25/04/2003
Número - 312
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Marciano Vasques
A POESIA
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Mulheres de cândida. De anil. Vozes torcidas. Poesia.
Quintais perfuram a memória. Ventanias. Janelas. Casas. Cores
de Tarsila.
Um dia eu corria livremente. Um dia rabiscava o papel de pão.
Depois, fui me transformando num teatro redondo. Veio a chuva
e o vento forte quase levou a lona.
E na solidão me vi no centro do teatro redondo. Tal como um
arlequim. Um fantasma azul. Um menino indefeso.
Um menino.
Escrever é para exorcizar a alma.
Alma no palco e acima da lona as estrelas falam que preciso
ir embora das circunstâncias.
Escrever é tanto que me atrevo até a saber que sou maior
quando escrevo.
O que sou além de alguém que precisa ocultar-se através da
escrita?
Ocultar-me é revelar-me.
Invadir-me e depois me oferecer para as circunstâncias.
Escrever-me.
Mulheres enganadas. Mulheres responsáveis pela manutenção da
mais estranha forma de conhecimento: a intuição.
Não mais há espaço para mim.
Preciso ir embora das circunstâncias. Escrever-me. Talvez a
alma tenha se soltado dos varais e tenha sido levada pela
trilha que abria o eucaliptal.
A solidão nada é além das circunstâncias. Cada vez escrever
mais. Não há outra saída.
Escrever-me.
As circunstâncias. Quem sabe disso, minha amiga?
Luto contra a condição de ser poeta. Vivo assim no meio do
palco e agradeço pela lona perfurada pela luz das estrelas.
Não queria ser poeta. Tal desvio eu não queria.
Ganhei um jogo de boliche, desenhei inúmeras vezes o
distintivo do Santos, ganhei armas de brinquedo. Tive
regalias. Eu não devia ser poeta. Nunca consegui separar o
escrever do ser.
Quisera apenas trabalhar com as palavras. Quisera ir mais
longe. Fazer da poesia um centro de experimentos. Quisera
abolir o compromisso com o sentir.
Queria que a poesia fosse em mim apenas uma oficina.
Minha amiga, o que faço?
Quem amou verdadeiramente a minha alma de poeta?
Quero ir embora.
Quisera ir mais longe. Ser apenas um acadêmico, um
pesquisador. Quisera ser concreto. Quisera ser prático. Mas
ser poeta não é justo.
Escrever arremessa o teatro redondo, arremessa o menino.
Arremessa a alma.
Ninguém transporta circunstâncias.
Quisera apenas me preocupar com a Educação. Quisera apenas
ler o jornal.
Minha amiga. Sempre há de ter você.
Ninguém transporta circunstâncias. Ninguém ama a alma do
poeta.
Ele é feito da vida que todos perdem.
Quero ir.
Está certo dizer que o poeta é um ser normal, um cidadão que
trabalha, é explorado como os outros, tem uma vida social,
uma família. O resto é construção fictícia, deslumbramento,
fantasmagoria da alma.
Não tem jeito, minha amiga. Estou doente de poesia.
Doente.
Não está certo acreditar que o poeta é um ser normal. Ele é
diferente da sociedade.
A luta que trava com a sociedade é medonha. Uma batalha
impressionante. Fatalmente a sociedade vence.
O poder de barganha da sociedade é imenso, o seu poder de
venda e compra é sedutor. A sociedade é imposta, penetra
dentro dos indivíduos por mil orifícios. O poeta não tem
auxílio.
Se o poeta conseguisse penetrar dentro dos indivíduos com a
sua poesia, se a poesia fosse necessária pelo menos um décimo
do que são as coisas que a sociedade inventa...
Os produtos, o lazer, a diversão.Tudo é tanto. Mas a poesia é
teimosa e resiste. Não se transforma em mercadoria. Golfo na
aridez, não quer ser apenas lazer. Então, fica como a
filosofia.
Ser poeta é dramático.
Estar no meio do teatro redondo, protegido pela lona, mas ao
mesmo tempo se abrindo para a tempestade lá de fora. Bebendo
a tempestade. Deixando que a alma seja rasgada por cada
relâmpago, se alimentando da ventania. Lambuzando -se de
astros. Golfando luzes.
Não quero ir embora.
Minha amiga. Ninguém transporta circunstâncias.
Não sei onde você está agora.
Como seria bom ter alguém para conversar!
(25 de abril/2003)
CooJornal no 312
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.com.br
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