Marciano
Vasques
AVENTURA GREGA |
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Tudo
flui; O ser é imóvel; É o inicio.
Na praça, o cidadão instaura o debate. A noção da coisa pública invade a mente
humana. Os deuses se recolhem; A arte da retórica e o estatuto da verdade; A ironia e a
maiêutica, o filósofo dá à luz as novas idéias, o logos do filósofo; O Sol, o
filósofo instrutor dos homens retorna à caverna; A fusão do sensível com o
inteligível, O pensamento filosófico teologizado; A metafísica grega influenciando o
pensamento humano e atravessando séculos. É o nascedouro da aventura grega.
Com a pólis aparece o pensar filosófico e com ele o cidadão e o filósofo, aquele que
ocupa o espaço da ágora: lugar de discussões sobre os problemas da cidade. A palavra
toma o lugar do pensamento mágico. Os olhos da coruja estão abertos. O pensamento
mítico não mais satisfaz nem responde aos anseios de compreensão das leis naturais.
Cosmogonias e seus deuses não mais atendem os que de explicações necessitam. Afrodite
não mais surgirá das espumas do mar e os deuses não mais verão malícia no sorriso
puro de Pandora. A praça converteu-se num shopping de debates entre os homens.
Nas colônias gregas o inicio do rompimento. A arché significa conceito e a busca de
fundamentações conceituais move o filósofo de Éfeso, assim como o de Eléia.
Porque todas as coisas mudam sem cessar, e nada do que foi será,
Heráclito fala.
O seu rio é o rio da vida, as águas mudam, o homem que se banhou adquiriu uma nova
experiência e quando retorna não é o mesmo. O rio também não.
O fogo e as águas do rio. O fogo, metáfora perfeita, símbolo da eterna agitação do
devir. O fogo roubado por Prometeu, agora é o fogo da eterna chama, fogo que é vida,
vida que é movimento, agitação, luta, paixões, dores, quereres. É o fogo que
Heráclito elege.
A harmonia nasce da luta, dos conflitos, dos antagonismos. A multiplicidade do ser está
evidenciada nas oposições.
O ser é imóvel, único, imutável e infinito. O movimento é ilusório e existe no mundo
sensível. O mundo verdadeiro é o do intelecto. Assim Parmênides, preparando o terreno e
contrapondo-se ao pensamento heraclitiano, finca as bases metafísicas com o seu
principio de identidade, e influencia o pensamento ocidental.
Vinculados aos comerciantes emergentes, os sofistas são duramente criticados por Platão
e Sócrates. A arte da retórica, o uso articulado da palavra, do raciocínio que
desencadeia conclusões, o caminhante espalha a sua pedagogia e ensina os jovens das
cidades. Professor da sabedoria, o sofista, predominantemente formalista, com
esmero se vale da argumentação retórica, da palavra persuasiva para atingir o estatuto
da verdade: o seu estatuto filosófico. Contemporaneamente há tentativas de se recuperar
o sentido original da sofistica, cuja importância foi desprezada por causa da posição
ferrenha de Platão e Sócrates.
A deformação do ideal sofista encontra várias razões. Uma delas é o nomadismo
intelectual. Sofistas não se fixam em território algum. Nos séculos seguintes,
influenciam profundamente a pedagogia, contribuindo decisivamente na construção de um
aparato educacional que vigorou durante a idade média.
Genuinamente elaboram o ideal teórico da democracia, -valorizada pelos comerciantes em
ascensão. Responsáveis por levar a juventude ao debate teórico, implantam a retórica,
o domínio deslumbrante da palavra, a técnica da persistência através do verbo e
edificam a arte da verdade através da lapidação técnica da razão.
Maiêutica, o filósofo dá à luz, traz ao mundo idéias novas. Para ele,
cicuta.
O filosofo envenena mentes da cidade. Perverte-as com a sua luz, deverá morrer.
A postura socrática rejeita deuses, e a cidade o condena. Sei que nada sei:
este é o seu oráculo. Destrói a certeza do interlocutor. A sua generosidade, -a sua
cortesia-, é a sutileza, é a metodologia da sua palavra. Há uma leveza no diálogo
socrático. Se Platão, para romper com a mudez, inventou o diálogo, Sócrates, hábil,
por intermédio de perguntas, desmonta o saber constituído. Essa é a atitude inicial
necessária para se reconstruir gradativamente a verdade, que virá à luz no parto
filosófico. Desmontar o saber sedimentado é o primeiro passo do filósofo dialógico em
busca da definição do conceito: é o seu logos, a palavra transformada em conceito.
Homens prisioneiros das sombras no fundo de uma caverna. O Sol, como a metáfora perfeita
da luz. O olhar educado para a vida, para a visão do mundo, o olhar educado para a
liberdade.
O que aconteceria com os homens prisioneiros se pudessem se libertar do mundo
subterrâneo?
O belo mito acena com a teoria das idéias de Platão. O múltiplo e ilusório mundo
sensível, mundo dos sentidos (fenômenos), mundo dos movimentos, cópia do mundo das
idéias - o mundo inteligível, a imutabilidade (a cada sombra corresponde uma essência
imutável), o que pode ser alcançado pela contemplação.
Na hierarquia das idéias está a idéia do Bem. Platão sistematiza os pensamentos de
Parmênides e de Heráclito e através da adequação que promove, une-os, referindo a
cada um, um dos mundos da sua teoria. Um se refere ao mundo das idéias, outro, ao dos
sentidos. O mundo ideal e o fenomenal se encontram em correspondência nos dois
pré-socráticos.
O filósofo, aquele que deixou o mundo da caverna e encontra a episteme, deve
retornar à doxa para instruir os homens. Portador da visão da luz perverterá
os homens em estado de sombras.
Platão funda a Academia, Aristóteles, - pensador levado à teologia -, o Liceu.
Rejeita o mundo das idéias de Platão, e funde o mundo sensível e o inteligível, no
conceito de substância -com seus atributos essenciais e acidentais.
Essência e acidente, matéria e forma.
Forma, princípio indeterminado da coisa física, aquilo de que é feito algo. Forma é
aquilo que faz com que uma coisa seja o que é.
Todo ser é constituído de matéria e forma, princípios indissociáveis. A matéria
contém a forma em potência. A semente, gerada por uma árvore em ato, se tornará a
árvore que é em potência. Ato e potência, princípios aristotélicos.
A atualização da potência é o movimento.
A primeira causa, o primeiro motor, a causa não causada, imóvel, puro ato sem potência:
Deus. Assim foi à teologia o pensamento de Aristóteles levado.
A filosofia grega, ao separar-se do pensamento mítico, desencadeia elaborações
conceituais para que a realidade seja compreendida, sem a intervenção divina. O
território dos homens começa a ser humano. A travessia é longa.
A metafísica, no pensamento grego, foi a responsável pelo exame de conceitos ligados
diretamente ao ser. Nessa linha, estão Platão, Parmênides e Aristóteles, cuja
compreensão contemporânea os reconhece como pensadores metafísicos, com enormes
contribuições na busca de conceitos relativos ao ser. A sistematização dos pensamentos
platônico e aristotélico influenciará o pensamento medieval.
(13 de abril/2002)
Marciano Vasques,
escritor e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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