08/06/2002
Número - 262

- A canção que ouço
- A delegacia da mulher e os discursos
- A educação dos sentidos
- A força suave da poesia
- A escadaria e o escritor
- A memória nos salvará
- A omissão gera sucata
- A que será que me destino
- A riqueza oculta
- A solidão escolhida
- A tríplice condição
- Almas machucadas
- Aquele que diz poeticamente
- As montanhas não esquecem
- As renas esmagam os grous
- Assassinos do tempo
- Aventura grega
- Caleidoscópio da alma
- Cansado de oferecer tesouros
- Débito incalculável
- Em busca do coração da mídia
- Extraordinária forma de felicidade
- Fragmentos de janeiro
- Indenização mental
- Inventário de cicatrizes
- Na noite em que morreu Jorge Amado
- Namorados eternamente
- No laboratório da informática
- No tempo em que a palavra Gal rimava
- O belo que o alheio produz
- O círculo do rabo amarelo
- O discurso do pai da noiva
- O escritor e a lagarta
- O espírito da rã
- O fast food mental
- O lugar primordial
- O passeio dos cavalheiros
- O pronome do amor maior
- O que está longe é melhor
- O radicalismo que conserva
- O sabor passa pela boca
- O significado literário
- O tempo que conduz
- O texto perdido
- Os que nascem em abril
- Paraísos
- Pequeno ensaio para uma genealogia da alma contemporânea
- Poetizando Paulo Freire
- Reflexões em dezembro
- Reflexões na fortaleza da solidão
- Reflexões sobre a literatura infantil
- Semana de vinho e poesia
- Semana Cecília Meireles
- Seres encantados do Brasil
- 26 de agosto

 

Marciano Vasques
  


A POESIA QUE SE TEME

  

Nossas sociedades estão sustentadas por pilares que simbolizam um mercado frio no qual o próprio indivíduo torna-se uma mercadoria. Numa sociedade assim constituída é naturalmente coerente o surgimento de crenças como a de que a poesia, seguindo a trilha da filosofia,é inútil. O próprio mercado apregoa isso com altivez ao passar a idéia de que poesia não vende. Ora o mercado é covarde, pois afinal ele é quem decide o que é vendável e nesse vendaval de hipocrisia, a poesia não lhe causa interesse por motivos outros.

Coerência nem sempre significa decência. Como a regência de tal mercado é o lucro – a sua razão de ser –a poesia não teria serventia. Pura ilusão. Não podemos nos apoiar em ilusões. Mais do que nunca, numa sociedade assim regida por frias leis mercantis, a poesia é necessária.

Necessária como o próprio ar que se respira.Tolice o ser humano ser levado a crer que pode viver sem a poesia.

Talvez soubesse Carlos Drummond de Andrade que a poesia é “a senha do mundo”. Talvez esteja no poeta o hábito das coisas simples.

A poesia busca o olhar voltado para o simples e o devolve ao homem atento. O homem atento está provido de atenção. Esse olhar é necessário para destruir a lógica do olhar mercadológico.

Na batalha travada entre a poesia e a frieza de uma sociedade que beira ao caos humano a poesia se apresenta como o seguro cais.

Pilares do mercantilismo, de troca de bens pela moeda, são fatalmente derrubados pelo poder emanado do seguro cais.

O indivíduo transformado em mercadoria, está abaixo dos animais. Sua vontade está dilacerada pela idéia de que valores mercantis são a razão de viver. É a felicidade se acomodando para fingir que existe onde há apenas satisfação efêmera, ilusão criada pelos artifícios do mercado.Quem tem pensa que é feliz.

Perdeu a noção original de que os objetos são criações do cérebro humano que surgiram para servir ao homem. São extensões do próprio corpo. E tem no seu estatuto a natureza de servir.

Com a perda dessa noção original o homem se deixa escravizar pelo poder econômico e vê as suas resistências serem pulverizadas. A criação de necessidades joga-o na arbitrariedade de uma vida consumista desenfreada na qual ele, transformado em joguete se deixa dominar pelos objetos. O mais simples em termos de uso torna-se fascinante e imprescindível.O homem passa a valer pelo carro. Há um mimetismo absurdo: o homem vai se transformando em coisa.

Simultaneamente se deixa levar passivamente pela idéia da inutilidade da poesia.

Não vê valor naquilo que não é trocado por moeda.

A falsa noção de inutilidade poética afasta-o do olhar construtor.

O hábito da simplicidade devolve-lhe o olhar voltado para o simples.Esse é o olhar construtor, regado e nutrido pela poesia.

O ser humano sem a poesia perde o próprio sentido da vida.

Viver passa a significar consumir. Os verbos se tornam sinônimos.

Poesia é necessária e útil e pode vender, ou seja, pode atender a uma exigência, a uma necessidade que intimamente não é a do poeta, muito embora haja confusão em torno disso.

Poesia pode vender, basta libertar-se dos dogmas impostos pelo mercado.

Há certamente interesses obscurantistas na difusão da idéia da inutilidade da poesia.

Talvez o eixo central dos interesses seja a manutenção do homem como ser manipulável, controlável.

Controlar o ser desprovido de poesia, distante da poesia autêntica, talvez seja a forma mais segura e eficaz de se edificar a eternidade sobre um mercado insensato e alimentar a sociedade por ele regida, pois o individuo sem poesia é o alimento adequado.

Um propósito da sociedade, cujo senhor, o mercado, não parece admitir sublevações, é o de temer a poesia, jogá-la num confinamento. Poesia cujo dom inabalável é o de sacudir a alma.


(08 de junho/2002)
CooJornal no 262


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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