02/05/2003
Número - 313

 

Marciano Vasques
  


DIA MUNDIAL DO TRABALHO
ENTRE FÁBULAS E APOSENTADORIAS

 

As formigas trabalhando, trabalhando e a cigarra cantando, cantando. É verão. No inverno as formigas estão abastecidas. A cigarra bate à porta pedindo socorro. Coitadinha, está desesperada. Na fábula original a pobre é trucidada. As formigas a retalham, pois se ficou cantando enquanto elas permaneciam trabalhando, que dancem então.

Essa fábula sobre o trabalho e a importância do canto muito nos ensina e é oportuna na passagem de mais um primeiro de maio, dia mundial do trabalho.

Alguns o transformam no dia do trabalhador, com festas, competições, olimpíadas e eventos musicais. O que deveria ser reflexão sobre as condições dos trabalhadores no mundo virou um dia de paradas musicais e até desfiles escolares, festa, enfim...

O canto é fundamental para o espírito humano. Tão importante quanto o trabalho. O que maltrata o homem não é o trabalho, pois se ele se sentir produtivo será feliz.

Filósofos proclamam que a felicidade está vinculada à produtividade. O que ocorre é que a exploração do homem pelo homem é a maior responsável pelo surgimento da infelicidade. Um homem explorado jamais há de se sentir produtivo e assim nem se lembrará o quanto o cantar faria bem ao seu coração.

E o canto só é válido quando floresce na consciência da felicidade, caso contrário, não tem sentido. Um homem indo às paradas musicais e festividades apenas para participar do processo de nublar a sua mente, de entorpecê-la quando deveria estar límpida para gritar contra a exploração, é um homem em estado de desagregação.

Homens produtivos são os que se realizam com o trabalho. Por isso não é novidade que alguns trabalhem até o fim da vida, como artistas, criadores e até empresários que erguem seus impérios, alguns inclusive usando na argamassa o sangue de milhares de trabalhadores explorados.

Mas é diferente com o trabalhador humilde, que não vê sentido no desperdício da sua vida.

O senhor Feliciano foi um caso típico. Com os passar dos anos foi se automatizando. Trabalhando cada vez mais para sustentar os filhos, chegando a ponto de trabalhar em três empregos de uma só vez, sendo dois como entregador de jornais, e um na CMTC, onde foi explorado durante a vida toda, e depois passando a viver com uma insignificante aposentadoria escolheu a morte lenta sentado em frente de uma televisão, pois não lhe restou alternativas.

O que é uma aposentadoria? O que significa o termo ? Quais as possibilidades semânticas da palavra? Aposentar-se quer dizer originalmente voltar-se para os aposentos, ir para dentro de casa, aposentar-se, ir aos aposentos, mas não é bem assim, um aposentado deveria poder sair dos aposentos e ir ao cinema, ter direito a viagens, gozar merecidamente um pouco a vida. Não apenas recolher-se aos aposentos, mas usufruir a vida e vivê-la dignamente. Não dá para falar do trabalhador sem falar do aposentado, pois um é o outro, um é apenas a extensão do tempo, ambos merecem o maior respeito. É uma deformação do entendimento a crença na qual um deve ser sugado até o fim enquanto o outro é sinônimo de ócio, de culto à preguiça. Se o aposentado pudesse acompanhar o movimento cultural do mundo e dele participar estaria tão produtivo e terminaria feliz a sua vida.

O governo quer ver aprovada a reforma da previdência. Um dos pontos injustos é justamente a ampliação da idade mínima para a aposentadoria. Ponho-me a pensar num homem trabalhando até os sessenta anos. Qual o sentido da sua vida? Resposta: tem sentido se ele trabalha para si, o que significa, se ele se sentir produtivo, não apenas uma peça de uma engrenagem na qual ele é atuado apenas como um bagaço a ser espremido até a última gota de suco. Sempre o imagino como os caules de cana que são colocados nos tais moedores para a feitura da garapa.

Diz o governo que a estimativa de vida está sendo elevada a cada ano, ou seja, as pessoas estão vivendo mais, por isso precisaria trabalhar mais, até mais tarde, que é para o sistema previdenciário suportar o pagamento dos benefícios. Se vamos viver mais, devemos então trabalhar até mais tarde.

Este primeiro de maio é o mais importante das últimas décadas, pois surge exatamente num momento de especial confronto entre a idéia de felicidade (aliada à produtividade, ao desenvolvimento das potencialidades) e ao descaso com o sentido ético da vida, com a valorização do ser enquanto um ser que produz. Devemos sim referendar o primeiro de maio, torná-lo força absoluta dentro de cada um de nós, para a reflexão, para a compreensão de que os impérios são construídos com a força anônima de milhares de trabalhadores, em cuja situação beira o choque de limites entre o assalariado e o escravizado.

Viva o primeiro de maio. Que a possibilidade do canto consciente possa penetrar em cada um, para que a vida reencontre o seu ideal de felicidade, e que o homem possa viver de acordo com a sua natureza, algo distante certamente da condição de máquina ou peça descartável, como é deveras confundido.



(02 de maio/2003)
CooJornal no 313


Marciano Vasques, 
escritor, poeta e professor 
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com  

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