17/08/2002
Número - 272

 

 

Marciano Vasques
  


AGOSTO O ANO INTEIRO

 

As jóias da nossa literatura sempre se preocuparam com o folclore do Brasil. Cecília Meireles organizou o primeiro congresso de folclore brasileiro. Lobato criou personagens e pôs o saci em sua literatura.

Há obras sobre o folclore de grandes estudiosos da nossa cultura, como Câmara Cascudo, cuja contribuição intelectual é um dos maiores patrimônios brasileiros. Em Câmara Cascudo tem tudo. Está precisando de uma lenda? Vá até ele.

Incontáveis são as lendas, os mitos, as parlendas, as cantigas, os trava-línguas, as histórias antigas. Mitos primordiais estranhamente atravessam oceanos e reaparecem nos rios do Brasil. Outros surgem das matas indígenas. O nosso país é habitado por outros seres, estão nas florestas inatingíveis, na calada da noite, nas vozes que não se calam de contar histórias e transmitir um Brasil bonito de se viver.

E o modo de ser de um povo, seus hábitos e costumes, sua comida, suas roupas, suas danças: tudo se constitui como folclore. O todo cultural que caracteriza um povo.

A escola lembra disso em duas datas, 19 de abril, dia do índio, e agosto, o mês.

Trabalhos feitos em cartolinas, pesquisas em enciclopédias, às vezes até algumas danças ensaiadas e exposições montadas por professores entusiasmados, compõem o cenário da escola no mês folclórico.

Depois a escola esquece. Poucos dias após a desmontagem dos materiais, a rotina retorna ao ambiente escolar.

A pedagogia segue em frente recusando-se a compreender que a festa folclórica devia ser parte integrante do currículo escolar anual.

Lendas são para o ano inteiro, poesias são diárias, precisam ser lidas durante o ano, a cada aula. Cada poesia é um acontecimento extraordinário na escola.

E o turbilhão do folclore oferece um enriquecimento para a mente infantil que não pode ser assim desperdiçada.

Agosto é o mês do folclore, mas o conjunto cultural de um povo é para ser referenciado e vivido pedagogicamente o ano todo.

Diariamente as crianças são submetidas a uma enxurrada de novidades descartáveis e vivem emoções fugazes. Criações culturais de grandes poderes econômicos deixam o professor acuado, em posição defensiva. É muito difícil competir com o apelo visual e o chamamento de produtos supostamente culturais dirigidos à criança. Não há interesse de mídia e tampouco do mercado em viabilizar uma consciência para a preservação de valores culturais do país. Isso é tarefa da escola.

Tarefa emergencial, urgente, inadiável. A escola precisa repensar o seu discurso, sair do discurso da reunião pedagógica imutável e sacolejar, sacudir as consciências. A questão é que a escola é feita pelos professores. E os professores estão subordinados à currículos engessados e parece que nada sai do lugar, apesar, é claro, das boas intenções de educadores altamente preocupados.

Agosto é o mês do folclore, no entanto, que agosto seja o ano inteiro. Vamos enriquecer a mente infantil com esse maravilhoso almanaque que vem de aldeias, de vilarejos distantes, de florestas e clareiras, de rios e lagos. Vamos embelezar o ano letivo com a ajuda desses seres fantásticos que povoam a imaginação do nosso povo.


Leia, ainda nesta edição:    O homem que apodreceu


(17 de agosto/2002)
CooJornal no 272


Marciano Vasques, 
escritor e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
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