17/05/2003
Número - 315
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Marciano Vasques
EDIFICANDO PRESENTES
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Tenho em sentido de prontidão os mecanismos de paz. Estão
dentro de mim para serem acionados mecanicamente. Nada se
torna mecânico por acaso. O mecanismo é fruto, resultado de
estudos prolongados, de esboços diários, persistências. É
costume se maravilhar pelo mecânico, (os resultados), faz
parte da cultura das conseqüências. Pessoas geralmente se
importam muito com os resultados, com as reações, com as
conseqüências. As causas não parecem ter muita importância
fora do universo da filosofia e das ciências. Pessoas se
impressionam muito e sempre com o lapidado. Poucos se
interessam pelos caminhos percorridos.
Entre os meus mecanismos de paz estão os mergulhos
epicuristas. Deles me necessito e a eles recorro-me de vez em
sempre, às vezes a eles me recolho. São os velhos e
eficientes mergulhos interiores, geralmente regados pela
solidão escolhida. São mergulhos para a felicidade.
Um desses mergulhos se refere à estonteante busca prazerosa
que realizo quando me adentro ao profundo vale abismal que a
minha alma preserva.
Evidente que essa preservação exige uma permanência na
distância. E a busca se refere à arte. Trago-me à mente, à
claridade do meu olhar, à pintura, aos quadros que em
circunstâncias (eu diria, fragmentos) da minha existência se
apresentaram. Trago-me Cravo, lírio, lírio, rosa, uma pintura
de mais ou menos 120 anos, realizada por Sargent e baseada
numa canção chamada A Grinalda. Para pintá-la o artista
transportava canteiros de rosas quando as flores do jardim
murchavam, e plantava novos lírios.
Não sei exatamente os fatos, os motivos interiores, matizes
do meu ser, que me levam ao emocionar diante da arte dessa
pintura, talvez o fato de que o artista esperava sempre pela
luz especial do crepúsculo. Talvez porque as tintas não
fossem luminosas o suficiente para retratar a luz vinda das
lanternas de papel penduradas em árvores e flores que
enfeitiçavam a sua alma.
Lembro-me sempre de um outro quadro desse artista, o Lady
Agnew, que encantou uma academia inglesa com a harmonia
cromática do lilás e do branco. É sem dúvida uma pintura
repleta de felicidade que fez morada em minha alma assim como
duas pinturas de Almeida Júnior, e outras. A força dessa arte
transporta-me para a minha essência em pleno XXI da
fotografia digital. Não consegue em mim esse efeito
devastador uma certa pintura contemporânea.
Outro pintor, esse conhecido certamente de todos os leitores,
é Marc Chagall, um dos casos em que o homem, a pessoa, o
artista me emociona tanto ou mais do que a própria arte.
Quando ele morreu, eu lançava o primeiro número da publicação
literária chamada Churros e entrava com toda a minha
inocência na ferocidade do mundo da poesia, divulgando poetas
que hoje os encontro na indestrutível distância.
Minha prece é meu trabalho, disse Marc Chagall, -o que
acreditou até o fim da vida na sua santíssima trindade: Deus,
a pintura e a música de Mozart.
Haverá outros Chagall, sempre os há, sempre haverá cores
puras, música e poesia. Sempre haverá artistas atraídos pela
luz. Disse isso o homem marcado pela alegria de viver, o
homem atraído pela luz que deixou cada tela plena de afeto.
Morreu com 97 anos, sem jamais ter abandonado o mágico
sentido de comunhão com a vida.
Para ele, que retratou sempre a bondade e a inocência com o
pincel, o presente também é a lembrança. Isso me leva até
Daniel Munduruku, um dos autores que mais tenho divulgado em
meu trabalho diário.
Daniel Munduruku, doutorado na USP, que sempre nos conta dos
seus choques culturais diante de nós, os civilizados. Um
desses choques foi ter descoberto que os civilizados batem em
crianças. Sim, adultos batem em crianças, mais que isso,
atualmente abandonam. Há milhares de JOÃO E MARIA na imensa
floresta de aço, concreto e asfalto.
Outro choque de Daniel é com relação ao presente. Conta-nos
que um índio Munduruku jamais guarda o presente, pois o
presente não é o futuro, então ele é para ser vivido em si
mesmo.
Quando um civilizado ganha um presente, de aniversario, por
exemplo, costuma guardá-lo; há muita gente que faz isso. O
índio entende que ganhou um presente, não um futuro, por isso
o usa imediatamente, para deixar a pessoa que o deu feliz.
Presente que originalmente significa dádiva, e mais
remotamente “a dádiva do senhor”. E é justamente o que o
índio diz: o momento que acontece.
Os únicos tempos existentes são o presente e o passado. O
futuro não existe. O futuro é o presente que se edifica.
Quando estamos no presente estamos sempre edificando
presentes.
O passado vive nos seus espaços possíveis, num poema, na
pintura, na arte, na literatura e nos livros, todos os livros
dessa imensa e infinita biblioteca borgiana. São essas as
possibilidades do passado tornar-se concreto, assumir uma
forma.
O futuro é o presente que edificamos, mas o meu passado vive
em tudo que eu faço agora.
A singeleza e a simplicidade às vezes são tão importantes e
fundamentais para se compreender um modo de ser, um jeito que
nos acontece.
O cantor Roberto Carlos, ao lado de seu amigo, construiu
coisas belas ainda não suficientemente exploradas ou
compreendidas, talvez justamente por causa de suas concessões
ou de sua vasta produção não esteticamente uniforme. Bem,
temos O divã, crítica à psicanálise, na canção simples em que
a dupla diz que “O passado vive”. Música aparentemente
simples, porém forte, que fala da festa, o apito, e na
multidão um grito, que fala então de um acidente ocorrido com
um menino numa ferrovia e que repete que o passado vive “em
tudo que eu faço agora” e que “me deito e falo pra você que
só escuta”... Foi um daqueles anos fecundos, em que o cantor
declarava na rádio os versos de sua amiga: “Quem sabe menos
das coisas, sabe muito mais que eu”.
O passado, a lembrança, sempre foi importante e em alguns
casos é determinante. Muitos outros artistas colocaram a
força do passado em suas obras, Patativa do Assaré em sua
Triste Partida, declarando que o nortista sempre foi
explorado no norte e no sul e que isso faz pena, está aí uma
relação com o passado que nos revela um momento da
consciência histórica brasileira, outro momento nos chega com
Geraldo Vandré em sua bela “Pra Não dizer que não falei das
flores” na qual se diz que é preciso se ter a certeza na
frente e a história na mão. Veja três relações com o passado
(Roberto, Patativa do Assaré e Geraldo Vandré) que revelam
três momentos da consciência histórica individual em nosso
país, três momentos importantes e fundamentais para se
compreender a importância gigantesca do passado em nossas
vidas (e da consciência que se relaciona com ele). Isso me
reporta ao artista Marc Chagall, o criador da licença
pictórica, um dos riscos de luz responsáveis pelo
encantamento de minha alma.
Sou mesmo um artista atraído pela luz, edificando presentes.
Presente e passado, dois tesouros impressionantes. E o futuro
é o presente que se edifica. Entretanto o capitalismo
inventou o futuro. Uma grande bobagem inventada pelo
capitalismo que suga as energias do presente, mas isso é
outra história.
Somos os que edificam presentes. Por isso não podemos nos
distanciar do passado presente, por exemplo, no texto
literário, um texto , qualquer um, de Nietzsche, uma
sinfonia, uma canção simples mas profunda, um fragmento de um
livro que em nossa vida se apresentou um dia, tornando-a essa
maravilhosa felicidade de viver, essa festa permanente de
luzes, essa festa de riscos infinitos de luzes que não
conseguem ser retratados em sua imensidão apenas através das
palavras.
Eis um fragmento de um livro, está na página 52, guardei o
número para que ele fizesse parte do meu acervo pessoal, o
meu tesouro inestimável, presente e à minha inteira
disposição em meus mergulhos epicuristas. Um livro que
durante um certo período de minha vida (O li na década de 70,
quando comprava os livros do Círculo do Livro) me encantou e
nele encontrei a revelação das três coisas que encurtam a
vida.
O tédio, o medo e a ira, são as três razões por que a vida é
tão curta. O tédio, o medo e a ira.
Voa. Vida ávida. Voa!
E a vida é encurtada. Algumas vidas são alongadas, como a do
pintor que jamais abandonou a sua santíssima trindade. Mas
estão aí as razões que encurtam a vida.
E assim essas coisas eu quis falar nesse encontro com vocês.
As coisas vão surgindo como as cores da pintura. E afinal
somos palimpsestos edificando presentes.
(17 de maio/2003)
CooJornal no 315
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.com.br
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