Como é possível que a escola siga o seu rumo quando há tanta vida,
como é possível que não compreenda que é preciso uma pausa
autêntica...
Por que a escola não se deixa levar por uma canção?
Não é bem verdade que a escola seja omissa, apenas que ela no fundo
faz parte da própria época, também não pode ser responsabilizada
sozinha. De qualquer forma nunca é demais lembrar que ela é composta
de professores e que é urgente, aliás, não pode mais ser adiado o
império de uma educação humanista. Só uma educação humanista nos
salvará.
Gritaram meu nome para que eu descesse e fosse assistir ao que estava
acontecendo na fórmula 1: o público vaiando.
Comprovava-se finalmente que não há esporte, mas sim dinheiro,
contratos, marcas, logotipos, imagem, mentiras. O povo vaia quando
descobre que é enganado. O piloto ganha muito dinheiro, por isso se
submete vergonhosamente a qualquer cláusula, afinal é a força da grana
que decide. O público, bem, o público...
Causou-me admiração a atitude do técnico da seleção. Um jogador chorou
porque queira ir à copa. Também andou em igreja evangélica, é um
recurso que costuma funcionar, mas dessa vez não deu certo. O técnico
apenas achou interessante, mas o jogador está fora, não se fala mais
nisso.
Entretanto não vale a pena usar o meu tempo e o meu espaço para falar
essas coisas. Melhor falar um pouco sobre a mãe.
A mãe é a que pode tudo. Na detenção há um código entre os presos mais
perigosos: nenhum homem aponta o dedo no nariz do outro. Se fizer
isso, está morto. No dia da visita, uma mulher miúda aponta o dedo no
nariz do preso, um sujeito enorme que abaixa a cabeça e ouve. É a mãe.
Ouvi essa história numa tarde de sábado em São Bernardo. Foi contada
pelo amigo professor Juarez.
O amor da mãe, de caráter universal, construído pelo romantismo, está
fortemente fincado dentro de cada um de nós, e o queremos assim.
O conde Onaicram, um sujeito muito popular entre as professoras da
zona Leste de São Paulo, conta-me coisas da sua terra, fala-me da
importância da literatura infantil na formação da criança, diz que
literatura infantil assim altamente revestida de pedagogia, com função
para-didática, é uma invenção das editoras que deu certo, esse é um
debate intenso, mas o conde apenas salpica os seus comentários
despretensiosos sobre mim, depois diz que ficou emocionado quando
ouviu as primeiras faixas do CD “Uma Dúzia e Meia de Bichinhos” e
promete que manterá sempre contato comigo. Só tenho a ganhar.
Insiste em conversar, fala do pato Donald, do Mickey e de outros
personagens Disney, fala do Horácio, do Cascão, do Bidu e de outros
personagens de Mauricio de Souza, e fala da Professora Maluquinha,
personagem do Ziraldo.
Até hoje me lembro da primeira história que li de Disney, também
quando vi pela primeira vez aqueles desenhos tortos do Bidu, do
Franjinha e do Cebolinha. Não tinha ouvido falar em Moji das Cruzes, e
nada sabia sobre nada. Era apenas um menino leitor de tiras de
quadrinhos alfabetizadoras. Nunca me esqueci do Flash Gordon um dia
gritando pelo nome de Dale Arden enquanto náufrago tentava se agarrar
em algum objeto na vastidão do oceano.
Hoje o tempo chegou até aqui e transito entre o Parque da Mônica, o
Mac Donald e o luxo das revistas de quadrinhos expostas nas bancas.
Despeço-me do conde Onaicram, prometendo um reencontro em breve.
Hoje, dia 14 de março de 2002, uma terça –feira, ouço “A Libélula”.
Obrigado Regina Helena. Como sua voz é linda.
Ouço a doce canção que você fez para o meu CD. Todas as canções que
nasceram do seu coração desde que a ventania a trouxe. Não basta
afirmar que você tem a técnica.
Ouço-a aqui, na Sala de Leitura, num dos meus últimos dias. Obrigado
novamente.
Que Deus, o seu Deus, a proteja sempre. Quem será que sentirá a mesma
emoção que eu ao ouvir a canção que você fez?
São dezoito canções. Em cada uma eu vejo o seu amor, o amor que você
põe em cada melodia que compõe.
O amor que nasceu de você, que é pura música.
Como demorou esse encontro! Por mais que eu diga, não conseguirei
expressar o meu agradecimento.
A secretária de Educação liberou-me. Estou indo para outra secretaria,
na qual desenvolverei projetos culturais. Estou deixando a Educação,
mas estarei aqui, exatamente aqui, onde hoje ouço a canção que você
fez.
Parto com uma estranha tristeza, a qual me esforço prontamente para
dissolver. A luta contra a tristeza é prioridade número um em minha
vida. Tristezas são inevitáveis, mas devem ser enfrentadas com decisão.
Como sou tri, tenho uma ligação tripla, ou seja, estou ligado em três
pilares essenciais da cultura humana, a educação, a filosofia e a
literatura, - onde entra a poesia, sem jamais me considerar um educador
completo, filósofo nem pensar, poeta, apenas alguns rascunhos, e
literato, apenas um esboço, sinto-me na agradável missão de enxotar a
tristeza de nossas vidas, pois os quatros cavaleiros da cultura
humana: o educador, o filósofo, o escritor e o poeta, trafegam no
reino da alegria, da felicidade humana. O educador, assim como os
outros três, são os mais vigorosos e bem armados demolidores da
tristeza, os seus maiores combatentes. Verifico que o trio na verdade é
um quarteto.
Não consigo ligar esse quarteto à tristeza, muito pelo contrário, quem
busca as páginas de um filósofo, de um escritor ou de um poeta ou
então a palavra de um educador, busca a felicidade na sua tradução
mais popular, a alegria.
Então, se há um muro alto e forte, aparentemente intransponível, cuja
matéria prima seja a tristeza, devemos recorrer ao quarteto demolidor,
assim saberemos que uma simples poesia poderá funcionar como broca,
que pulveriza a mais dura rocha do caminho, a tristeza, especialista
em nos amargar, nos transformar em boldo, porém boldo improdutivo.
Eu cá estou com a sua doce canção, Regina Helena, a cantora que viu a
beleza e a força dos bichinhos, que como disse o bom amigo Jovilson
(jovem som) Carvalho, é a força de Deus.