18/05/2002
Número - 259

 

Marciano Vasques
  


A CANÇÃO QUE OUÇO

  

Como é possível que a escola siga o seu rumo quando há tanta vida, como é possível que não compreenda que é preciso uma pausa autêntica...

Por que a escola não se deixa levar por uma canção?

Não é bem verdade que a escola seja omissa, apenas que ela no fundo faz parte da própria época, também não pode ser responsabilizada sozinha. De qualquer forma nunca é demais lembrar que ela é composta de professores e que é urgente, aliás, não pode mais ser adiado o império de uma educação humanista. Só uma educação humanista nos salvará.

Gritaram meu nome para que eu descesse e fosse assistir ao que estava acontecendo na fórmula 1: o público vaiando.

Comprovava-se finalmente que não há esporte, mas sim dinheiro, contratos, marcas, logotipos, imagem, mentiras. O povo vaia quando descobre que é enganado. O piloto ganha muito dinheiro, por isso se submete vergonhosamente a qualquer cláusula, afinal é a força da grana que decide. O público, bem, o público...

Causou-me admiração a atitude do técnico da seleção. Um jogador chorou porque queira ir à copa. Também andou em igreja evangélica, é um recurso que costuma funcionar, mas dessa vez não deu certo. O técnico apenas achou interessante, mas o jogador está fora, não se fala mais nisso.

Entretanto não vale a pena usar o meu tempo e o meu espaço para falar essas coisas. Melhor falar um pouco sobre a mãe.

A mãe é a que pode tudo. Na detenção há um código entre os presos mais perigosos: nenhum homem aponta o dedo no nariz do outro. Se fizer isso, está morto. No dia da visita, uma mulher miúda aponta o dedo no nariz do preso, um sujeito enorme que abaixa a cabeça e ouve. É a mãe.

Ouvi essa história numa tarde de sábado em São Bernardo. Foi contada pelo amigo professor Juarez.

O amor da mãe, de caráter universal, construído pelo romantismo, está fortemente fincado dentro de cada um de nós, e o queremos assim.

O conde Onaicram, um sujeito muito popular entre as professoras da zona Leste de São Paulo, conta-me coisas da sua terra, fala-me da importância da literatura infantil na formação da criança, diz que literatura infantil assim altamente revestida de pedagogia, com função para-didática, é uma invenção das editoras que deu certo, esse é um debate intenso, mas o conde apenas salpica os seus comentários despretensiosos sobre mim, depois diz que ficou emocionado quando ouviu as primeiras faixas do CD “Uma Dúzia e Meia de Bichinhos” e promete que manterá sempre contato comigo. Só tenho a ganhar.

Insiste em conversar, fala do pato Donald, do Mickey e de outros personagens Disney, fala do Horácio, do Cascão, do Bidu e de outros personagens de Mauricio de Souza, e fala da Professora Maluquinha, personagem do Ziraldo.

Até hoje me lembro da primeira história que li de Disney, também quando vi pela primeira vez aqueles desenhos tortos do Bidu, do Franjinha e do Cebolinha. Não tinha ouvido falar em Moji das Cruzes, e nada sabia sobre nada. Era apenas um menino leitor de tiras de quadrinhos alfabetizadoras. Nunca me esqueci do Flash Gordon um dia gritando pelo nome de Dale Arden enquanto náufrago tentava se agarrar em algum objeto na vastidão do oceano.

Hoje o tempo chegou até aqui e transito entre o Parque da Mônica, o Mac Donald e o luxo das revistas de quadrinhos expostas nas bancas.

Despeço-me do conde Onaicram, prometendo um reencontro em breve.

Hoje, dia 14 de março de 2002, uma terça –feira, ouço “A Libélula”. Obrigado Regina Helena. Como sua voz é linda.

Ouço a doce canção que você fez para o meu CD. Todas as canções que nasceram do seu coração desde que a ventania a trouxe. Não basta afirmar que você tem a técnica.

Ouço-a aqui, na Sala de Leitura, num dos meus últimos dias. Obrigado novamente.

Que Deus, o seu Deus, a proteja sempre. Quem será que sentirá a mesma emoção que eu ao ouvir a canção que você fez?

São dezoito canções. Em cada uma eu vejo o seu amor, o amor que você põe em cada melodia que compõe.

O amor que nasceu de você, que é pura música.

Como demorou esse encontro! Por mais que eu diga, não conseguirei expressar o meu agradecimento.

A secretária de Educação liberou-me. Estou indo para outra secretaria, na qual desenvolverei projetos culturais. Estou deixando a Educação, mas estarei aqui, exatamente aqui, onde hoje ouço a canção que você fez.

Parto com uma estranha tristeza, a qual me esforço prontamente para dissolver. A luta contra a tristeza é prioridade número um em minha vida. Tristezas são inevitáveis, mas devem ser enfrentadas com decisão.

Como sou tri, tenho uma ligação tripla, ou seja, estou ligado em três pilares essenciais da cultura humana, a educação, a filosofia e a literatura, - onde entra a poesia, sem jamais me considerar um educador completo, filósofo nem pensar, poeta, apenas alguns rascunhos, e literato, apenas um esboço, sinto-me na agradável missão de enxotar a tristeza de nossas vidas, pois os quatros cavaleiros da cultura humana: o educador, o filósofo, o escritor e o poeta, trafegam no reino da alegria, da felicidade humana. O educador, assim como os outros três, são os mais vigorosos e bem armados demolidores da tristeza, os seus maiores combatentes. Verifico que o trio na verdade é um quarteto.

Não consigo ligar esse quarteto à tristeza, muito pelo contrário, quem busca as páginas de um filósofo, de um escritor ou de um poeta ou então a palavra de um educador, busca a felicidade na sua tradução mais popular, a alegria.

Então, se há um muro alto e forte, aparentemente intransponível, cuja matéria prima seja a tristeza, devemos recorrer ao quarteto demolidor, assim saberemos que uma simples poesia poderá funcionar como broca, que pulveriza a mais dura rocha do caminho, a tristeza, especialista em nos amargar, nos transformar em boldo, porém boldo improdutivo.

Eu cá estou com a sua doce canção, Regina Helena, a cantora que viu a beleza e a força dos bichinhos, que como disse o bom amigo Jovilson (jovem som) Carvalho, é a força de Deus.


(18 de maio/2002)
CooJornal no 259


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.com.br