No dia em que beijei a Tatiana Belinky, em que estive pela
primeira vez com a mais querida vovó do Brasil, a que um dia
foi a menina louca por livros, em que a chamei de meu amor e
pude abraçá-la, nesse dia também conheci pessoalmente o Chico
dos bonecos, e meu coração foi invadido pelas Meninas do
Conto na alegria.
No dia em que a beijei, o beijo do leitor apaixonado, nesse
mesmo dia, porque a alma é grande, Orilde Hofmann estava
lendo o livro de Erich Fromm. Sozinha em sua casa lendo
Análise do Homem.
Porque a alma é grande percorri como num filme os meus
enganos, destinos que fui tecendo por esta grandeza na qual
não há estudioso que venha a se debruçar.
Quisera planejar um escrito, escrever um texto acadêmico,
quisera poder organizar a dor. Como tenho tanto que agradecer
à vida! Só tenho que agradecer. Queria ser puro
agradecimento, poder passar aos que lêem, que vendavais e
festas repousam no alto da minha solidão escolhida, quando
para a literatura retorno.
Ah, os grupos fechados de poetas, os amigos, os poetas da
ternura, ou seja, da resistência, pois assim é a ternura,
palavra que nos diz rocha, firme, dura, resistente. É comum a
palavra mudar semanticamente, porém algo nela fica, e na
ternura ficará sempre o rochedo primordial, principalmente na
ternura do poeta. Pois afinal, ternura que se desfaz, que se
transforma em areia, não é ternura, é plágio, pirataria do
coração.
A palavra é exorcista, o medo é vencido pela palavra, a magia
jamais abandonou a palavra. Ela que abre a porta, é ela que
afugenta o medo, o medo do lobo, o que na literatura infantil
de Chico Buarque vira bolo. Mas há outros chapeuzinhos,
algumas trocam o chapéu por uma fita verde no cabelo. E a
menina decide seguir atrás de suas asas ligeiras. Tudo era
uma vez, disse o senhor Guimarães Rosa, que nasceu no quase
fim de junho e junho já se foi. O homem que morreu de enfarte
três dias depois de pronunciar um discurso falando os valores
essenciais da vida.
Há quem diga que me preocupo demais com certas coisas,
respondo que se não for assim a vida não vale a pena. Há
várias formas de se enganar a vida, de passar o tempo, mas a
vida é ferrenha. Demasiada autêntica, exige que seja
preenchida com o verbo, isto é, não tem sentido se não for
satisfeita, e isso só é possível por intermédio do verbo
viver. Na mitologia da criação do mundo foi o verbo que fez a
vida, isto está claro em Gênesis: o verbo faz a luz, luzifica
o mundo. A luz se põe e fica no mundo através da palavra. O
Deus bíblico é o Deus da palavra. Ele se apresenta ao mundo
através dela, Ele está nela. A forma da sua apresentação é
poética, profundamente literária. Palavra se manifestando
belamente.
Por ser a vida regida pelo verbo viver, ela passa a
significar a falta de acomodação, o que quer dizer mais ou
menos o seguinte: não dá para não se preocupar com o que na
vida está. A vida exige vida por um gesto de atenção a ela
mesma.
Alfelizabeto, felicionário, palavras que invento. Depois
penso em cair na estrada, penso que muito antes de surgir
essa idéia em meu coração, tive o privilégio de cair nas
estrelas. Depois fui me tornando adulto, o que fui percebendo
ao reparar tantos pensamentos estragados, apodrecidos.
Pensamento assim vira inveja, não ciúme, mas inveja, embora
ambos acabem se entrelaçando em certas circunstâncias, mas
isso não tem importância aqui, pois afinal ainda estou com o
rostinho redondo da Tatiana Belinky em meu pensamento.
Encontrar alguém assim tão lindamente nos seus 83 anos de
vida, é festa.
Por ter um compromisso tático com o filósofo e com o poeta,
um compromisso de sobrevivência, um contrato mental, então a
morte não me interessa, não me interessa como assunto, não
suporto a idéia de estar com alguém que insista no assunto
morte. Tenho plena consciência da sua inevitável chegada em
todos os seres, mas o compromisso verbal de quem se aproximou
dos poetas é com a vida.
Esse compromisso se dá pela leitura, pela palavra escrita, é
ali que conheço e me aproximo do poeta, e então selo o pacto
da vida.
Deve ser tão bonito ser Tatiana Belinky, deve ser algo assim
parecido com ter sido Paulo Freire. São pessoas que se tornam
personagens, pessoas que não podem ser traídas. Se você trai
Paulo Freire, por exemplo, é problema. Estou querendo dizer
que haverá sempre um último porto, uma última resistência. Ou
seja, ou a morada da ética está dentro de você, ou então...
Alguém na solidão de um apartamento lendo Erich Fromm, a vovó
de rosto redondinho falando doçuras: nossa época não é
totalmente descabida.