02/05/2003
Número - 313

 

Marciano Vasques
  


ANA MARIA MACHADO

 

Bem do seu tamanho é a Literatura Infantil.

Com alegria recebi essa notícia; você entrou na Academia Brasileira de Letras!

Avental que o vento leva. Assim são nossos sonhos quando por eles não lutamos, mas você lutou, foi em frente sem vacilar e fez do seu sonho um novo colorido para a infância. Um colorido que você ergueu com suas histórias, sempre repletas de magia, mas também sempre mostrando que há algo além do reino da obediência, que criança bem comportada é a que mesmo escondida abre o baú da imaginação e se apossa do tesouro e que a felicidade pede um jeito de histórias que não se esquece.

Fiz voar o meu chapéu para cumprimentá-la, quis que soubesse que a conheci na Cidade Tiradentes, aquele bairro pobre da extrema periferia da zona leste de São Paulo.

Você que viajou ao longo de muitos anos pelo mundo afora, estava lá, na Cidade Tiradentes, na minha Sala de Leitura.

Foi lá que, naquela escola municipal que nunca mais saiu do meu coração, entrei em contato com os seus livros, depois nunca mais parei. Li um atrás do outro. Você me fez acreditar imediatamente que eu também tinha direito ao mesmo deleite das crianças e fui percebendo através de seus textos que a Literatura Infantil é uma coisa gostosa, feita também para a leitura do adulto esperto.

Uma vontade louca de continuar lendo sem parar foi o que se deu a partir de então. Estava em 1997.

Já sabia de você, das suas histórias para a Editora Abril, lembro de ter tido contato com os seus escritos numa banca de jornal, depois li alguns textos de sua autoria no Jornal do Brasil e seu nome surgiu nas madrugadas de conversas sobre Literatura Infantil e passou a freqüentar essas rodas sem fogueira no centro, ou talvez com fogueiras imaginárias. Mas, ler mesmo suas obras, ter contato de verdade com seus livros, isso foi na Cidade Tiradentes, no ano em que certamente já beirava uma centena de obras. Tanto tempo perdi !, mas o que veio superou doce de leite, cocada, todos os doces da minha infância.

O grande motivo da minha alegria é porque você é mulher. Nem imagina o quanto é importante esse fato: a sua eleição na ABL, não que você não fosse antes imortal, apenas que uma mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras é algo especial em nosso país.

Trabalhei com suplência durante vinte anos, no tempo em que era chamada MOBRAL e hoje ainda trabalho contando histórias, mostrando os seus livros e faço isso atualmente numa Sala de Leitura e, acredite, ainda há mulheres que desistem de estudar porque os maridos proíbem-nas. Sim, no país em que uma mulher já publicou mais de uma centena de livros há ainda tanto atraso e tanta ignorância. Há homens proibindo suas mulheres de estudar. Há mulheres que nunca viram o holerite do marido, há pai que expulsa de casa a filha que engravidou, há mesmo muito atraso e muita ignorância, há ainda muito medo e muita submissão e há mulheres se anulando, destruindo a condição de ser gente, ser humano e ser mulher. Há ainda muito atraso no país que parece preferir como transporte para o futuro a éguinha pocotó.

Era uma vez um tirano. Quisera que não mais existisse em nossa terra de papagaios esse tipo de exploração&dominação e que todos os homens e todas as mulheres pudessem caminhar juntos, no entanto, é assim que acontece: Homens opressores, mulheres submissas.

Por isso estou em festa, mas que festa!

Uma mulher foi eleita para a Academia Brasileira de Letras, a quinta mulher, uma chamada Ana Maria Machado.

Já havia recebido em 2000 a notícia do seu maior prêmio, o Hans Christian Andersen,e você se tornando a brasileira conhecida mundialmente.

Sei que um dos critérios para se entrar na Academia é o prestígio social, sei de alguns patronos e de alguns membros, sei da política, mas sei também que agora a Academia tem uma nova importância, por ter elegido alguém com uma tão bonita e importante obra, uma autora de Literatura Infantil e isso é fundamental para a infância do Brasil e para a valorização dessa Literatura, ainda regada com preconceitos. Foi uma conquista, uma entrada triunfal, uma vitória realmente da literatura.


(02 de maio/2003)
CooJornal no 313


Marciano Vasques, 
escritor, poeta e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.com.br