“Meu pai se chama Nilton. Ele é um pai maravilhoso” assim
começa a redação de Juliana, a filha de Nilton Dourado, uma
das jóias da nossa região. Nilton dourado, auxiliar de
enfermagem - Seu primeiro paciente foi o pai. Estava naquele
dia de plantão com a sua equipe. Não conseguiu fazer nada
para salvá-lo, pois ele chegara com morte cerebral -,
deficiente físico (teve paralisia infantil), passou a maior
parte da infância em leitos de hospitais. Nenhuma barreira
foi empecilho para que vencesse. Aliás, ele não tinha
escolha. Era vencer ou vencer.
Já foi homenageado na Câmara Municipal com voto de júbilo e
congratulações. Vinte e dois anos trabalhando com extrema
dedicação na saúde. Uma vida repleta de histórias, sonhos e
conquistas. Um autêntico vencedor, tem uma família feliz,
onde o amor reina absoluto.
Costuma dizer que Deus até lhe deu mais do que merecia.
Nilton é um tesouro precioso na vida dos que acreditam que o
cultivo de boas amizades é um belo investimento humano.
Nasceu em Rancharia (interior) em 1959 (aos 11 meses foi
acometido de paralisia infantil) numa família numerosa (11
irmãos). Filho de um casal humilde da roça, cuja grande
vitória foi ter conseguido criar os 11 filhos na selva de
pedra e ter transmitido os valores essenciais para se viver
dignamente.
Todos os irmãos estão vivos. Um deles é padre, o querido
padre Alberto, da igreja Santa Edwirges, no Monte Virgem
(atrás do Pão de Açúcar, na Penha).
Com cinco anos, Nilton veio para a capital fazer tratamento.
Não era então viável a cirurgia. A paralisia deixou seqüelas
(já realizou cinco cirurgias). Vive com o auxilio de ortese e
prótese.
Dificuldades deixaram rastros que são aprendizados. Desde
cedo aprendeu a edificar a dignidade. Aprendeu também a
sobreviver, pois no seu caso era mesmo questão de vida e
morte. Ficava olhando os outros meninos e pensava: “ Como
seria bom poder brincar, soltar pipas, poder correr, jogar
bola, brincar com bolinhas de gude, conviver com garotos
fisicamente normais”. Convivia, mas era discriminado. Não
tinham noção da importância da convivência, não conheciam a
fórmula de viver sem preconceitos, seja lá de que tipo for.
As provocações diárias aumentavam a sua aceitação das
limitações. E com elas ele se preparava para se tornar o
guerreiro vencedor.
Sua mocidade viveu na Zona Leste, em Vila Ramos, onde
finalmente teve a fase de auto-estima acentuada. Participou
de um grupo de teatro, onde conviveu de igual para igual com
os outros membros. Aprendeu a tocar violão e deu uma
arrancada em sua vida. A cada acorde que tocava acordava para
a sua realidade de lutador que sempre o espreitou no
horizonte.
Formou depois um grupo de teatro no Jardim Três Marias e
ampliou seu patrimônio de amizades, conhecendo, quando
reivindicava a regulamentação de um curso supletivo, a
jornalista Valdinete Gomes de Moraes, grande incentivadora de
sua carreira literária que já despontava na sua vontade de
pôr em prática os ideais de transformação social através da
poesia, do teatro e da música.
Valdinete prefaciou o seu livro –um dos projetos da sua vida-
e ficaram amigos.
Fez o curso de atendente de enfermagem do SENAC numa sala
montada na Sociedade Amigos de Ponte Rasa e participou da
montagem da primeira comissão de saúde do bairro, iniciando
ali a sua consciência política e a sua trajetória de lutas
populares.
Para ele, no fundo, o seu “problema físico” realmente nunca
foi empecilho nenhum. Dirige (e muito bem) totalmente com as
mãos um carro adaptado.
Juliana, a filha que no ginásio contava a história do pai em
redações recheadas de orgulho e admiração, sabe que o pai
proporcionou uma educação boa e construiu uma família feliz.
A princesa, nascida num dia 22 de outubro , não vê
dificuldade nenhuma no fato do pai ser deficiente. Diz que
ninguém carrega a deficiência dele. Todos caminham a seu lado
com muito orgulho e felicidade.
Até hoje a sua biografia está no mural da escola Dom João
Maria Ogno (NAE 7) onde concluiu o ensino supletivo de
segundo grau.
Gostoso ouvir suas histórias. Expande felicidade quando fala
da companheira que conheceu no hospital modelo. Um dia, no
refeitório do hospital ela chamou a sua atenção. A sua
aproximação tornou-se para ele um momento inesquecível.
Tropeçou com a bandeja e tudo, levantou e se dirigiu até a
mesa. Após uma conversa inicial, marcou um primeiro encontro
dentro do metrô e nunca mais saiu da cola dela.
São tantas histórias, tantas curiosidades. Uma vida dourada,
digna de um guerreiro.
Leia, ainda, nesta edição:
MANIFESTO DO ESCRITOR CONTRA A GUERRA