08/03/2003
Número - 305

-

 

Marciano Vasques
  


EDUCAÇÃO NO DOMINGO DE CARNAVAL

 

A Educação é sempre motivo de assunto atraente em conversas sadias. Todos gostam de opinar e a opinião adquire um status de consciência política. Às vezes penso que a melhor forma, no meu caso, de expor idéias sobre a Educação seria através de um conto, como fazia, por exemplo, Machado de Assis, muito embora eu jamais chegaria a tanto, em qualidade.

Entretanto, como não estou inspirado sequer para uma crônica, no estilo da própria, vou tecendo comentários sem exigências literárias e tento assim passar um pouco ao leitor do que por aí acontece.

Aluno vomitando, com febre, doente. A mãe manda para a escola por causa do leite. O leite faz falta. E o aluno empurrado vai para escola, por sua causa. Ninguém quer perdê-lo e por isso lá está a criança ardendo em febre e o drama da professora, pois a escola não pode dispensar o aluno e se dispensa ficará com falta. A mãe sabe disso, mas quem decide é o leite em pó.

Anomalia, desvio pedagógico. O fato citado acontece numa escola municipal da Zona Leste de São Paulo, mas certamente em outras. Anomalia, desvio pedagógico: o prefeito, que introduziu a recompensa mensal para o aluno que não faltasse, encomendou uma pesquisa na USP. O que ficou provado é que a maioria dos alunos é deficiente, nutritivamente falando. Realmente o leite seria um reforço na alimentação e criança melhor alimentada aprende mais. Que o leite em alguns casos tenha virado moeda de troca, inclusive para pagar dívidas, é questão que foge ao controle da prefeitura.

Alunos jogaram os uniformes na linha do Metrô.Um funcionário do Metrô levou os uniformes até o Núcleo de Ação Educativa. Não é certo o que esses alunos fizeram. Não é assim que se manifesta uma insatisfação.

Esporte, educação física: realmente modifica o jovem? Há os que defendem ardorosamente que sim, outros já começam a pensar melhor e acreditam que o esporte não produz o efeito esperado na transformação da personalidade, na lapidação da pessoa.

Um passeio na escola sempre faz bem. Todos deviam mesmo dá-lo. Seria por demais proveitoso um contato com a realidade, às vezes camuflada.

O professor vive um drama, aliás, vários. Um deles pode ser resumido na clássica pergunta diante de uma proposta de curso de reciclagem: “E quem tem acúmulo?”
Na dispensa de ponto para a participação num curso de reciclagem, tão fundamental para o aperfeiçoamento do professor, um problema gigantesco surge: Na escola não tem substituto. Não há professor substituto. É uma falta preciosa, que interfere no andamento pedagógico da escola, considerando que pudesse haver uma linha mestra a contemplar as necessidades atuais.

Há outros problemas. Aluno do ginásio não gosta e não usa o uniforme. Não usa porque não gosta. Também não gosta do caderno. Despreza. Talvez prefira cadernos com Tiazinha na capa, mulheres quase nuas, enfim, os modelos que a indústria vai enfiando na juventude.

Uma Educação à deriva, sem rumo, pode ser explicitada na observação geral. Não é especifica de um município ou de um estado.

Exigências verticais descabidas consolidam a governabilidade e a escola cai em apuros para cumprir ordens que são para ontem.

Em algumas escolas os horários não estão formados em pleno março pós-carnaval. Faltam professores. E os alunos vivem na incerteza sobre quando começarão as aulas de informática, por exemplo.

É preciso muita honestidade intelectual para se admitir a indisciplina da escola para com o aluno. Ela engessou-se na prática de ver indisciplina apenas no pobre do aluno, e hábitos ilegais, como assinaturas de transferências sem datas sempre incomodaram as direções, conscientes de suas limitações dentro de uma situação que não se origina exatamente dentro da escola, mas a atinge com um impacto nunca antes visto.

A escola quer caminhar e tem consciência de que está muito abaixo do que a época exige. Uma falta de abertura sincera para o outro certamente contribui para a permanência de um modelo falido.

O professor, também responsável pelo caos atual, não pode ser chocalhado sozinho. Há outros responsáveis.

O maior de todos é o pensamento dominante de que os problemas da Educação podem ser solucionados com assistencialismo ou, por exemplo, apenas com a compra (louvável) de livros pelo governo anterior para serem distribuídos aos alunos. Isso certamente ajuda, mas o que falta é a consciência (transformada em ação) de que a Educação é um paciente que necessita urgentemente de uma delicada cirurgia, na qual possam os males ser extirpados e o organismo possa então sadiamente funcionar.


(08 de março/2003)
CooJornal no 305


Marciano Vasques, 
escritor, poeta e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.com.br