07/09/2002
Número - 275

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Marciano Vasques
A VELHA TECLA
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A tecla velha continua atual. Como uma máquina de
datilografia guardada num depósito qualquer, ainda tem a sua
validade. Só a Educação salva o Brasil. O que é óbvio nem
sempre é fácil de ser assimilado ou pronunciado.
Para os candidatos essa obviedade parece não ter a força
necessária para desencadear um processo de reflexão que possa
originar um projeto de ação fortalecida pela vontade
cristalina de mudar o país.
A mudança deve ter seu nascedouro na felicidade do povo. E
como o povo não quer só comida, a abertura política para a
Educação é um dos requisitos principais para que o candidato
possa ser declarado compromissado com a nação.
Educação não é apenas construir escolas.
Construir prédios é bom e importante, mas não é o
fundamental.
Tornar-se um governo que edifica obras, sejam viadutos,
túneis, escolas ou cadeias, pode causar um reflexo positivo
no olhar do cidadão, mas de nada adiantam viadutos e túneis,
se o povo não se torna educado no trânsito. De nada adianta a
construção de delegacias e cadeias, se práticas ilegais e
omissões continuarem. De nada adianta erguer prédios
escolares se a Educação continua travada ou suas mudanças
seguem em pedagógica lentidão.
Educação é tão importante como Saúde. Na verdade, a saúde de
uma sociedade é reconhecida pela educação do seu povo.
Só a Educação educa. Não a bolorenta, decorativa, de
decoração, de decorar.
Um jovem não será educado se perder parte da juventude
decorando nomes de rios, acidentes geográficos, formulas
químicas e gráficos da Física, sem ao mesmo tempo adquirir
durante o processo escolástico uma noção clara de cidadania.
Só um povo verdadeiramente educado constrói uma sociedade
sadia e feliz, na qual princípios norteadores da democracia
devem prevalecer.
O menino precisa de escolas. Não apenas de um local para
estudar, não apenas de um prédio, pois a Educação pode chegar
na beira de um lago, embaixo de uma árvore, ao ar livre.
A chegada da educação, com toda a sua força poética e visão
paradisíaca de uma sociedade humanizada e justa, na qual
devam prevalecer os valores profundamente éticos que devam
reger os relacionamentos entre os povos, é para o menino um
momento de súbita e inimitável felicidade.
Fora de uma Educação humanística não há saída.Tudo não passa
de retórica. Uma Educação na qual o aluno vai a cada dia se
tornando um cidadão, na mais profundeza do termo, aprendendo
a pensar e a refletir, aprendendo a não se deixar enganar por
palavras mentirosas de políticos em época de campanha, deverá
ser o objetivo mais arraigado dentro dos corações sinceros.
Educar o povo é educar uma nação. Transmitir, através da
Educação, as noções básicas de respeito, amor e civilização
para a criança, é a mais sincera e profunda intenção de um
político que pretende chegar ao poder e governar um país.
Não adianta bater na velha tecla, dizem. Mas a velha tecla é
sábia e necessária porque preserva valores que não foram
corroídos pelo tempo. Fora da Educação não há saída.
Não uma educação puramente técnica, mas uma humanista,
voltada para os interesses da constituição da alma humana,
entre os quais a poesia, o pensar filosófico, a ética, a
cidadania.
Implantar desde cedo na criança o conhecimento e o gosto por
valores profundos de respeito à natureza, aos seres vivos, ao
mundo em que vive, aos cidadãos, é a forma mais lúcida e
convincente de se fortalecer na pessoa que se desenvolve os
aspectos de uma formação de cidadania.
Cidadão do mundo, assim deve ser a formação completa daquele
que passou na escola. Para isso é preciso investir pesado na
formação contínua do professor, fornecendo cursos sem custos,
palestras constantes, seminários, congressos. Coisas que
atualmente acontecem desordenadamente, sem uma espinha
dorsal. Sem porcentagem incompatível com a necessidade. Sem
uma unificação de objetivos e ideais.
Construir amplas escolas em prédios redondos, com
laboratórios de informática, arena para debates e shows
artísticos e culturais, palco, auditórios, enfim, escolas
condizentes com as necessidades do tempo, é de fato decisão
importante em qualquer governo, mas não é a única e nem a
principal. De nada adianta edificar escolas modernas se a
Educação nela processada continua técnica e sem compromissos
com valores humanísticos.
Educação humanista, voltada para a formação íntegra do
individuo, é o alicerce indestrutível de uma sociedade
socialmente justa.
Humanizar a Educação significa poetizá-la. É necessário,
urgente e inadiável que qualquer candidato presidencial forme
um grupo de educadores que deverá fazer uma recolha de todas
as contribuições na área da educação. A formação dessa
biblioteca emergente deverá ter entre seus livros e textos
toda a produção de Paulo Freire, por exemplo.
Essa equipe deverá, baseado na recolha e leitura em alta
velocidade de toda contribuição educacional de diversos
mestres, fornecer ao candidato o esboço de um programa de
Educação humanística. Que deverá aproveitar as idéias
produtivas e inovadoras, assim como também a contribuição
concreta baseada em experiências que funcionaram, de diversos
educadores.
Tal esboço, transformado em programa, deverá contemplar uma
ação firme, persistente e inabalável. Não há crédito para um
governo que não coloca a Educação como seu principal feito.
Um povo educado jamais será explorado. E o Brasil precisa
disso: um povo que saiba ler e interpretar a sua realidade
para poder modificá-la. E leitura e interpretação da
realidade começa inevitavelmente na leitura do texto
adequado. Isso pode ser conseguido, mas é preciso investir
pesado.
(07 de setembro/2002)
CooJornal no 275
Marciano Vasques,
escritor e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.com.br
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