22/02/2003
Número - 303
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Marciano Vasques
DIREÇÕES OPOSTAS
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Quando a peixeira foi inventada, a humanidade deu um grande
passo. A peixeira é um facão. O facão, uma faca grande
transformada, assim como um caminho longo foi transformado
num caminhão.
Um caminho longo. E o papel foi transformado num papelão. E
quando você faz um papel enorme, faz um papelão, porque o
papel é sempre algo delicado. Seja quando se está no palco,
ou quando se escreve ou lê. Mas um papelão é algo geralmente
grotesco, uma espécie de pastelão, que é um pastel grande. Às
vezes um papelão é importante.
Uma tortada, por exemplo, pode ser interpretada como algo
grosseiro, algo grotesco, mas às vezes é necessária e adquire
o status de importante porque é um gesto dramático para se
chamar atenção sobre algo que pode estar incomodando, sobre
uma situação que está preocupando pessoas que investiram sua
fé numa luta, etc.
Num país em que preconceito (deslize preconceituoso) de
autoridade é gafe, as pessoas geralmente infelizmente ainda
se manifestam apenas contra as conseqüências. De um modo
geral, a conseqüência tem mais importância do que a causa. A
tortada, assim como uma guerrilha (a do Araguaia, por
exemplo) é uma conseqüência, válida, mas nem sempre
compreendida. Não se preocupam muito com as causas. Formas de
reações, às vezes desequilibradas (não é o caso de uma
tortada, principalmente se ela for doce, que é sempre uma
atitude, um gesto intelectual extremo e genuíno) ou raivosas,
não passam de conseqüências. Mas, e as causas?
Uma professora magoada trabalha chateada, isso é uma
conseqüência. Não há conseqüências sem causas. A fome é uma
conseqüência, não é uma causa. O lucro astronômico dos bancos
no Brasil é uma conseqüência, não é uma causa. É preciso
atuar sobre as causas, pois ocorre justamente que uma
conseqüência é transformada numa outra causa e isso vai
crescendo, transformando-se numa espiral infinita.
O lucro astronômico dos bancos e a fome passam a ser causas
de outros problemas que só podem ser solucionados através de
duas atitudes: muita disposição e determinação política e
exame minucioso das causas primeiras.Assim como na Literatura
você sempre retorna aos discursos fundadores, também na vida
é preciso sempre retornar às causas fundadoras.
A espiral é gigantesca e o grande acontecimento político é
chegar às causas primeiras, às causas fundadoras. Esse seria
um fato genuinamente digno de aplausos.
Quando a peixeira foi inventada, o passo gigantesco da
humanidade se deu no sentido da própria invenção. O enorme
facão foi criado para facilitar a vida da mulher, para ajudar
a mulher a cortar e a limpar o peixe. O peixe é a causa
primeira do surgimento da peixeira, e o peixe é o símbolo da
fome, da alimentação: a verdadeira causa, embutida no peixe
pelo qual se inventou a peixeira.
Se a peixeira foi usada para matar, isso é uma conseqüência
de uma causa supostamente intocável. Um desvio cultural
imenso usar a peixeira para matar. Enterrar na barriga de
alguém uma peixeira é desconhecer a causa primeira,(é a
substituição da causa primeira pela causa supostamente
intocável -a que leva alguém a matar) é desrespeitar a
grandeza da razão humana. É aliar-se ao obscurantismo de uma
cultura que não corresponde à cultura original, a que criou a
peixeira.
Não encontra paralelo na tortada, que poderia ser
interpretada como um desperdício num país deitado em berço
esplêndido, com “carência” de alimentos. A tortada é
plenamente justificada, tal como o aplauso ou a vaia, mas a
utilização da peixeira para matar gente, não.
Caminhar em direções opostas é o grande acontecimento
cultural que precisa ser enfrentado por aqueles que utilizam
-se dos três mosqueteiros da alma: a determinação (o ponto de
partida, o arranque inicial em qualquer empreendimento), a
persistência (que garante a permanência no ideal, mesmo que
sejam atribulados e gigantescos as procelas, os vendavais e
os terremotos) e a boa vontade, esse preceito interior tão
urgente em todos os tempos, esse extraordinário e mítico bem,
vindo das escrituras sagradas.
A peixeira, a internet... Quando a inteligência humana
(aliada à razão) criou a internet certamente foi para
diminuir distâncias e facilitar a comunicação entre os
humanos. A chegada da internet representou um novo passo, uma
nova era da humanidade na comunicação, desde as pedras, os
papiros até à internet.Que linda é a caminhada humana na
busca impressionante da comunicação! A internet não foi
inventada para que a pornografia, os preconceitos, as
superstições fossem disseminados, assim como o livro não
surgiu para que essas coisas pudessem circular entre os
humanos, mas as direções opostas são inevitáveis, pois as
causas (sempre profundas) parecem inatingíveis.
Pornografia não é algo plenamente justificado e tem uma causa
para existir. Tudo tem uma causa: o esoterismo, o uso
inadequado da peixeira (o coronel moderno que usa a sua
peixeira moderna); nada existe sem uma origem, que seria a
causa primeira. A doença também tem uma causa.
Há certamente mais remédio para se atacar conseqüências (que
são as doenças), do que as causas, assim como as doenças da
alma, do espírito humano, cujas causas estão à disposição de
quem se dispuser a estudá-las. Sobre as doenças do corpo, a
medicina se debruça (louvável!) na produção de medicamentos e
remédios (remediar) para atacar as conseqüências e evitar ou
adiar a morte do paciente (que certamente se tornou paciente
contra a sua própria vontade, pois num leito hospitalar
qualquer um gostaria de ser e estar impaciente), pois ela, a
medicina, para atacar as causas, no sentido de atuar
preventivamente, dependeria de uma grande auxiliar, que se
nega, que é a boa vontade, no caso, política (um dos três
mosqueteiros) dos governantes das sociedades humanas.
Enquanto culturas se chocam, -gladiadores em colisão
extrema-, e direções opostas manifestam-se no cotidiano da
humanidade, a razão procura estabelecer pactos com a
inteligência, para que o percurso não seja interrompido, o
percurso dos benfeitores da vida humana.
(22 de fevereiro/2003)
CooJornal no 303
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.com.br
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