22/03/2003
Número - 307
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Marciano Vasques
ARTE QUE SE DIZ ARTE
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Que distância eu pressinto na relação estética para com a
vida no cotidiano!
A arte e a cultura estão distantes sem ao menos se darem
conta de que faz parte da vida a busca pela estética, pela
arte.
A arte não precisa ser transformada a ponto de se tornar uma
não arte, uma arte sem o compromisso com a estética, não pode
se emaranhar num certo equívoco da arte contemporânea, que
exposta tenta dizer o nada. Incapaz de provocar e de comover,
apenas consolida o equívoco.
Subserviente, atende à pretensa elite, a que detém os poderes
dentro de instituições e forja um gosto estético vazio, oco,
para o nada. Acompanha em sua pose, em seu cume, em sua
altura, o padrão cultural da música na rádio e na televisão,
com a agravante de ostentar os títulos de arte e de
intelectual.
A beleza não tem um padrão único. A Xuxa loira, que muitos
acham um padrão bonito, é apenas um padrão de beleza, entre
tantos.
Acontece isso também: se você não vai ao cinema, tudo bem. Se
não vai ao teatro, tudo bem. Se não vai à exposição, tudo
bem. Se não vai não tem importância.Tanto faz ir ou não ir,
você sobrevive do mesmo jeito, não faz falta. Não causa
angústia ir ou não ir.
Você não vive sem alimentar o corpo, mas vive sem ir à
exposição, ao museu, ao teatro, ao cinema.
Há um placebo, que está em sua própria casa.
O placebo é eficaz. Na medicina produz resultados
satisfatórios, em casa a televisão é o placebo que produz
resultado, quando aplicado numa sociedade mentalmente
enferma.
Mentalmente enferma porque não vai ao cinema e não sente
falta, não fica angustiada, não vai ao teatro, ao museu, à
exposição, não participa, não vibra, não está lá, e não sofre
por isso, vive tranqüilamente sem essas coisas. E tome
televisão. E tome vídeo-locadora!
Não que a televisão seja um mal em si. Não é. É um grande bem
na busca da humanidade pela comunicação. O mal está no fato
da televisão substituir integralmente a possibilidade de
acesso à cultura. Você não vai ao teatro, à exposição de
arte, ao sarau poético, mas está no sofá, e tem à sua
disposição o Faustão, o Gugu Liberato, o João Kleber, o
Sergio Malandro, o Silvio Santos, o Raul Gil...
A cultura que não funciona com controle remoto, essa está lá,
aonde você não vai, está nas ruas, nas praças, nos teatros,
na sala escura...
Talvez uma pauta do olhar seja o que falta. A arte, a
cultura, é o grande acervo da vida. Humanos são feitos de
memória e a memória vem via afeto, ela pega pelo sensível, e
o sensível está na arte, é nela que o olhar repousa, a
audição...
A arte é a própria memória humana, é a extensão humana na
memória que se tornou obra.
Valiosa é a vida. Por isso é importante você cooperar pela
sobrevivência da espécie. Cooperar: a importância de cooperar
no mundo, cooperar é estar lá, onde a arte chama, ouvir o
chamamento. A arte lapida o sentir, o exercício de ouvir, a
prioridade de ouvir; isso tudo a música oferece. A prioridade
do olhar; isso tudo a arte oferece.
A arte também é nutrição.Tem a mesma importância da maçã e do
jiló para o corpo. Se não alimenta a alma, significa que fala
para o nada.
Nós, que vivemos a época da infantilização (veja Big Brother-
adultos brincando de jogo simbólico), onde vigora a eterna
busca pela permanência na juventude ao lado da banalização do
adulto e ouvimos pessoas que temem se confessar ou se
comportar como adultos. Nós, que nem sequer vamos onde a arte
está (O povo tem que ir onde o artista está!), nós que nem
sequer compreendemos que a história humana está escrita nos
livros, (que recebeu um enorme apoio do cinema, do teatro, da
fotografia e outros), nós, que nem compreendemos o fulcro da
vida na arte, nem podemos compreender o quanto a arte está ao
lado da Educação.
Falando em Educação, pela primeira vez penso no filme Os
Invasores de Corpos não apenas como uma metáfora política,
mas como uma metáfora da Educação.
Quando me ponho a escrever sei que a minha escrita não tem um
rumo. Sinto necessidade de falar de coisas e por isso termino
com a Educação, que a cada dia, nas escolas, burocratiza o
outro, instituindo o relacionamento brutal.
O outro não pode ser burocratizado, em hipótese alguma. Para
evitar que isso aconteça, seria bom se através da Educação
pudéssemos chegar à arte, não arte desvinculada da vida
cotidiana, não também no sentido de abandono da estética, ou
no sentido do afrouxamento das exigências do olhar.
(22 de março/2003)
CooJornal no 307
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.com.br
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