07/12/2002
Número - 289

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Marciano Vasques
DEZEMBRO
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Para a professora Ayako Kuba Sakamoto
Na praça central de Brêmen, está o monumento aos “músicos”.
Os alemães dão muito valor à arte, e os “músicos de Brêmen”
- conto da tradição oral germânica que mostra entre outras
coisas que o velho é um forte - faz parte da memória afetiva
de um povo.
No colégio Brasília, em São Paulo, onde estive em 28 de
novembro de 2002, levado pela editora Paulus, há, em uma das
unidades, na praça interna, transformada em restaurante ao
lado de um teatro de arena, um pé de manga. O colégio
Brasília tem 30 anos e motivos de sobra para comemorar. 30
anos, o pé de manga mais.
Tradição. A mulher que fundou o colégio, uma japonesa, tem
muito apego à tradição, por isso o pé de manga. Um dos
prédios do colégio, onde está a faculdade Brasília, era
originalmente (no início da década de 70) a casa da
professora Ayako Kuba Sakamoto. Ela fundou na rua Araiporanga
uma escolinha chamada “Jardim Escola Criança Feliz”. A
escolinha fundada em uma garagem. Hoje o colégio Brasília é
um dos orgulhos da zona leste de São Paulo. O pé de manga
preservado é uma das lições que essa gente tem a nos
oferecer.
Além dele há também um pilar: suporte da antiga garagem onde
foi o colégio Brasília iniciado.
O pilar de concreto permanece no mesmo local, onde atualmente
estão as grades da entrada do colégio. Um pedaço de sua
estrutura também está guardado na pedra fundamental.
No Rio de Janeiro foi inaugurada recentemente a estátua de
Carlos Drummond de Andrade: o poeta, exatamente em Copacabana
(zona sul do Rio). No dia primeiro de novembro a estátua é
pichada com spray. Vinte e quatro dias depois ela sofre
novamente um atentado dos vândalos. Amanhece com uma das
hastes dos óculos quebrada. Os óculos do poeta que viu a vida
com outra lente, diferente da lente oferecida pela rotina da
vida.
Os quatros músicos germânicos são respeitados: o cavalo, o
galo, o gato e o cachorro, mas o poeta do Brasil parece não
merecer respeito.
Precisamos aprender muito com a mulher do pé de manga, a
senhora Ayako Kuba Sakamoto, a fundadora do colégio cujo nome
é uma homenagem ao presidente por quem ela sentia adoração.
Também precisamos aprender muito com os alemães.
Drummond é um patrimônio, um gesto inesquecível que veio de
Itabira como um presente para qualquer pessoa que queira ter
a alma enfeitada por versos.
O Rio pichou a homenagem. O mesmo acontece em São Paulo, onde
outros tantos monumentos são pichados, vandalizados. Talvez
aconteça em Porto Alegre, em Belo Horizonte, talvez em todas
as grandes metrópoles. É assim.
Há pouco trato, pouca atenção para com a memória. Por isso em
Santos um patrimônio da memória afetiva do povo santista foi
derrubado e em seu lugar ergueu-se uma coisa feia, um templo
do capitalismo.
Talvez o Natal jorre um feixe de luz nas consciências e um
poema de Drummond nos salve. Mas acontece que a magia está
dentro de cada um, acontece que o Natal não é algo que surge
magicamente, pois a sua magia é fruto de um esforço, da luta
e da vontade de alguém.
Acontece que o Natal é feito!
Estamos em dezembro. A noite da cristandade se aproxima. Os
dias da magia estão de aproximando e estão todos em dezembro.
Não a magia fabricada, a magia do comércio de panetones
apenas, mas aquela que está dentro de cada um. Está dentro
porque houve o esforço, a luta e a vontade.
A magia é a recompensa.
Refletir sobre a estátua pichada do poeta faz parte do
segredo de dezembro, o mês da reflexão. Gosto de anunciar
dezembro. Talvez nesse gesto insistente estejam alguns
resíduos de uma esperança antiga de que o Natal descerá sobre
a terra, esperança de poetas enlouquecidos de poesia. Isso me
reaproxima da idéia vaga de que um dia também a poesia
descerá sobre todos. Mas são acontecimentos que dependem do
esforço.
Dessa mescla de tudo a nos invadir, o mês das saturnais nos
traz a ilusão de que a felicidade flutuará nos corações
humanos durante os anos seguintes, mas ilusões são pedaços de
vidros coloridos a enfeitar o nosso caminho.
Ilusões de que a estátua pichada do poeta causará um
constrangimento tão profundo em cada cidadão. Dizem que a
poesia se alegrará e também sofrerá de ilusões: a maior
delas, a de que poderá finalmente descer sobre todos.
Porém, como alguém já disse que a ilusão é a mãe da vida, que
ela continue a nos alimentar, que o seu leite nos fortaleça e
nos transborde de esforço e vontade.
(07 de dezembro/2002)
CooJornal no 289
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.com.br
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