27/07/2002
Número - 269

 

 

Marciano Vasques
  


DAN

 

Não faz mal! Talvez esta expressão seja a alavanca necessária na vida de tanta gente. Não faz mal. Não faz, não faz mesmo. Talvez se pudéssemos tê-la em mente com toda a sua grandeza e pronunciá-la com a devida simplicidade que ela afinal merece. Não faz mal. Buscar então a única saída possível. Não há outra, só ela, seguir em frente. Sempre seguir em frente, em frente, em frente. Moveria vidas, abriria passagens em oceanos. Basta ter o coração claro, da cor do ar, límpido, simples. Ter na mente a certeza inabalável de que “Não faz mal”.

Não há necessidade alguma de mágoa, de qualquer mágoa. A má água não movimenta a vida. A mágoa perfura, corrói, atrapalha. Mágoa é só para quem magoa. Só magoa quem faz mal e só faz mal quem não tem o coração claro, mel cordial, cor de ar.

Há erros e eles enriquecem a vida. Enriquecem-na porque fazem com que ela se descubra, fazem com que ela se descortine e nos torne maior.

A tristeza tem o seu tempo. Reserve-o para ela. Fora dele, ela não tem vez. É pura ilusão, persistir nela é uma atitude otária. Ela se alimenta dela mesma, o que significa: da fonte que nela está, que a compõe, que é a força, a potência do próprio ser. Nós - a nossa própria energia, a nossa própria potência, somos seu próprio alimento. Ela é esfomeada, faminta, insaciável, quanto mais você dá, mas ela quer, quanto mais ela suga, mais quer sugar e a sua energia é transferida quase toda para ela, você passa a depender dela, você passa a depender da sua permissão para continuar vivendo. Por isso, lute contra ela imediatamente. Esmague- a. Ela nada tem a ver com você, só quer roubar a sua energia, a sua potência. Ela só merece desprezo.

Ninguém precisa dela, nem o artista.

É errado dizer que se produz mais na tristeza. Isso é uma deformação. A alegria é sempre a campeã.

Mesmo uma suposta produção admirável, no fundo não passa também de uma destruição lenta do ser. Só o ser na alegria vive integralmente. Não há que se fazer um tratado sobre a tristeza, mas não deixe que ela se encoste. O mundo não passa de um sorriso divino.

O mundo, tal como ele está constituído pode ser simbolizado como um ato que nasceu do riso de Deus.

Não somos uma coisa isolada, cada partícula universal está dentro de cada um de nós, somos o mesmo minério, o mesmo metal. Tudo que há em nosso corpo, gases, metais, tudo está em toda parte, o universo está em nós. Isso significa que milhões de astros descrevem suas rotas ao mesmo tempo em que a constituição universal do nosso organismo pede riso, sorrisos, alegria. É afinal a fonte dinâmica da vida, a fonte geradora, a única que nos orienta, que nos preenche de sentido. A tristeza, essa força destruidora, essa parasita da vida, tem o seu tempo reservado e falaremos sobre esse tempo.

Erros envolvidos na membrana leitosa do tempo tem a aparência terrível. Mas como são frutos circunstanciais, não passam de equívocos ou tolices.

Equívocos ou tolices por resistirem na memória como um peso inútil.

A rocha ou pedra gigantesca representada pelos erros clama pela sua transformação em farelo e diz: quero ser desfeita! Quero ser dissolvida! Mate-me! A minha natureza é a da dissolução.

A natureza da pedra que simboliza o peso dos erros é dupla: a da sua própria extinção ou a de revelar um poder de cada vez se tornar mais pesada.

A escolha é nossa. Temos categorias da filosofia para nos orientar. A vida é isso: escolhas, sempre escolhas, desde sempre. Não há formas de escapar das escolhas. A gente escolhe no dia a dia, a qualquer momento, em todos os momentos, desde as escolhas mais banais. Quando um político faz um comentário elogiando de forma deslumbrada um símbolo da futilidade, ele está fazendo uma escolha, a escolha dele é significativa, revela o que se oculta, aquilo que aparece agora num simples comentário. Isso é uma escolha. Resistir também é uma escolha. A teimosia (a persistência) também é uma escolha. Atender o chamado da pedra que pesa cada vez mais e quer ser destruída, também é uma escolha.

Frutos circunstanciais porque se referem a um estágio da consciência. Consciência que cresce em forma de espiral. Cada volta se alimenta por si, de si.

A forma circular da espiral vai crescendo cada vez mais e fazendo curativos nas deformações da consciência. Deformações que surgiram quando ela se encontrava em estágio de imperfeição.

A consciência espiralada é uma linha curva ascendente que não se fecha e vai dando voltas como as ondulações pintadas pela natureza nos anéis das conchas de um caracol, que são arcos postos ali pela metade, metades de um arco.

As circunstâncias têm o valor histórico desprezado nos julgamentos da consciência: julgamentos da razão. O valor das circunstâncias precisa ser ativado nos julgamentos.

Quanto mais a consciência se desenvolve, mais a espiral se expande. O seu brilho se intensifica como luzes de reserva.

Luzes de reserva para pisotear a pedra. E a pedra ao ser dissolvida não será mais composta de peso. Não será composta de nada. E a consciência será límpida. Suas voltas abrem portas e janelas do presente.

Um homem pode ter coração de pai e isso pode ser uma herança, um legado. Coração de pai que se expande no magistério. Por isso o verdadeiro professor não envelhece. Porque o seu coração de pai se expande a cada dia.

Um legado das manhãs em eucaliptos, manhãs eucaliptadas que se foram, mas o que ficou se tornou responsável pela semente da consciência que, composta de pensar de sentir, às vezes cresce em lentidão. A translação se torna demasiada lenta. E ela se origina nas circunstâncias da vida. Fatalmente determinantes, mas não inextinguíveis.

A pedra pesada não é inelutável. Só a consciência espiralada poderá dissolvê-la. Sua força não é inexaurível.

Pela frente tenho poucos anos de vida. Porém sabemos que o tempo não existe, mas é feito.

O tempo contém categorias de educador, está intimamente ligado ao fazer educativo. O tempo é um ato da educação. Há muito de Paulo Freire no tempo. Ele acertou em cheio quando diz que o mundo está sendo feito. O tempo é como a vida, é também como o mundo, precisa ser feito. Por isso o tempo pode ser muito ou pouco. Talvez então eu nem saiba, mas tenha ainda muito tempo de vida no pouco tempo que me resta.

Nessa manhã em que escrevo pessoas vão à Ferraz de Vasconcelos ver a imagem na janela, outras se emaranham em seus vazios. Ouço um esmeril

Penso em polir a espiral, injetar nutrientes, decisões, renascimentos.

Não há nada, nenhum peso, nenhum desgaste. Há consciências que são especificas, necessitam de um tempo maior para se aperfeiçoar, necessitam de mais voltas espiraladas. Por isso são grandiosas.

A tristeza é um equívoco. A cota de tristeza reservada para cada um em sua vida não pode ser ultrapassada. Tristeza não existe para ser desperdiçada, usada sem critérios.

Ultrapassar essa cota é um desperdício, um equívoco, um ato improdutivo.

A cota se refere a partidas. Partidas significam o uso adequado da tristeza. Pessoas queridas que a gente ama. Isso é dor que causa tristeza insuportável. Uma pessoa que a gente ama partir faz a gente querer morrer.

Por causa da tristeza insuportável precisamos de mecanismos auxiliares. Precisamos da ajuda do tempo e então o tempo existe além dos calendários. E nós nos estendemos nele como almas retorcidas.

Precisamos do tempo, do vento de cada manhã, que carrega em suas asas invisíveis os renascimentos que nos ajudam a lidar com a tristeza, acomodá-la num compartimento da memória do nosso coração para que ela fique quieta e nos deixe viver, pois que a vida continua e cada criança que nos sorri nos mostra isso.

Partidas: pessoas que se vão, que tudo faríamos para que permanecessem ao nosso lado.

As nossas pessoas queridas que ao se irem nos encharcam a alma de tristeza. Difícil escapar desse charco. Tristeza que dura e que se acomoda para que a vida prossiga em sua plenitude.

Mas não pode haver tristeza por causa da pedra que clama para ser esfarelada, dissolvida.

Pedras pesadas são formas de desentendimento. Compreensão equivocada da vida. Não reconhecimento de que a espiral é a governanta do tempo.


(27 de julho/2002)
CooJornal no 269


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

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