25/10/2002
Número - 283

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Marciano Vasques
A PARTIR DE AMANHÃ
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Amanhã, domingo de outubro, militantes festejarão a vitória
do seu candidato como se festeja campeonato esportivo ou de
escola de samba. A alegria será deles, que afinal merecem.
Levaram ao poder máximo do país a criação de um marqueteiro.
É claro que cada um dos personagens tem a sua historia
construída através das lutas políticas e ou populares. Um
deles nasceu na luta sindical e se tornou rapidamente um
grande líder da massa trabalhadora devido ao seu carisma e a
sua imensa capacidade. Um intelectual do povo que fundou um
partido político no tempo em que o Henfil era vivo. Da região
do ABC quis mostrar ao país o ABC da luta.
Entretanto é justo afirmar que os candidatos desta eleição
são criações dos marqueteiros, essa anomalia eleitoral aceita
pela sociedade de língua rica em neologismos. Um deles, o
provável vencedor, o líder da massa trabalhadora, passou por
transformações antes inimagináveis. Não é mais o mesmo, pelo
menos na retórica da campanha.
O povo não filiado irá sem ira às urnas. Também sem grandes
ou nenhuma empolgação. Uma porcentagem certamente considerará
sua a vitória.
É certa a vitória do candidato do PT nesta república de
poetas esquecidos. O candidato oficial não conseguiu reverter
o quadro apesar do expediente do terror e da disseminação do
medo. Expediente no qual contou com a ajuda de artistas
globais, entre as quais a ex-namoradinha do Brasil, cujo
direito de se expressar é inquestionável. O artista é antes
de tudo um cidadão e pode se manifestar politicamente da
mesma maneira que pode também fazer propaganda de extrato de
tomate. Não deve, em hipótese alguma haver cerceamento de
expressão. Veja que a fala da artista global não conseguiu
nublar o ar no qual a estrela sobe.
O vitorioso candidato da república dos poetas esquecidos:
transformado pelo profissional Duda Mendonça, que antes já
conseguira o quase milagre de transformar o senhor Paulo
Maluf, político representante das forças conservadoras do
Estado de São Paulo, que recentemente desceu uma ladeira
aparentemente sem retorno. Aparentemente porque os analistas
apressadinhos andaram espalhando que o malufismo acabou.
Acabou? Ou terá apenas recebido um golpe profundo, mas não
fatal? Melhor aguardar. Sempre é boa a prudência.
A partir de amanhã um novo presidente: o país tropical
avacalhado pelos desmandos e pela corrupção política; o país
tropical esquecido por Deus (Pois é, Simonal!); o devastado
moralmente pela violência oriunda de uma insustentável
situação de marginalização de boa parte de seu povo; esse
país, o Brasil que não mais parece deitado eternamente em
berço esplêndido, mudará?
É certo que mude um pouco. É também justo reconhecer que a
ação dos marqueteiros e a força propagandista política não
seriam suficientes para determinar uma vontade popular se não
estivessem enraizadas no povo a semente da insatisfação e a
profunda necessidade de esperança.
Lula, vitorioso, significará um marco decisivo na capacidade
de ilusão e esperança de um povo. Se fizer um bom governo, um
governo no mínimo justo, garantirá um nutriente eficaz para a
esperança verde e amarela, tão sufocada nos últimos tempos
(Nunca o verde e o amarelo estiveram tão presentes no coração
do Brasileiro. Um verde e amarelo diferente daquele que
reaparece em época de copa do mundo. Um que se alojou
tranqüilamente na cor vermelha. Afinal é o país de todas as
cores.). Se fracassar ou validar o medo da atriz, beirando o
país num caos maior do que o atual e arrebentar a nossa
frágil democracia, as ilusões estarão perdidas, e
dificilmente a nação há de se recuperar de tal seqüela.
De qualquer forma, longe de quaisquer suposições, o Brasil
que surgirá a partir de amanhã e tomará corpo no primeiro dia
de janeiro será um novo país.
Um presidente eleito, com origem popular, um grande lutador,
um homem advindo e sintonizado com uma expressiva parcela das
massas trabalhadoras, uma pessoa não perfeita, é claro, mas
firme e séria, é o sinal de que o Brasil clama por mudanças
profundas.
Independente das armações políticas, da mídia, dos
marqueteiros, o povo dar uma chance àquele que não é doutor,
que foi durante tanto tempo (e ainda é) vítima de
preconceitos idiotas da elite implacável, é uma demonstração
de que o Brasil precisa recomeçar a sua historia.
Embora o brasileiro vá às urnas sem empolgação, interiormente
cada pessoa de boa vontade estará torcendo por uma mudança
verdadeira, e estará, talvez pela primeira vez, tentando
viver sem medo de ser feliz.
(26 de outubro/2002)
CooJornal no 283
Marciano Vasques,
escritor e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.com.br
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