05/07/2003
Número - 322
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Marciano Vasques
A FELICIDADE DO MUSEU
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A expressão que tal coisa é um museu é uma das mais tolas
invenções da língua. Bobagens cotidianas. Uma das inúteis
vulgaridades dos dizeres.
Geralmente se atribui tal expressão em referencia às pessoas
que têm hábitos antigos, tranqueiras mentais ou objetos
amontoados. Há um certo desdém, um certo preconceito na
expressão.
Entretanto, o museu pertence ao universo do livro e isso já
diz tanto que nem precisaria muita argumentação para
retirá-lo dessa expressão. Ele tem o estatuto do livro, há
algo de sagrado nele, um certo viés de encantamento, uma
solicitude toda própria, que remete ao livro, de quem a alma
pode no museu reencontrada ser.
Museu é a outra extensão da memória humana. A primeira já nos
apontou Borges numa palestra em que do culto ao livro falava.
Quando o museu se abre para a visitação ele nos coloca em
contato com a memória preservada e nos oferece uma chance de
viagem ao passado, nos aproximando da eternidade. A máquina
do tempo da ficção cientifica está transfigurada no museu,
uma espécie de templo sagrado da memória.
O museu está lá, e estar nele ainda não encontrou substituto.
Antecipo argumentos de que o museu pode ser transportado até
a nossa casa pela Internet, mas o que ocorre de fato é que o
museu está na tela, como poderia estar num livro repleto de
fotos, mas você não está nele, nós não estamos nele.
Deixo de lado o prazer dos objetos antigos, da peças
históricas , roupas e utensílios e levo-me até a pintura, é
nela, através dela que inicio as minhas viagens ao passado. A
pintura consegue o dom da eternidade.
Alguns museus ser lembrados precisam sempre, como o Museu do
Prado (neste momento lembro de Caetano compondo a canção
“Terra”), fundado em 1819 com três dezenas de quadros e hoje
é um dos mais emocionantes do mundo. Nele estão os mestres da
Espanha. Entre os quadros, lá está “As Meninas”, de Velazquez,
e “Paisagem: embarque em Ostia de Santa Paula Romana”, de
Cláudio de Lorena.
Dias felizes que já vivi são inesquecíveis. Um deles quando
fui ao Masp ver uma exposição de Renoir. Noutro fui à
Pinacoteca. Lá um dia é pouco e eu diante de Almeida Junior e
aquela obra magnífica, tão bela. Depois, ao lado da
Pinacoteca, a Praça da Luz. Uma imagem de harmonia e paz, que
só é interrompida pela brusca visão de uma enorme propaganda
de refrigerante num edifício.É a tal força da grana.
Diante da imensa decepção política que assola o meu coração
penso em Goethe e em sua razão.Talvez uma torre de marfim
tenha um saldo positivo, extremamente benéfico. A palavra:
“positivo” costuma soar inadequada. Enfim, viva Goethe!, para
sempre!
Viva também Peter O’ Sagae!
Sobre o quadro de Velazquez, há o livro infantil de Jane
Johnson intitulado “A Princesa e o Pintor”, originalmente
lançado em Nova York em 1994 e que trata da amizade da
infanta Margarita com seu amigo especial que sabe que ela é
antes de tudo uma criança que precisa de amor e afeto. A
historia começa no dia em que o pintor vai terminar o quadro
da princesinha da Espanha.
Esse quadro foi pintado quando a princesa tinha cinco anos e
desde aquele distante ano de 1956 ele nos olha, tal como uma
das meninas do quadro “Rosa e Azul”. Esteja em qual ângulo
você estiver, o olhar da menina estará em sua direção,
dirigido a você, olhando exatamente para você. Mistérios da
arte!
O museu de Louvre! Deixemos Madri e vamos até Paris. Que
coisa linda! Que monumento maravilhoso! Passar um dia no
Louvre é viver por uma vida. Estar ao lado do Sena, no museu
que foi originalmente um palácio construído na renascença
para receber obras primas, um belo gigante que abriga o
sorriso da “Monalisa”, que abriga também “A rendeira” de
VERMEER, maravilha da arte na qual os tons azuis vão se
impondo, se alojando na pintura.
Também de Camile Corot, “A Dama Azul”, pura solidão
enigmática, o que estará afinal a pensar aquela mulher?
Jamais saberemos. Essa é a beleza! Quisera lembrar outros
quadros do Louvre, mas, eu? Sou quem? Apenas por uma
associação de idéias, por uma tal muito particular mnemônica
na qual o azul me levou de “A rendeira” para “A dama de
Azul”.
E viva também La Franca!
O olhar da menina olhando exatamente para você, dizendo algo
sobre a beleza do mundo, sobre a eternidade. Eis algo do qual
não se pode descuidar, e isso está na arte.
Sobre as águas do Báltico, o Museu Nacional de Estocolmo,
fundado lá pelo final dos 1700, aberto um ano antes do
Louvre.
Lindo e nele está “Ternura Maternal” de Carl Larsson.
Na capital da Holanda tem o Museu do Estado, Amsterdã, com o
seu “A Ponte de Pedra” de Rembrandt, jogos de luzes, nuvens,
cores, impressões tão belas que a alma num riacho se
dissolve...
Com a Europa em guerra (a segunda guerra mundial, na década
de quarenta) os holandeses empacotaram telas e as
distribuíram pelo país. Para serem salvas de um bombardeio,
as telas foram espalhadas em vários cantos das cidades, obras
de artes em abrigos nas dunas de areia e o quadro “A ronda da
noite” foi empacotado e posto a salvo num abrigo subterrâneo.
Holanda cada vez maior. E Johannes Vermeer com “A
Cozinheira”. E a insistência do azul numa peça de roupa. A
cada retorno do azul a amplificação da felicidade.
E assim vamos...
Lugares que se foram, paisagens, momentos, extensão da
memória humana, isso tudo é o museu. O museu é a permanência
das coisas que se foram.
Se pudesse visitar todos os museus, estar no Museu Histórico
de Viena, nas pinacotecas, em Berlim.
Originalmente, o templo das musas,lugar vivo,de vida
latejante,esplendor da memória humana, nada a ver com
velharias. Amo profundamente os museus. “O reino da luzes”.
Museu, lugar da felicidade, umas das possibilidades de
felicidade ao alcance de todos.
“O império das luzes”. Há um livro que li em meu castelo. “Em
busca do tesouro de Magritte”, de Ricardo da Cunha Lima.
Museu, lugar da felicidade. Extensão da memória humana que
também se ramifica no livro, no cinema...
(05 de julho/2003)
CooJornal no 322
Marciano Vasques,
escritor, poeta e professor
São Paulo, SP
marcianovasques@hotmail.com
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-023.htm
www.marcianovasques.hpg.com.br
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