Marciano
Vasques
A POESIA QUE SE TEME
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Nossas sociedades estão sustentadas por pilares que simbolizam um
mercado frio no qual o próprio indivíduo torna-se uma mercadoria. Numa
sociedade assim constituída é naturalmente coerente o surgimento de
crenças como a de que a poesia, seguindo a trilha da filosofia,é
inútil. O próprio mercado apregoa isso com altivez ao passar a idéia
de que poesia não vende. Ora o mercado é covarde, pois afinal ele é
quem decide o que é vendável e nesse vendaval de hipocrisia, a poesia
não lhe causa interesse por motivos outros.
Coerência nem sempre significa decência. Como a regência de tal
mercado é o lucro – a sua razão de ser –a poesia não teria serventia.
Pura ilusão. Não podemos nos apoiar em ilusões. Mais do que nunca,
numa sociedade assim regida por frias leis mercantis, a poesia é
necessária.
Necessária como o próprio ar que se respira.Tolice o ser humano ser
levado a crer que pode viver sem a poesia.
Talvez soubesse Carlos Drummond de Andrade que a poesia é “a senha do
mundo”. Talvez esteja no poeta o hábito das coisas simples.
A poesia busca o olhar voltado para o simples e o devolve ao homem
atento. O homem atento está provido de atenção. Esse olhar é
necessário para destruir a lógica do olhar mercadológico.
Na batalha travada entre a poesia e a frieza de uma sociedade que
beira ao caos humano a poesia se apresenta como o seguro cais.
Pilares do mercantilismo, de troca de bens pela moeda, são fatalmente
derrubados pelo poder emanado do seguro cais.
O indivíduo transformado em mercadoria, está abaixo dos animais. Sua
vontade está dilacerada pela idéia de que valores mercantis são a
razão de viver. É a felicidade se acomodando para fingir que existe
onde há apenas satisfação efêmera, ilusão criada pelos artifícios do
mercado.Quem tem pensa que é feliz.
Perdeu a noção original de que os objetos são criações do cérebro
humano que surgiram para servir ao homem. São extensões do próprio
corpo. E tem no seu estatuto a natureza de servir.
Com a perda dessa noção original o homem se deixa escravizar pelo
poder econômico e vê as suas resistências serem pulverizadas. A
criação de necessidades joga-o na arbitrariedade de uma vida
consumista desenfreada na qual ele, transformado em joguete se deixa
dominar pelos objetos. O mais simples em termos de uso torna-se
fascinante e imprescindível.O homem passa a valer pelo carro. Há um
mimetismo absurdo: o homem vai se transformando em coisa.
Simultaneamente se deixa levar passivamente pela idéia da inutilidade
da poesia.
Não vê valor naquilo que não é trocado por moeda.
A falsa noção de inutilidade poética afasta-o do olhar construtor.
O hábito da simplicidade devolve-lhe o olhar voltado para o
simples.Esse é o olhar construtor, regado e nutrido pela poesia.
O ser humano sem a poesia perde o próprio sentido da vida.
Viver passa a significar consumir. Os verbos se tornam sinônimos.
Poesia é necessária e útil e pode vender, ou seja, pode atender a uma
exigência, a uma necessidade que intimamente não é a do poeta, muito
embora haja confusão em torno disso.
Poesia pode vender, basta libertar-se dos dogmas impostos pelo
mercado.
Há certamente interesses obscurantistas na difusão da idéia da
inutilidade da poesia.
Talvez o eixo central dos interesses seja a manutenção do homem como
ser manipulável, controlável.
Controlar o ser desprovido de poesia, distante da poesia autêntica,
talvez seja a forma mais segura e eficaz de se edificar a eternidade
sobre um mercado insensato e alimentar a sociedade por ele regida,
pois o individuo sem poesia é o alimento adequado.
Um propósito da sociedade, cujo senhor, o mercado, não parece admitir
sublevações, é o de temer a poesia, jogá-la num confinamento. Poesia
cujo dom inabalável é o de sacudir a alma.
(08 de junho/2002)
CooJornal no 262
Marciano Vasques,
escritor e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.com.br
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