ilusório e existe no mundo sensível. O mundo verdadeiro é o do intelecto. Assim Parmênides, preparando o terreno e contrapondo-se ao pensamento heraclitiano, finca as bases metafísicas com o seu “principio de identidade”, e influencia o pensamento ocidental.

Vinculados aos comerciantes emergentes, os sofistas são duramente criticados por Platão e Sócrates. A arte da retórica, o uso articulado da palavra, do raciocínio que desencadeia conclusões, o caminhante espalha a sua pedagogia e ensina os jovens das cidades. “Professor da sabedoria”, o sofista, predominantemente formalista, com esmero se vale da argumentação retórica, da palavra persuasiva para atingir o estatuto da verdade: o seu estatuto filosófico. Contemporaneamente há tentativas de se recuperar o sentido original da sofistica, cuja importância foi desprezada por causa da posição ferrenha de Platão e Sócrates.

A deformação do ideal sofista encontra várias razões. Uma delas é o nomadismo intelectual. Sofistas não se fixam em território algum. Nos séculos seguintes, influenciam profundamente a pedagogia, contribuindo decisivamente na construção de um aparato educacional que vigorou durante a idade média.

Genuinamente elaboram o ideal teórico da democracia, -valorizada pelos comerciantes em ascensão. Responsáveis por levar a juventude ao debate teórico, implantam a retórica, o domínio deslumbrante da palavra, a técnica da persistência através do verbo e edificam a arte da verdade através da lapidação técnica da razão.

Maiêutica, o filósofo “dá à luz”, traz ao mundo idéias novas. Para ele, cicuta.

O filosofo envenena mentes da cidade. Perverte-as com a sua luz, deverá morrer.

A postura socrática rejeita deuses, e a cidade o condena. “Sei que nada sei”: este é o seu oráculo. Destrói a certeza do interlocutor. A sua generosidade, -a sua cortesia-, é a sutileza, é a metodologia da sua palavra. Há uma leveza no diálogo socrático. Se Platão, para romper com a mudez, inventou o diálogo, Sócrates, hábil, por intermédio de perguntas, desmonta o saber constituído. Essa é a atitude inicial necessária para se reconstruir gradativamente a verdade, que virá à luz no parto filosófico. Desmontar o saber sedimentado é o primeiro passo do filósofo dialógico em busca da definição do conceito: é o seu logos, a palavra transformada em conceito.

Homens prisioneiros das sombras no fundo de uma caverna. O Sol, como a metáfora perfeita da luz. O olhar educado para a vida, para a visão do mundo, o olhar educado para a liberdade.

O que aconteceria com os homens prisioneiros se pudessem se libertar do mundo subterrâneo?

O belo mito acena com a teoria das idéias de Platão. O múltiplo e ilusório mundo sensível, mundo dos sentidos (fenômenos), mundo dos movimentos, cópia do mundo das idéias - o mundo inteligível, a imutabilidade (a cada sombra corresponde uma essência imutável), o que pode ser alcançado pela contemplação.

Na hierarquia das idéias está a idéia do Bem. Platão sistematiza os pensamentos de Parmênides e de Heráclito e através da adequação que promove, une-os, referindo a cada um, um dos mundos da sua teoria. Um se refere ao mundo das idéias, outro, ao dos sentidos. O mundo ideal e o fenomenal se encontram em correspondência nos dois pré-socráticos.

O filósofo, aquele que deixou o mundo da caverna e encontra a episteme, deve retornar à doxa para instruir os homens. Portador da visão da luz perverterá os homens em estado de sombras.

Platão funda a Academia, Aristóteles, - pensador levado à teologia -, o Liceu.

Rejeita o mundo das idéias de Platão, e funde o mundo sensível e o inteligível, no conceito de substância -com seus atributos essenciais e acidentais.

Essência e acidente, matéria e forma.

Forma, princípio indeterminado da coisa física, aquilo de que é feito algo. Forma é aquilo que faz com que uma coisa seja o que é.

Todo ser é constituído de matéria e forma, princípios indissociáveis. A matéria contém a forma em potência. A semente, gerada por uma árvore em ato, se tornará a árvore que é em potência. Ato e potência, princípios aristotélicos.

A atualização da potência é o movimento.

A primeira causa, o primeiro motor, a causa não causada, imóvel, puro ato sem potência: Deus. Assim foi à teologia o pensamento de Aristóteles levado.

A filosofia grega, ao separar-se do pensamento mítico, desencadeia elaborações conceituais para que a realidade seja compreendida, sem a intervenção divina. O território dos homens começa a ser humano. A travessia é longa.

A metafísica, no pensamento grego, foi a responsável pelo exame de conceitos ligados diretamente ao ser. Nessa linha, estão Platão, Parmênides e Aristóteles, cuja compreensão contemporânea os reconhece como pensadores metafísicos, com enormes contribuições na busca de conceitos relativos ao ser. A sistematização dos pensamentos platônico e aristotélico influenciará o pensamento medieval.


(13 de abril/2002)


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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