08/02/2003
Número - 301
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Marciano Vasques
SOBRE A LITERATURA INFANTIL
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A Literatura Infantil transmite os valores fundamentais para
a criança. Fundamentais porque vêm de fundamento. É o
discurso que funda, o discurso fundador. Todos os estudiosos
da Literatura Infantil sabem disso. Primeiro, que há valores
que são fundamentais, que fincam as bases de uma cidadania
universal. Valores que estão numa educação humanista;
segundo, que a Literatura Infantil é a transmissora nata, por
excelência, desses valores.
Giorgio Manganelli, que fez uma leitura reveladora de um
clássico infantil, sabe disso, e todos os outros autores.
A Literatura Infantil apresenta-se como um espetáculo. Ela é,
por si só, espetacular. Tudo nela converge para o espetáculo
da infância. Os bichos, as paisagens da floresta, as
florestas, o “Era uma vez”.
No espaço sem figuras está escrita a história. A letra é uma
outra espécie de figura, de ilustração. O que o desenho não
mostra está ali, está contado ali, naquele espaço cheio de
sinais estranhos, é lá que está a historia. Os coloridos
desenhos apenas ilustram, enfeitam. É essa a grande mágica, o
despertar da curiosidade. Quando isso acontece, a criança
está ganha. Ao ter a sua curiosidade despertada para o espaço
da letra, ela já se tornou um leitor.
A importância da ilustração é inquestionável. Trata-se da
protagonista para a criança em fase de alfabetização, pois é
ela, a ilustração, que conduz a criança ao mundo mágico da
história, que na letra está.
Depois, a ilustração vai se encolhendo e ganha espaço a outra
ilustração, a outra figura, feita com as letras. A letra é a
figura que substitui a ilustração. A letra é outro desenho.
Todos os personagens são amigos. O gato de bota, o lobo, a
bruxa, a princesa, o sapo. Todos estão imbuídos de amizade
que é universal. Atravessa fronteira a amizade da criança com
os seres fantásticos.
Fantásticos porque têm a origem na fantasia. A fantasia é a
vestimenta dos personagens. É a vida real que está
fantasiada: Branca, Cinderela..., vestiram uma fantasia para
entrar no mundo da imaginação, onde se elabora a realidade.
Quando se fundem as duas é melhor, o resultado é
impressionante. Monteiro Lobato fez isso, o homem do sítio
colocou crianças de verdade convivendo com seres da
imaginação. Uma fusão espetacular. Nenhum outro modelo
pedagógico se aproxima do sítio. O modelo ainda inimitável de
Lobato, está nesse fundir.
Na imaginação temos a realidade apresentada de uma tal forma
que precisa ser decifrada. A criança precisa burilar essa
imaginação para dela extrair a realidade. A chegada da
criança no mundo real se dá por uma ponte inquebrantável. O
trânsito original da criança rumo à realidade flui nessa
ponte que é a Literatura Infantil. Tal literatura se
constitui como ponte, e por ela a criança atravessa sã e
aprende a governar os seus sentimentos, assim como
compreender a realidade na qual vive.
A Educação deveria observar essa função da Literatura
Infantil, e rever alguns de seus conceitos, principalmente o
da exatidão, no sentido da educação exata, cuja lógica
converge para um saber adulto, desprovido do saber infantil:
o único capaz de invadir o universo de magia e do “Era uma
vez”. Talvez alguns fracassos escolares pudessem ser
evitados.
Toda ela, a Literatura Infantil, a Bela Branca, se ocupa da
construção do edifício ético cujas colunas da armação são
formadas por aqueles valores fundamentais.
A criança em contato com a Bela Branca (que é multicolorida)
está sendo preparada para viver a travessia que a levará para
a compreensão da ciência, que é outra espécie de
encantamento. O encantamento do adulto, mas que principia na
criança da travessia, quando diante de uma vela acesa que
derrete. A chama da vela, a fumaça que se dissipa, tudo é um
mistério que aproxima, um convite para o saber. O pente que
se esfrega nos cabelos e atrai o papel picado. Enfim,
trata-se do encantamento cujo nascedouro está na criança. A
criança que poderá se apaixonar pela compreensão científica,
assim como ler os filósofos, qualquer um, um Montaigne, um
Heidegger, um Nietzsche, enfim.
A Literatura Infantil terá existido desde os confins do
tempo, na sua forma oral, na oralidade, com seus seres
(dragões, etc) e principalmente, animais.
O animal está mais próximo da criança. A sua identificação
com ele é imediata e estrondosa, o animal é o outro. Ele é o
ser que convive no mesmo mundo, não há diferenças de
universos, e ambos precisam muito de afeto, ambos são
indefesos.
O alfabeto animal a criança logo entende. Ela começa a falar
pelo au, au, au...
Grandes personagens da Bela Branca são animais: corvos,
lobos, raposas, coelhos, grilos falantes, e sapo.
Possivelmente doutores da Educação, os que lidam ou teorizam
sobre a pedagogia, os responsáveis pela organização do saber,
os que fazem o movimento pedagógico, precisam ter contato com
a Literatura Infantil e ouvir o que o sapo tem a dizer, antes
de se transformar num príncipe.
O que são os animais da Literatura Infantil? O que são as
bruxas, os ogros, as fadas, os príncipes? São os sentimentos
humanos, são eles que estão representados na Bela Branca. O
ciúme é um personagem presente em quase todas as histórias. O
amor, o ódio, o medo...Todos os sentimentos humanos estão na
Infantil, assumindo suas formas visíveis. É disso que trata a
Literatura Infantil: os sentimentos humanos. É através da
decifração desses sentimentos que a criança se apropria da
travessia. É assim que ela vai se confrontando com a
realidade. É assim que ela se prepara para viver realmente.
Kierkegaard leu Andersen? Alguns intelectuais ficaram
apaixonados pelo saber do “Era uma vez”?
Seria proveitoso para o mundo e principalmente para o
universo pedagógico se todos os estudiosos pudessem dar uma
espiada na Literatura Infantil.
(08 de fevereiro/2003)
CooJornal no 301
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.com.br
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